Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Mariana Pinheiro de Marchi
Coautor(es)
Renata Eleutério
Fábio Miyajima
Cecili Mendes
José Eleutério Júnior
Erlemus Ponte Soares
Janaína Rocha de Sousa Almeida
Emanuel Moura Gomes
Letícia Nacle Estefan Sobral
Jayane Moura Ribeiro
Lea Dias Pimentel Gomes Vascocelos
O rastreamento do HPV é uma estratégia essencial para a prevenção do câncer de colo de útero. No Sistema Único de Saúde (SUS) o acesso se dá pela Atenção Primária a Saúde, porém existem inúmeras barreiras que dificultam ou impedem a população LGBTQIAPN+, especialmente mulheres lésbicas, bissexuais e pessoas transmasculinas, a acessarem esses serviços. Entre essas barreiras destacam-se discriminação institucional, inadequação das abordagens clínicas que gera baixa adesão a consulta e aos exames ginecológicos convencionais em virtude da falta de especificidades relacionadas ao cuidado. Na Atenção Primária à Saúde de Fortaleza, foi implantada uma estratégia de oferta de autocoleta de HPV voltada especificamente para a população LGBTQIAPN+, com o objetivo de ampliar o acesso ao rastreamento por meio de uma estratégia mais acolhedora, autônoma e adaptada às necessidades desse público. A iniciativa foi implantada a partir de uma parceria com uma pesquisa de pós-doutorado da Fiocruz, que forneceu 600 kits de autocoleta para o município. Inicialmente foi realizada qualificação de profissionais para abordagem clínica e acolhimento para a população LGBTQIAPN+. Posteriormente, a ação teve início a partir de um mutirão de saúde LGBTQIAPN+, e em seguida a distribuição de kits em quatro unidades de saúde. Como desdobramento, também foi realizado estratégia de ação extramuros durante uma festa voltada ao público LGBTQIAPN+, alcançando mulheres lésbicas e bissexuais em ambiente de socialização, favorecendo aproximação com o público que não acessa o serviço de rotina.
Ampliar o acesso ao rastreamento do HPV entre mulheres lésbicas, bissexuais e pessoas transmasculinas por meio de oferta da autocoleta em diferentes cenários de cuidado. - Reduzir barreiras institucionais relacionadas ao cuidado em saúde da população LGBTQIAPN+ - Qualificar o acesso da população LGBTQIAPN+ ao rastreamento do HPV em Fortaleza - Fortalecer práticas de equidade no SUS por meio de ações territorializadas
A experiência foi desenvolvida a partir da articulação entre gestão e serviços da Atenção Primária do município de Fortaleza. Inicialmente, foi realizado processo formativo com profissionais de saúde, abordando prevenção de HPV, manejo da autocoleta e a qualificação do acolhimento à população LGBTQIAPN+. A primeira ação de distribuição de kits se deu em mutirão de saúde LGBTQIAPN+ que foi realizada ao sábado e contava com vários tipos de atendimento em saúde, como acolhimento de demandas de saúde, dentista, vacinação, testagem de ist, entre outros. Em seguida, os kits foram distribuídos para quatro Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS), considerando estratégias de mobilização e adesão do público. Em momento posterior, visando alcançar um maior número de pessoas e aquelas que não acessam os serviços de saúde, a ação foi levada para um evento de sociabilidade destinado para mulheres lésbicas e bissexuais que acontecia durante o período noturno em um bar da cidade. A articulação entre pesquisa, territorialização e diversificação dos cenários de cuidado permitiu ampliar a captação de usuárias e fortalecer o vínculo com populações pouco alcançadas nas rotinas de cuidado da Atenção Primária.
A experiência ampliou a oferta de rastreamento do HPV para público historicamente pouco incluído nas ações regulares de prevenção. No mutirão foram realizadas cinco coletas. Já nas quatro UAPS, percebeu-se que a unidade onde funciona o ambulatório que atende pessoas trans teve maior adesão do que as outras, o que se associa ao fato da população LGBTQIAPN+ já se sentir bem acolhida pelos profissionais de lá. A ação extramuros mostrou-se especialmente potente, alcançando 35 mulheres lésbicas e bissexuais, número expressivo considerando a especificidade do público e a abordagem não convencional de cuidado. A autocoleta foi percebida como alternativa facilitadora por favorecer privacidade, autonomia e redução de constrangimentos frequentemente associados ao exame ginecológico tradicional. Mais de 90% das pessoas que realizaram a autocoleta relataram pouco ou nenhum desconforto, além de concordarem que fariam novamente o exame.
A autocoleta para HPV mostrou-se estratégia inovadora e potente para a promoção da equidade no acesso ao rastreamento, especialmente quando articulada a práticas de cuidado inclusivas e territorializadas. A autocoleta pode ser realizada em locais não convencionais, de maneira prática e autônoma. A experiência reafirma a importância de reconhecer especificidades da população LGBTQIAPN+ na organização dos serviços de saúde, ampliando possibilidades para além dos formatos tradicionais. Destaca-se o potencial de replicabilidade da iniciativa em outros territórios, pensando em estratégias de equidade que alcancem os grupos historicamente vulnerabilizados. Ampliar o acesso à saúde exige deslocar o cuidado para além dos muros dos serviços, reconhecendo que práticas preventivas tornam-se mais efetivas quando desenvolvidas nos territórios, onde as pessoas constroem vínculos sociabilidades e pertencimentos. Estar presente em contextos e espaços de circulação da população LGBTQIAPN+ favorece a aproximação e a adesão às ações de saúde, especialmente de grupos historicamente afastados dos serviços de saúde. Essa perspectiva reforça a necessidade de uma atenção primária capaz de produzir cuidado a partir da escuta de modos de vida e da presença ativa nos lugares onde a vida acontece, fortalecendo o SUS como um sistema comprometido com o acesso e a equidade.