Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Vanessa Maia Girão
Coautor(es)
Deusinária Fernandes Vieira
Marília Dias Fernandes
Ibicuitinga, município de forte vocação agrícola, onde a terra não é apenas sustento, mas identidade, história e pertencimento, vivenciava um desafio silencioso: a baixa adesão dos agricultores familiares aos serviços da Atenção Primária à Saúde. Na rotina desses trabalhadores, o cuidado com o plantio, a colheita e a sobrevivência frequentemente se sobrepunham ao cuidado com a própria saúde, evidenciando uma problemática central relacionada ao acesso e ao vínculo com os serviços de saúde. A partir da qualificação dos cadastros territoriais realizada em 2025 e da análise dos sistemas de informação (E-SUS, PEC e E-Gestor), identificou-se que um número expressivo de usuários permanecia há mais de dois anos sem acessar os serviços de saúde. As reuniões com os Agentes Comunitários de Saúde aprofundaram essa análise, revelando que cerca de 70% dessa população era composta por homens, majoritariamente agricultores, configurando o público-alvo desta experiência. Inicialmente, buscou-se enfrentar essa realidade por meio de estratégias de busca ativa e mobilização para o comparecimento às Unidades Básicas de Saúde da zona rural — UBS da Viçosa, UBS do Canindezinho e UBS do Açude dos Pinheiros. No entanto, a baixa adesão evidenciou a necessidade de reorientar o modelo de cuidado. Não bastava convocar: era preciso ir ao encontro. Diante desse cenário, entre fevereiro de 2025 a maio de 2026, foram desenvolvidas ações descentralizadas nos territórios rurais do município, alcançando aproximadamente 300 agricultores familiares, com faixa etária entre 30 a 80 anos, em sua maioria homens. Ao todo, foram realizadas 15 atividades em comunidades como Renascer Longar, Lagoa do Luís e Contendas, transformando espaços comunitários em locais de escuta, cuidado e troca. Nesse percurso, a articulação com a Secretaria de Agricultura, os Sindicatos dos Agricultores e o Programa de Formação Paul Singer potencializou as ações, integrando saúde, cultura e economia popular.
Objetivo Geral: Fortalecer a promoção da saúde e ampliar o acesso dos agricultores familiares de Ibicuitinga às ações da Atenção Primária à Saúde, por meio da descentralização das atividades e da articulação intersetorial, visando aumentar a adesão desse público aos serviços de saúde. Objetivos Específicos: •Identificar e caracterizar a população agrícola com baixa adesão às consultas na APS, utilizando dados dos sistemas E-SUS, PEC e E-Gestor e apoio dos ACS •Reconhecer e dar visibilidade à população agrícola com baixa adesão aos serviços de saúde, compreendendo suas singularidades, modos de vida e desafios cotidianos •Desenvolver estratégias de busca ativa e mobilização comunitária voltadas aos agricultores, considerando suas especificidades socioculturais e rotina de trabalho •Aproximar a saúde do território, por meio de ações descentralizadas que respeitem o tempo, o trabalho e a cultura dos agricultores •Implementar ações de saúde descentralizadas nos territórios, aproximando os serviços da realidade da população rural •Construir parcerias intersetoriais que potencializem as ações de promoção da saúde, integrando saberes e práticas locais
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido nas Unidades Básicas de Saúde da zona rural de Ibicuitinga: UBS da Viçosa, Canindezinho e Açude dos Pinheiros, no período de fevereiro de 2025 a maio de 2026. A ação envolveu equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), Saúde Bucal (ESB), equipe multiprofissional (e-Multi), 15 Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e parcerias com a Secretaria de Agricultura, Programa de Formação Paul Singer e Sindicato dos Trabalhadores Rurais. O público-alvo foi composto por cerca de 300 agricultores familiares, majoritariamente homens, entre 30 e 80 anos. A identificação ocorreu por meio de diagnóstico situacional baseado nos sistemas E-SUS, PEC e E-Gestor, além de reuniões com ACS, evidenciando baixa adesão aos serviços de saúde. A partir disso, foi realizado planejamento conjunto com coordenações e equipes, optando pela descentralização das ações devido às dificuldades de acesso e baixa procura por consultas e vacinação. Foram selecionadas as comunidades Renascer Longar, Lagoa do Luís e Contendas. Inicialmente, ocorreram rodas de escuta ativa para compreender necessidades, modos de vida e barreiras de acesso. Com base nisso, estruturaram-se 15 ações mensais descentralizadas em espaços comunitários. As atividades incluíram atendimentos multiprofissionais e educação em saúde sobre direitos, ouvidoria, saúde bucal, alimentação saudável, uso do hipoclorito, autocuidado, impactos dos agrotóxicos e valorização de saberes populares, como plantas medicinais. Os agricultores participaram ativamente, compartilhando experiências. Para engajamento, utilizou-se linguagem acessível, acolhimento cultural e metodologias participativas. Elementos culturais locais, como músicas regionais, fortaleceram o vínculo. Houve também adequação dos horários, transferindo as atividades para o período noturno. O monitoramento indicou 100% de atualização cadastral, 89% de adesão aos atendimentos e cerca de 30% de cobertura vacinal. Destaca-se a ampliação do acesso à saúde bucal, com relatos de usuários sem acompanhamento há mais de 10 anos. A experiência evidenciou a importância da escuta, do vínculo e da presença no território, fortalecendo a relação entre comunidade e equipe de saúde e consolidando os encontros como espaços de cuidado e transformação social.
