Tema: ATENÇÃO BÁSICA
autor(a)
Ariadna Lima
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica negligenciada, com relevantes impactos biopsicossociais e econômicos, tanto no plano individual quanto coletivo, configurando-se como um importante problema de saúde pública. No Brasil, a hanseníase ainda enfrenta desafios devido às dificuldades para o diagnóstico oportuno e cuidado em saúde, baixa priorização e insuficiente investimento em políticas públicas direcionadas ao seu enfrentamento. Considerando esse contexto, o processo formativo de equipes de Agentes Comunitários de Saúde (ACS), e de profissionais de nível superior através do Apoio Matricial (AM), configuram-se como estratégias promissoras de Educação Permanente em Saúde (EPS), sendo relevantes para o fortalecimento das práticas assistenciais à medida que articula equipes de saúde e fomenta a Integração Ensino-Serviço (IES). O AM em hanseníase é, portanto, uma importante estratégia para vigilância, prevenção e controle da hanseníase no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Essa integração favorece a qualificação dos processos de trabalho, a ampliação da capacidade resolutiva das equipes e a construção coletiva de saberes, elementos fundamentais para o enfrentamento da doença em cenários de alta endemicidade.
Objetivo Geral Descrever o processo formativo de profissionais e a implantação do AM em hanseníase na APS do município de Fortaleza como importante estratégia de controle e vigilância para a doença. Objetivos específicos Caracterizar as etapas do processo formativo e da implantação do Apoio Matricial em hanseníase na Atenção Primária à Saúde Analisar as estratégias de Educação Permanente em Saúde e de Integração Ensino-Serviço mobilizadas durante o processo formativo e de implantação Avaliar as mudanças nos indicadores operacionais e no perfil epidemiológico da detecção de casos de hanseníase após a implantação do Apoio Matricial.
Estudo descritivo, com abordagem quantitativa e componente de relato técnico sobre as formações com ACS e a implantação do AM em hanseníase, realizado no âmbito da APS de Fortaleza no período de 2022 a 2025. Os processos formativos e a implantação do AM iniciaram-se a partir do Programa PEP++ (NHR Brasil) e do Projeto de Fortalecimento da Temática da Hanseníase no estado do Ceará (UFC/SVSA-MS/ASTEF), integrando ações de EPS e de IES. Participaram Agentes Comunitário de Saúde e profissionais de saúde de nível superior, internos de Medicina e residentes de Medicina de Família e Comunidade Para a delimitação da etapa quantitativa, foram analisados os indicadores epidemiológicos e operacionais da hanseníase entre 2001 e 2024, obtidos a partir de dados oficiais do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
Ao longo dos processos formativos e de implantação do AM, as ações formativas e a estruturação do Serviço de Apoio Matricial em hanseníase ampliaram a capacidade de atuação da rede da APS. A IES também foi fortalecida, com a abertura de campos de estágio para acadêmicos de Medicina durante o internato e para residentes de Medicina de Família e Comunidade. Como produtos concretos do processo, foram elaborados a Linha de Cuidado da Pessoa com Hanseníase em Fortaleza e o Boletim de Saúde de Fortaleza: Hanseníase (2001-2024), consolidando fluxos assistenciais e estratégias de vigilância. Houve a criação do primeiro Serviço de Apoio Matricial em hanseníase e a oferta de teleconsultoria assíncrona, via prontuário eletrônico FastMedic®️, contribuíram para a consolidação do AM, por meio da melhoria da comunicação entre especialista e profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF), fortalecendo a formação das equipes e a resolutividade do cuidado. Do ponto de vista epidemiológico, observou-se mudança no perfil de casos novos diagnosticados pelas unidades notificadoras: anteriormente, a maioria dos diagnósticos era realizada na referência estadual e após a implantação do AM, a distribuição tornou-se mais equilibrada, com cerca de 50% dos casos diagnosticados na APS e 50% em unidades de referência, evidenciando melhora na resolutividade do cuidado em nível de APS.
A estruturação dos processos formativos e do AM na APS de Fortaleza mostrou-se viável e sustentável, fortalecendo a Atenção Primária no cuidado à hanseníase de forma resolutiva e efetiva. Trata-se de uma estratégia inovadora e promissora de política pública, capaz de qualificar o cuidado da pessoa acometida no SUS e de integrar de modo eficaz as ações de vigilância epidemiológica. Como desafios, destaca-se a necessidade de formar novos matriciadores para ampliar a cobertura e consolidar o modelo. Além disso, a experiência com o AM em hanseníase pode inspirar outras áreas da saúde e sua implantação em diferentes municípios, contribuindo para a melhoria da resolutividade e da integração entre equipes e serviços.