Autor(a)
LUANDA VASCONCELOS DO NASCIMENTO DUTRA
Coautor(es)
ANDREA CARLA BRANDAO VASCONCELOS
PAULO DINIZ MOREIRA
JOAO VITOR SOBRINHO
ANA RITA DE SOUSA VASCONCELOS BRANDAO
EVALDO EUFRASIO VASCONCELOS
A Terapia Comunitária (TC) faz parte dos serviços que compõem a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) desde 2006, e visa desenvolver, nos profissionais de saúde e nas lideranças comunitárias, as competências necessárias para lidar com os sofrimentos e demandas psicossociais, além de promover redes de apoio social, ampliando a resolutividade da Atenção Básica. Pode-se entender que a TC praticada no âmbito do SUS é uma estratégia inovadora em comparação às demais atividades grupais há tanto tempo já incorporadas nos cronogramas das Equipes de Saúde, uma vez que a experiência de vida das pessoas é valorizada sem hierarquizações das relações interpessoais, portanto, constituindo um espaço onde prioritariamente as pessoas compartilhem sentimentos e fragilidades pessoais. No município de Cruz, em 2016, foram selecionados profissionais da área da saúde, educação, assistência social e outras lideranças para a realização de um curso de formação em TC, cuja iniciativa aliou-se à necessidade de se aprimorar um modelo de Atenção à Saúde Mental com base comunitária, priorizando-se a promoção da saúde e a prevenção do adoecimento. O presente trabalho resgata essa experiência de formação e objetiva descrever a TC como prática de saúde bem sucedida da rede SUS, implantada em uma Unidade Básica de Saúde do município, suas principais contribuições para a Gestão do SUS e resultados alcançados em benefício da saúde e promoção da qualidade de vida da população local.
Descrever a experiência do município de Cruz na implantação da Terapia Comunitária (TC) em uma Unidade Básica de Saúde, enquanto estratégia de promoção de saúde mental e autocuidado no SUS.
Após a conclusão da formação em TC de profissionais de saúde e de outros servidores intersetoriais em 2017, e diante das fragilidades identificadas na localidade de Belém tanto à nível de vulnerabilidades quanto ao aumento da demanda de acompanhamento em Saúde Mental (aumento de pacientes com riscos ao suicídio, depressão, transtornos de ansiedade, entre outros), reconheceu-se a necessidade de se ampliar a oferta de serviços e de cuidados, bem como de espaços terapêuticos individuais e coletivos voltados àquele território. Logo, tendo em vista sua importância no reconhecimento e prática do autocuidado, a partir da discussão entre gestão e assistência, decidiu-se incorporar a TC no rol dos grupos de convivência realizados pela Equipe de Saúde daquela comunidade. A princípio, a proposta foi apresentada aos usuários nas Salas de Espera da UBS, e, a partir de um processo de trabalho desenvolvido em conjunto entre equipe e terapeutas comunitários, deu-se início a implantação dessa importante estratégia de cuidado que tomou com foco o usuário, e não a doença. A periodicidade dos encontros terapêuticos era mensal, com datas pré-definidas e divulgadas nas dependências da UBS mediante exposição do Cronograma, além da mobilização na comunidade através de cartazes e entrega de convites pelos ACS. A condução dos encontros ficou sob responsabilidade de 03 Terapeutas Comunitários, com execução de forma compartilhada e intersetorial, e se encontra ativa no município até os dias atuais.
Os benefícios da implantação da TC na rotina dos grupos de convivência realizados na UBS de Belém foram identificados tanto a nível de satisfação dos usuários - uma vez que a adesão era crescente a cada encontro – quanto na redução do número de pacientes admitidos no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do município, daquele território. Em 2016, haviam 48 pacientes em acompanhamento no CAPS, e no ano seguinte (2017), houve uma admissão de 10 pacientes novos no decorrer do ano. Após a implantação da TC na UBS, percebeu-se uma queda no número de admissões nos dois anos seguintes: 06 (2018) e 03 (2019). Em 2020, com o surgimento da pandemia, o MS cessou a realização de grupos como medida preventiva, embora a quantidade de pacientes admitidos no CAPS ainda se manteve baixa (apenas 02). No entanto em 2021, mantida a cessação dos encontros de TC na UBS, percebeu-se que esse número voltou a subir, passando de 02 em 2020, para 15 pacientes em 2021. Já Em 2022, com o retorno da realização da TC na UBS, a quantidade de pacientes admitidos volta a se reduzir, finalizando o ano com menos da metade identificada no ano anterior, apenas 07 pacientes novos. Logo, dado o êxito na satisfação dos usuários e na redução das vulnerabilidades em saúde mental identificadas no território a partir da redução das admissões de pacientes no CAPS, pode-se apontar a prática da TC como experiência bem-sucedida, na contribuição do fortalecimento da Saúde Mental do SUS e do direito à saúde da população.
Apesar da Terapia Comunitária se tratar de uma prática ainda pouco utilizada no SUS, os benefícios de sua incorporação nos serviços de saúde têm se mostrado bastante eficazes na promoção de saúde mental no território, enquanto ferramenta de reconhecimento, escuta compartilhada e percepção da importância do autocuidado pelos usuários na comunidade. Enquanto estratégia inovadora na tentativa de amenizar e/ou solucionar as demandas psicossociais dos usuários, pode-se dizer que a TC também serviu enquanto espaço de discussão dos direitos à saúde da comunidade, uma vez que os próprios profissionais de saúde atuantes da UBS também se faziam presentes, o que favorecia a identificação das condições de saúde e posterior planejamento de ações mais resolutivas às demandas daquela comunidade. Logo, recomenda-se o reconhecimento e maior visibilidade de tal prática no SUS, pois, além de apresentar também um potencial na promoção de um espaço para a troca de experiências e reflexões sobre a gestão e organização dos serviços de saúde, também facilita a mobilização de recursos e competências locais fortalecendo redes de proteção e inclusão.