A implementação de ações descentralizadas nos territórios rurais de Ibicuitinga promoveu avanços no acesso, na adesão e no vínculo entre agricultores familiares e a Atenção Primária à Saúde. A estratégia de levar o cuidado ao território mostrou-se eficaz ao reduzir barreiras relacionadas ao deslocamento, horários incompatíveis com a rotina agrícola e à baixa procura pelos serviços. Observou-se a atualização de 100% dos cadastros da população acompanhada, qualificando as informações e permitindo maior assertividade no planejamento das equipes. A adesão aos atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde alcançou 89% (267 agricultores), evidenciando mudança no comportamento de busca por cuidado, especialmente entre homens. Na imunização, cerca de 30% (90 agricultores) foram vacinados, representando avanço diante da baixa cobertura inicial. Destaca-se ainda a ampliação do acesso à saúde bucal, com agricultores iniciando ou concluindo tratamentos após mais de 10 anos sem acompanhamento. Houve também fortalecimento do protagonismo comunitário. A partir das rodas de escuta, os agricultores passaram a contribuir ativamente, compartilhando saberes e co-construindo ações. A valorização de práticas como o uso de plantas medicinais favoreceu um cuidado mais integral e culturalmente sensível. A adaptação dos horários para o período noturno foi decisiva para ampliar a participação, evidenciando a importância da escuta e da flexibilidade na organização dos serviços. O uso de linguagem acessível e metodologias participativas fortaleceu o vínculo e a confiança nas equipes. Qualitativamente, houve ressignificação do cuidado, com os encontros reconhecidos como espaços de acolhimento, troca e pertencimento. Tornou-se frequente a solicitação pela continuidade das ações. A experiência evidencia que a presença ativa do SUS nos territórios, aliada à escuta e à valorização cultural, é essencial para um cuidado integral, humanizado e resolutivo.
A experiência evidenciou que a aproximação do cuidado em saúde aos territórios rurais é um caminho potente para transformar realidades, especialmente quando se reconhece e valoriza a identidade, o tempo e o modo de vida dos agricultores familiares. A descentralização das ações, aliada à escuta qualificada e ao respeito aos saberes populares, possibilitou não apenas ampliar o acesso aos serviços, mas, sobretudo, fortalecer o vínculo, a confiança e o protagonismo comunitário no cuidado em saúde. Os resultados demonstram que estratégias flexíveis, culturalmente sensíveis e construídas de forma compartilhada são fundamentais para alcançar populações historicamente menos assistidas, em especial o público masculino rural. A participação ativa dos agricultores e a demanda espontânea pela continuidade das ações revelam a potência de um SUS presente, acolhedor e comprometido com as reais necessidades do território. Como perspectivas futuras, propõe-se a institucionalização das ações descentralizadas como parte permanente do processo de trabalho das equipes da Atenção Primária à Saúde, com ampliação para outras comunidades rurais do município. Sugere-se também o fortalecimento das parcerias intersetoriais, especialmente com as secretarias de agricultura, educação e assistência social, visando uma abordagem ainda mais integral. Porque, quando o SUS atravessa os caminhos do consultório e se faz presente onde a vida acontece, ele deixa de ser apenas serviço e passa a ser cuidado efetivo.