Autor(a)
Kelvy Rucielly Souza
Coautor(es)
Lorena Almeida Oliveira
Fideralina Rodrigues de Albuquerque
Andreza Vitor da Silva
Nayane Albuquerque Batista
José Nairton Coelho da Silva
Segundo dados do último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (2022), o Brasil registrou um total de 11.238 óbitos em 2021, com taxa de mortalidade de 4,2/100 mil habitantes. Nesse contexto, Iguatu, localizado na região centro-sul cearense, está entre os 100 municípios brasileiros que têm apresentado taxas de mortalidade superiores à média nacional, com taxa de mortalidade de 5,8/100 mil habitantes em 2022. Instituído em 2007, o Programa Municipal de IST/Aids e Hepatites Virais de Iguatu, que já integrava um Centro de Testagem e Aconselhamento, passou a contar também, a partir de janeiro de 2015, com uma Unidade Dispensadora de Medicamentos destinada a ampliar o acesso à terapia antirretroviral. Até o início de 2017, a equipe assistia cerca de 150 pessoas vivendo com HIV, as quais eram referenciadas para o Hospital São José de Doenças Infecciosas. Com objetivo de garantir o acesso dos usuários à assistência integral, em março de 2017, houve a operacionalização do Serviço de Assistência Especializada em HIV/Aids (SAE) a partir da contratação de um médico infectologista e da oferta de exames destinados à quantificação da carga viral e à contagem dos linfócitos CD4+. No final de 2021, em virtude da elevada taxa de mortalidade supracitada, foi implantado, no município de Iguatu, o primeiro Grupo de Trabalho (GT) de Investigação de Óbitos por Aids do Estado de Ceará.
Relatar a vivência dos profissionais de saúde nas discussões e nas intervenções disparadas pelo GT de Investigação de Óbitos por Aids do município de Iguatu/CE.
O presente estudo trata-se de um relato de experiência, com abordagem descritiva e qualitativa, realizado pelos profissionais que compõem o SAE e a coordenação da Atenção Primária à Saúde (APS) do município de Iguatu a partir das ações disparadas pelo GT de Investigação de Óbitos por Aids. A primeira ação estratégica do grupo ocorreu por meio de visitas aos laboratórios privados do município em novembro de 2022. Nesse momento, foi destacada a importância do aconselhamento, do encaminhamento oportuno ao serviço especializado e do preenchimento da Ficha de Notificação/Investigação Aids dos novos diagnósticos. Na sequência, a partir da colaboração do setor de Vigilância Epidemiológica, foi implantado o serviço de busca ativa dos novos casos que não acessaram o SAE mediante a elaboração de um instrumento que possibilitou dialogar brevemente com o usuário acerca do serviço, do tratamento e do sigilo diagnóstico. Considerando a importância da descentralização da oferta dos testes rápidos e a baixa taxa de diagnósticos na APS, os profissionais envolvidos no GT produziram cartazes divulgando a realização dos testes de HIV, Sífilis e Hepatites B e C, os quais foram anexados, em janeiro de 2023, nos murais das 41 unidades de saúde executoras dos exames. Nesse sentido, foi também realizada, em março de 2023, uma reunião com os enfermeiros da APS para alinhamento dos fluxos assistenciais em relação ao diagnóstico e ao tratamento das pessoas que convivem com o vírus.
A partir das discussões dos óbitos realizadas pelo GT, constatou-se que metade dos casos investigados apresentou a primeira contagem de LT-CD4+ inferior a 200 células/mm3. Dessa forma, intervenções voltadas para ampliação do diagnóstico precoce e início oportuno do tratamento passaram a ser pensadas e desenvolvidas. Nas visitas aos laboratórios, os profissionais do SAE disponibilizaram um modelo padrão de encaminhamento, contendo informações sobre o serviço ofertado, a terapia antirretroviral e o sigilo diagnóstico. Na oportunidade, também informaram a necessidade de preenchimento das fichas de notificação compulsória. O serviço de busca ativa implantado no município fortaleceu o diálogo com a Vigilância Epidemiológica e produziu o monitoramento dos novos diagnósticos. A divulgação dos cartazes trazendo informações quanto à execução dos testes é uma estratégia com efeitos em longo prazo no campo da promoção e prevenção em saúde, mas que já demonstrou precocemente sua efetividade através do aumento dos exames executados na APS nos últimos dois meses. A reunião com os enfermeiros oportunizou um espaço para apresentação do cenário epidemiológico de Iguatu, com ênfase nos novos casos de HIV/Aids conforme o local do diagnóstico e no quantitativo de testes executados por cada unidade de saúde. Nesse momento, foi reforçada a relevância da oferta dos testes rápidos por demanda espontânea em todos os estabelecimentos, bem como o encaminhamento imediato dos casos reagentes ao SAE.
Conclui-se que as ações estratégicas desenvolvidas pelos profissionais envolvidos no GT vêm corroborando para uma melhor atenção às pessoas vivendo com HIV no município de Iguatu. Observa-se que a rede de atenção tem deficiências de informação em relação ao cuidado do público em tela. Nesse sentido, reafirmamos a relevância da atuação do GT no município, o qual vem fortalecendo o diálogo entre os pontos da rede e disparando, de forma coletiva e inovadora, processos de planejamento em saúde na perspectiva da integralidade do sujeito. Não obstante, destaca-se que desafios são enfrentados nos processos de trabalho, desde equipe reduzida do SAE à colaboração efetiva da rede, porém acreditamos que essas iniciativas são indispensáveis para produzir linhas de cuidado às pessoas que convivem com o vírus.