Autor(a)
JANAÍNA MATEUS TEIXEIRA
Coautor(es)
ALINE MARIA FURTADO DE CARVALHO
LUCIELMA MARIA PEREIRA DE SOUSA
LARA KARLA VIEIRA PINTO
Apesar dos consideráveis avanços nas políticas da atenção psicossocial desde a Reforma Psiquiátrica, o paradigma biomédico ainda permeia a compreensão do cuidado. Diante dessa problemática, urge lançar mão de estratégias contra hegemônicas no cotidiano dos serviços que almejam oferecer cuidados pautados na multicausalidade dos transtornos mentais. Inúmeras são as possibilidades de intervenção, dentre essas a prática de atividade física tendo a água como interface de cuidado que favorece a pessoa com transtorno mental trabalhar a corporeidade e assim ressignificar sua percepção de bem estar, o que por sua vez repercute diretamente nos aspectos motores, cognitivos, sociais e afetivos. Logo, essa produção busca compartilhar uma potente experiência desenvolvida ao longo de 6 meses no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do município de Reriutaba tendo como participantes mulheres integrantes do grupo terapêutico de práticas corporais aquáticas denominado: Espaço azul.
Relatar a experiência de mulheres acompanhadas no CAPS do município de Reriutaba durante os encontros em um grupo terapêutico de práticas aquáticas desenvolvidos na perspectiva da integralidade do cuidado biopsicossocial.
A vivência teve como cenário o CAPS do município de Reriutaba. O serviço foi o primeiro equipamento substitutivo do município tendo sido inaugurado em 2021, dispondo na época de 5 profissionais e contando atualmente com 16 profissionais. A proposta é um projeto piloto que ocorreu no período de agosto à dezembro de 2024 e segue em funcionamento. Com 6 participantes do sexo feminino, idade entre 27 a 52 anos, acompanhadas no CAPS por transtornos moderados a graves com diagnósticos variados com encontros semanais às sextas-feiras. A sistemática do grupo ficou estruturada em 3 etapas: na 1ª o levantamento do perfil de pacientes com necessidades de socializar, fortalecimento de aspectos sócioemocionais, controle de impulsos, além de melhorar índices metabólicos e físicos uma vez que a maioria faz uso de psicotrópicos que predispõe a síndrome metabólica. Na 2ª etapa todas as participantes selecionadas foram convidadas mediante um encontro grupal com a finalidade de apresentar a proposta terapêutica e contrato grupal. Após consentimento da participação, foram assinados termos de autorização do uso de imagem, para respaldo legal dos registros fotográficos presentes no diário de campo, e ainda para divulgação do grupo. A 3ª etapa compreendeu os encontros para realização das atividades físicas desenvolvidas na piscina com materiais do serviço (bambolês, bola dente de leite, cones, faixas elásticas, flutuador para piscina, prancha, bexigas), além de adaptações na piscina.
Amplas evidências apontam os benefícios da integração da atividade física para a saúde mental, indo desde a construção do hábito, compromisso dos cuidadores, estímulo cognitivo (compreensão de comandos), avanço em aspectos socioafetivos (auto estima, auto percepção), coordenação motora, além de resultados em protocolos sejam aeróbicos ou multifuncionais, que reduzam os índices de gordura abdominal, peso corporal, índices sanguíneos (glicemia, triglicerídeos, HDL), melhora dos níveis pressórico, entre outros. O projeto Espaço Azul colabora na desconstrução pela própria ludicidade na qual se propõe. A temperatura média local no segundo semestre chega facilmente a 36°, com isso a atividade na água gera imediata sensação de bem - estar para alguns que pela realidade seja econômica ou limitações da condição de saúde tem o lazer tão restrito. Outro aspecto para adesão positiva é a construção do vínculo entre equipe, pacientes e cuidadores. Entre os resultados diretamente observados ou relatados pelos participantes e cuidadores, observou-se: A melhoria da qualidade de sono, redução de peso corporal e circunferência abdominal foi identificada em todas as participantes, redução de dores articulares, enfrentamento assistido a fobia de água, compreensão de limites sociais e propriopercepção em paciente com quadro de esquizofrenia e perda auditiva severa. Duas das participantes extenderam a prática de atividade física além do projeto (hidroginástica, caminhada) com recurso próprio.
Um desafio que lidamos no CAPS é o da desconstrução do cuidado em saúde mental por ainda estar culturalmente disseminado como resultado exclusivo do atendimento ambulatorial psiquiátrico. Lidamos diariamente com a recusa de pacientes e cuidadores em participar de oficinas terapêuticas, grupos de psicoterapia ou qualquer atividade que fuja do modelo tradicional de cuidado. Alguns dos nossos pacientes ainda tem um histórico de institucionalização hospitalar, o que justifica dentro da perspectiva deles a recusa. O projeto Espaço Azul é continuamente avaliado em sua aplicabilidade e resultados. Vinculado ao projeto, estão educadora física, enfermeira e oficineiro engajados no planejamento, execução e avaliação das atividades, todos compreendendo a complexidade do quadro e os resultados desejados para cada indivíduo, contribuindo para um olhar particularizado. Diante da compreensão do cuidado psicossocial como uma construção que necessita de reflexões e ações incluiu-se recentemente no projeto uma profissional Nutricionista para ofertar um cuidado integral, ficando como sugestões para intervenções futuras a avaliação dos resultados após a contribuição dessa última profissional.