Autor(a)
Ana Rita de Sousa Vasconcelos Brandão
Coautor(es)
Luanda Vasconcelos do Nascimento Dutra
Evaldo Eufrásio Vasconcelos
Pedro Henrique Freitas Sousa
Andréa Carla Brandão Vasconcelos
Catarina de Vasconcelos Pessoa
A visão representa 80% de tudo o que os sentidos podem captar juntos. Por meio dela, as pessoas experienciam cores, formas e tamanhos. No entanto, doenças como a catarata podem afetar essa percepção e levar à cegueira. Tal patologia se caracteriza pela opacificação do cristalino impedindo a passagem da luz para a retina e o único tratamento curativo é o cirúrgico, em que ocorre a substituição do cristalino opaco por uma lente intraocular – LIO. A cirurgia está indicada sempre que a qualidade de vida do portador estiver comprometida e é considerada curativa quando consegue eliminar a catarata e, refrativa, devido à possibilidade de correção do vício de refração preexistente. Pode ser congênita ou adquirida, sendo o envelhecimento o principal fator de risco para o seu desenvolvimento. Dados do IBGE apontam que 34,6% da população nacional acima de 60 anos tem diagnóstico de catarata, contra 44% da população cearense na mesma faixa etária e dentre os 45 milhões de cegos no mundo, 40% são devido à catarata. Diante deste cenário, observou-se o aumento expressivo de pacientes diagnosticados com catarata em Cruz, uma média de 28% das consultas em oftalmologia ofertadas no município resultava em indicação cirúrgica para correção. Desta forma a Secretaria de Saúde iniciou em 2022 a realização de mutirões no Hospital Municipal, abrangendo todos os pacientes com solicitação de cirurgia corretiva, tendo como critério de prioridade o tempo em fila, idade e comorbidades.
Relatar a experiência exitosa desenvolvida no Município de Cruz-CE na redução progressiva do tempo em fila de espera dos pacientes com diagnóstico de catarata, através da realização sistemática de Mutirões Cirúrgicos no Hospital Municipal, como município executor do PNRF
O serviço de oftalmologia foi implantado em Cruz no ano de 2020. Desde então, a oferta Cirúrgica da PPI sempre foi inferior ao número de solicitações. Visando a qualidade de vida dos pacientes que estavam em fila de espera, realizamos o primeiro mutirão em novembro de 2022, com recursos próprios, através de convênio municipal. Os pacientes selecionados foram submetidos previamente a exames específicos para definição do grau da lente a ser utilizada. As cirurgias ocorreram em 2 dias, contemplando 20 pacientes por dia no Centro Cirúrgico do Hospital Municipal de Cruz, com atendimento simultâneo de 2 oftalmologistas, 4 técnicos em enfermagem internos e 4 externos, para organização de fila, administração de colírio, paramentação e orientações pós-operatórias. Todos os pacientes tiveram garantido transporte de volta ao seu domicílio, entrega de colírios e consulta de retorno. A experiência repercutiu positivamente e com o início do Programa Nacional de Redução de Filas (PNRF), em 2023, o Município foi cadastrado como executor e as cirurgias passaram a ser apresentadas através de instrumento de Autorização de Procedimentos Ambulatoriais (APAC) e registradas nos Sistemas de Informações Ambulatoriais e Hospitalares (SIA/SUS e SIH/SUS), para posterior repasse ao Município, através do Fundo Nacional de Saúde, conforme Portaria GM/MS Nº 90, de 3 de fevereiro de 2023. Os mutirões repetiram-se em dezembro de 2023, abril, agosto e dezembro de 2024, finalizando o ano com fila zerada.
Em 2022, ocorreram 723 consultas oftalmológicas em Cruz, 600 no município e 123 na Policlínica da Microrregião do Acaraú. Estas consultas resultaram em 177 solicitações de cirurgia de catarata (24,48%) que foram sendo realizadas no decorrer do ano através da PPI, totalizando 58 cirurgias ao final do ano. Em novembro deste mesmo ano, com a realização do primeiro mutirão, foram realizadas mais 40 cirurgias, que juntas a oferta da PPI, reduziram em 55,36% a fila municipal. Em 2023 foram ofertadas 494 consultas resultando em 174 solicitações cirúrgicas (35,22%) que, somadas as 79 remanescentes de 2022, geraram uma fila de 253 pacientes. As cirurgias da PPI foram 66 e em dezembro, com a realização do segundo mutirão, agora como Município Executor do PNRF, foram realizadas mais 45 cirurgias, reduzindo em 43,87% a fila municipal. No ano de 2024, foram ofertadas 746 consultas com 192 solicitações cirúrgicas (25,73%) que, somadas ao restante de 2023, geraram uma fila de 334 pacientes. Mesmo com a oferta de um mutirão anual, o tempo de espera em fila ainda não agradava os pacientes. Desta forma, em 2024, foram realizados três mutirões. Em abril, com 60 cirurgias e redução de 17,96% da fila, em agosto, com 68 cirurgias e redução de 20,35% da fila e em dezembro, com o Mutirão Zera Fila, onde foram realizadas 92 cirurgias, com redução de mais 27% da fila. 72 pacientes (21,55%) foram agendados para PPI e 42 (12,57%), não realizaram o procedimento por desistência ou incapacidade.
Diante do diagnóstico de catarata, o tempo em fila de espera torna-se fator crucial na saúde ocular do paciente, visto que a doença é progressiva e pode trazer danos irreversíveis à visão. Desta forma, com a realização continuada de mutirões cirúrgicos pelo município, os pacientes tiveram a oportunidade de reversão rápida do quadro, além da comodidade de realizar o procedimento “dentro de casa”. Após a realização da cirurgia os pacientes apresentaram melhora imediata da acuidade visual e, sob o baixo risco de complicações pós-operatórias como a opacidade de cápsula posterior (OCP), recomenda-se também oferta de Capsolotomia Posterior com Yag Laser, seis meses após a cirurgia de catarata para correção de OCP além de exame oftalmológico para correção de grau, nos casos de cirurgia não refrativa, com oferta de óculos àqueles pacientes que tiveram grau de refração alterado devido à cirurgia. Ressalta-se que a iniciativa da gestão em promover Mutirões de Catarata trouxe impactos positivos para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes, uma vez que tem contribuído para a ampliação do acesso igualitário e integral da população ao serviço, fortalecendo o SUS e a promoção do direito à saúde.