Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Erlemus Ponte Soares
Coautor(es)
Cibelly Melo Ferreira
Kátia de Góis Holanda Saldanha
Lilian Fernandes Amarante
Harrismana Andrade Pinto da Costa
Janaína Rocha de Sousa Almeida
Minuchy Mendes Carneiro Alves
Emanoella Pessoa Angelim Guimarães
Meirelene Xerez Cardoso
Kilma Wanderley Lopes Gomes
As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morbimortalidade no Brasil. Nesse cenário, o eletrocardiograma (ECG) constitui um exame simples, de baixo custo e capaz de auxiliar na identificação precoce de alterações cardíacas, como arritmias cardíacas, isquemias, infarto agudo do miocárdio, entre outras. Na Atenção Primária à Saúde (APS), o ECG auxilia a avaliação de sintomas frequentes na prática clínica, como dor torácica, palpitações, síncope, tontura e dispneia, permitindo uma tomada de decisão clínica mais segura e oportuna. Fortaleza possui uma rede de APS composta por 134 Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS) e 559 equipes de Saúde da Família, responsáveis pela coordenação do cuidado e pela organização da Rede de Atenção à Saúde (RAS). Até dezembro de 2025, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Fortaleza registrava, na central de procedimentos, uma demanda reprimida superior a 300 mil solicitações para a realização de ECG, o que configurava a maior fila de exames da rede municipal. Esse cenário impactava diretamente o acesso oportuno ao diagnóstico e ao acompanhamento de doenças cardiovasculares. Diante desse contexto, foi implementada uma estratégia institucional para ampliar o acesso ao ECG diretamente na APS, fortalecendo a resolutividade das equipes e qualificando o cuidado ofertado à população. A estratégia foi orientada pelos princípios da integralidade do cuidado, da ampliação do acesso e do fortalecimento da APS como coordenadora da RAS.
Objetivo Geral Relatar a experiência da APS de Fortaleza na ampliação do acesso aos exames de ECG nas Unidades de Atenção Primária à Saúde. Objetivos Específicos •Descentralizar a realização do eletrocardiograma para as Unidades de Atenção Primária à Saúde. •Organizar e padronizar o fluxo assistencial para realização do exame na APS. •Qualificar a gestão da fila de espera.
A intervenção foi implementada a partir de dezembro de 2025 pela SMS de Fortaleza, envolvendo ações estruturantes voltadas à ampliação do acesso ao ECG na APS. O público-alvo da intervenção são usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) com solicitação de ECG, especialmente pessoas com condições crônicas, como hipertensão arterial e diabetes mellitus, acompanhadas pelas equipes de Saúde da Família. Inicialmente, foi realizada a aquisição de 112 novos aparelhos de ECG, em parceria com instituições de ensino que utilizam as UAPS como campo de prática no SUS. Com essa estratégia, todas as 134 UAPS do município passaram a dispor de pelo menos um equipamento de ECG, ampliando a capacidade instalada para realização do exame na própria unidade. A emissão de laudos passou a ser realizada por meio de uma empresa que fornece telelaudos, permitindo que os ECG realizados nas unidades fossem interpretados por especialistas. Os laudos passaram a ser disponibilizados no prontuário eletrônico em até cinco dias. Além dos telelaudos, foi oferecida aos profissionais da APS a possibilidade de solicitar uma segunda opinião especializada por meio do prontuário eletrônico. A SMS elaborou e instituiu um fluxo assistencial padronizado para realização do ECG na APS, bem como um Manual Operacional para implantação e execução do ECG nas UAPS, com orientações sobre a organização das agendas, a realização dos procedimentos, o envio dos laudos e o acompanhamento clínico dos usuários. Cada Coordenadoria Regional de Saúde organizou capacitações para técnicos de enfermagem, mediadas por profissionais que já realizavam o exame em algumas UAPS. Foram definidas salas específicas para a realização do ECG e as agendas locais foram organizadas para permitir a oferta dos exames durante a semana. A estratégia incluiu ainda a qualificação da fila de espera, o monitoramento diário das solicitações de ECG, a busca ativa de usuários por telefone e pelos agentes comunitários de saúde, além da ampliação da oferta de vagas para demanda reprimida.
A implementação da estratégia resultou na ampliação do acesso ao exame de ECG na APS do município de Fortaleza. No início da intervenção, em dezembro de 2025, havia mais de 300 mil solicitações de ECG registradas na central de procedimentos. Com a descentralização do exame para as UAPS, a organização do fluxo assistencial e a implantação dos telelaudos, foi possível ampliar significativamente a oferta do procedimento na rede básica. Em 15 de março de 2026, a fila de espera havia sido reduzida para 75.716 usuários, segundo dados oriundos do prontuário eletrônico FastMedic. Além da redução expressiva da demanda reprimida, observa-se que 83 UAPS já alcançaram fila zero para o exame (o que representa 62% das UAPS), demonstrando o impacto da estratégia na organização do acesso e na resolutividade da APS. Outro resultado relevante foi a melhoria na gestão da fila, com a exclusão de solicitações duplicadas, a atualização cadastral dos usuários e a realização de busca ativa para a confirmação da real necessidade do exame. A iniciativa também fortaleceu o papel da APS como coordenadora do cuidado, permitindo que o diagnóstico e o acompanhamento de condições cardiovasculares sejam realizados de forma mais oportuna e próxima da população.
A experiência demonstrou que a ampliação do acesso ao ECG na APS é uma estratégia eficaz na redução de filas e no aumento da resolutividade das equipes de Saúde da Família. A combinação de ampliação da capacidade instalada, organização de fluxos assistenciais, telemedicina, qualificação da gestão da fila e capacitação das equipes possibilitou uma redução significativa da demanda reprimida e uma melhoria no acesso ao diagnóstico cardiovascular. A iniciativa reforça o papel da APS como porta de entrada preferencial do SUS e como coordenadora da RAS, contribuindo para maior integralidade e continuidade do cuidado. Destaca-se também o potencial de replicabilidade da experiência em outros municípios, especialmente naqueles que enfrentam desafios relacionados à falta de acesso a exames diagnósticos. A estratégia evidencia que intervenções organizacionais e tecnológicas, aliadas ao fortalecimento da APS, podem gerar impactos relevantes na gestão do sistema de saúde e na qualidade da assistência prestada à população.