Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Yasmin Santos Amaral Coelho
Coautor(es)
José Nilson Alves de Souza Filho
Caio Coelho Machado
O tabagismo é uma das maiores causas evitáveis de morbimortalidade no mundo e é considerado uma doença relacionada à dependência de nicotina, classificada como transtorno mental e comportamental pelo uso de substâncias psicoativas na Classificação Internacional de Doenças (CID10). O tabaco está associado a cerca de 30% dos casos de câncer e contribui significativamente para doenças cardiovasculares e pulmonares crônicas. Além dos danos físicos, o hábito de fumar também afeta a saúde psicológica, devido às tentativas frustradas de cessação e às pressões familiares para abandonar o vício. Nesse contexto, considerando o princípio da integralidade do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), a incorporação de práticas integrativas e complementares pode ampliar as estratégias de apoio à cessação do tabagismo. A auriculoterapia é uma técnica que utiliza a estimulação de pontos reflexos no pavilhão auricular, por meio de sementes, microesferas ou agulhas, atuando em conexões relacionadas ao sistema nervoso central e contribuindo para o equilíbrio do organismo. Por apresentar fácil aplicabilidade, baixo custo e possibilidade de utilização com materiais não invasivos, a auriculoterapia configura-se como estratégia inovadora no contexto da atenção básica, contribuindo para a ampliação do cuidado integral e para o fortalecimento das ações coletivas voltadas à promoção da saúde e ao apoio às pessoas em processo de abandono do tabagismo. Este relato visa descrever a eficácia da auriculoterapia em um grupo de cessação do tabagismo, bem como as conquistas e desafios vivenciados ao longo da jornada de abandono do tabaco na Unidade de Saúde da Família Tenente Ivaldo Silva, no município de Maracanaú/CE. O grupo liderado pela farmacêutica da unidade juntamente com uma equipe multidisciplinar, atuam utilizando a abordagem da auriculoterapia e diretrizes do Programa Nacional de Controle do Tabagismo.
Objetivo Geral: Implementar a auriculoterapia como estratégia complementar no tratamento do tabagismo entre os participantes do grupo de combate ao tabagismo em uma Unidade Básica de Saúde. Objetivos Específicos: - Descrever a experiência da implementação da auriculoterapia no grupo de combate ao tabagismo e sua relevância no cenário da Atenção Primária à Saúde. - Verificar a percepção dos usuários quanto aos benefícios da auriculoterapia no processo de cessação do tabagismo e de seus sintomas abstinência. - Analisar a redução do número de cigarros consumidos pelos participantes ao longo do acompanhamento através da técnica utilizada. - Avaliar a adesão e permanência dos usuários no grupo após a introdução da auriculoterapia como prática integrativa e complementar.
A experiência foi estruturada em etapas sequenciais, organizadas de forma a integrar a auriculoterapia às ações já preconizadas pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo do Ministério da Saúde. Inicialmente, realizou-se o planejamento junto à equipe multiprofissional da USF, definindo fluxos de atendimento, critérios para recebimento de medicamentos e cronograma das atividades. A auriculoterapia foi inserida como estratégia complementar às abordagens cognitivo-comportamentais e ao tratamento farmacológico. O fluxo foi organizado da seguinte maneira: 1- Os pacientes foram informados e encaminhados ao grupo pela equipe multiprofissional durante a consulta, através das ACS e panfletos nas unidades. 2- Os profissionais durante a consulta, realizou o Teste de Fagerstrom, questionário validado internacionalmente utilizado para medir o grau de dependência física à nicotina em fumantes 3- Inserção no Grupo de Combate ao Tabagismo 4- O participante teve acesso ao tratamento medicamentoso com a participação mínima em três encontros do grupo. Após esse período, os usuários que apresentaram receita médica atualizada iniciaram com o suporte farmacológico para cessação do tabagismo 5- Iniciou-se sessões quinzenais de forma coletiva, em ambiente reservado da USF, garantindo privacidade e acolhimento com abordagem educativa e aplicação da auriculoterapia associada ao tratamento medicamentoso 6- Acompanhamento periódico da evolução clínica e comportamental do paciente. A execução da auriculoterapia ocorreu em quatro etapas principais. Inicialmente, realizou-se a etapa de planejamento, que consistiu na capacitação da farmacêutica através do curso fornecido pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina. Em seguida, ocorreu o acolhimento dos participantes, aplicação dos instrumentos de avaliação e pactuação de metas individuais ao decorrer do grupo. Posteriormente, foi desenvolvida a etapa de intervenção, com a realização de encontros quinzenais, totalizando 24 sessões, nas quais foi realizada a aplicação da auriculoterapia bilateral em 9 participantes além de orientações sobre o estímulo adequado dos pontos auriculares e acompanhamento dos sintomas apresentados durante o processo. Por fim, realizou-se a etapa de avaliação na qual foram analisados aspectos como a redução do consumo de cigarros, o controle dos sintomas de abstinência, a taxa de cessação do tabagismo e a percepção dos participantes quanto sua eficácia.
A prática contribuiu para fortalecer o vínculo entre usuários e profissionais, ampliar as possibilidades terapêuticas e favorecer a adesão às atividades do grupo, evidenciando o potencial da auriculoterapia como recurso integrativo no apoio à cessação do tabagismo. Observou-se que 7 dos 9 participantes (77,78%) que receberam a auriculoterapia apresentaram diminuição significativa dos sintomas relacionados à abstinência do tabaco, como ansiedade, irritabilidade, inquietação e insônia, fatores frequentemente associados às dificuldades no processo de interrupção do consumo. Os participantes relataram percepção de benefícios relacionados ao bem-estar geral, incluindo melhora do humor, sensação de relaxamento e redução da vontade de fumar durante o dia, sendo essas melhorias relatadas pelos 9 participantes do grupo. Antes da intervenção, os participantes fumavam entre 10 e 12 cigarros por dia. Após o grupo, observou-se uma redução de 80% a 100% no consumo. Dois participantes passaram a fumar apenas entre 1 e 2 cigarros por dia, enquanto os outros 7 cessaram completamente o hábito de fumar. Foi evidenciado que a auriculoterapia pode contribuir de forma complementar para o tratamento do tabagismo, auxiliando na diminuição da dependência física e comportamental do tabaco. Outro aspecto relevante observado foi o aumento da adesão dos usuários ao grupo de combate ao tabagismo após a introdução da auriculoterapia. Inicialmente, o grupo contava com 5 participantes, passando para 9 após a inclusão da prática, o que representa um aumento de 80% no número de participantes. Além disso, todos os usuários permaneceram frequentando os encontros durante o período de acompanhamento, indicando maior interesse e engajamento nas atividades propostas.
As experiências positivas, o baixo custo de utilização, potencial terapêutico da auriculoterapia e o tratamento humanizado no grupo de tabagismo, evidenciaram a efetividade e eficácia dessa prática integrativa. A auriculoterapia mostrou-se promissora neste contexto, podendo trazer benefícios diretos aos pacientes tabagistas, em relação à disposição para cessar com o hábito de fumar e diminuição da ansiedade quanto à promoção da qualidade de vida. São experiências como esta, que acontecem nas unidades básicas de saúde, que demonstram uma riqueza imensa para a comunidade que está em seu entorno, com protagonismo de todos que devem estar envolvidos neste processo: setor saúde, comunidade. Dessa forma, a experiência aponta que a utilização da auriculoterapia pode representar um recurso complementar relevante, inovador e de fácil aplicabilidade nas ações de promoção da saúde, contribuindo para o apoio integral ao tratamento do tabagismo na atenção primária, além de favorecer a melhoria da qualidade de vida dos usuários e fortalecer as estratégias de cuidado centradas no indivíduo. Portanto, a experiência vivenciada com o uso da auriculoterapia pelos participantes e o entendimento sobre os benefícios sentidos com a utilização desse recurso terapêutico corroboram com a necessidade de continuidade dessa prática no grupo mais saudável sem cigarro.