Autor(a)
Eliane Clares Barbosa
Coautor(es)
Juliana Vieira Sampaio
Bruna Karolyne Almeida Silva
Entende-se que o cuidado em saúde mental não deve ser desarticulado do contexto social do sujeito. As práticas profissionais terão maior efetividade quando pensadas e desenvolvidas considerando marcadores sociais que impactam no processo de saúde e adoecimento da população. A partir desses marcadores, considera-se o entendimento das relações raciais e de gênero enquanto elemento fundamental na abordagem das demandas de saúde mental. No entanto, essa compreensão é dificultada pelo aspecto silencioso do racismo em contexto brasileiro, levando à camuflagem de práticas discriminatórias. Dessa forma, cotidianamente, mulheres negras e pobres são marginalizadas socialmente, e àquelas com alguma condição de saúde mental, têm o seu sofrimento silenciado. Isto acontece não apenas no meio social, de modo geral, mas também nos equipamentos de saúde pública, onde muitos(as) trabalhadores(as) ainda não possuem letramento racial e de gênero para conduzir suas práticas de cuidado. Nesse cenário, a educação permanente em saúde se coloca enquanto estratégia para discussão e aprofundamento dessas questões, contribuindo para a potencialização da atenção à saúde mental dessa população.
Considerando o déficit na formação em saúde/saúde mental acerca das relações raciais e de gênero, o minicurso Aquilomba SUS foi pensado diante da demanda evidenciada nos equipamentos de saúde acerca da temática da questão racial e sua vinculação com os processos de saúde e de sofrimento/adoecimento mental da população. Desse modo, foi objetivo facilitar espaços de discussão e reflexão acerca dos processos de discriminação racial e de gênero na saúde mental, considerando o impacto de tais fenômenos na oferta do cuidado em saúde mental às mulheres negras usuárias dos serviços da atenção especializada.
A construção deste trabalho teve embasamento na metodologia da sistematização da experiência, sendo realizada através da compilação, ordenação e reconstrução dos dados, exigindo a obtenção de uma aprendizagem crítica a partir daquilo que foi vivenciado. Será aqui apresentada a experiência da realização do minicurso Aquilomba SUS, que teve como público-alvo os trabalhadores dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS geral e CAPS AD – do município de Quixeramobim e fez parte de um estudo do Mestrado Profissional em Psicologia e Políticas Públicas da Universidade Federal do Ceará (UFC), desenvolvido por uma profissional psicóloga do território. A pesquisa, realizada entre abril de 2023 e fevereiro de 2024, teve caráter interventivo e a construção do minicurso esteve embasada na realização de oficinas com a temática gênero, raça e saúde mental com as usuárias do serviço e na realização de entrevistas individuais com representação de profissionais dos dois equipamentos. O Aquilomba SUS foi realizado em um encontro único para cada equipe de profissionais, adotando material expositivo, metodologia circular e dialógica, além da produção de um painel, com imagens, palavras e frases que representaram o encontro.
Após a realização do minicurso, os participantes foram convidados a responder um formulário de avaliação da ação. Das vinte e quatro pessoas que responderam, 75% informaram ter sido o primeiro contato com a temática, sendo que a maioria dos(as) trabalhadores(as) relataram o desejo de novos encontros para aprofundamento das discussões trazidas. O Aquilomba SUS, além de trazer conteúdos teóricos, também trabalhou com a discussão de casos fictícios alinhados às demandas existentes em cada equipamento de saúde mental, o que facilitou a compreensão e o envolvimento dos(as) profissionais, que puderam visualizar e compartilhar estratégias de enfrentamento ao racismo e à discriminação de gênero nas instituições de cuidado em saúde mental. Como temas centrais de discussão foram destacados a invisibilização do racismo nas práticas sociais cotidianas, saúde e adoecimento mental das mulheres negras, o desconhecimento dos(as) profissionais acerca da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, a realização da coleta do quesito raça/cor e a identificação racial da população e dos(as) profissionais. Por fim, o minicurso foi satisfatoriamente avaliado, tendo sido considerado “muito bom” – maior nível de satisfação – por aproximadamente 90% dos(as) participantes, que reconheceram o impacto positivo da ação para a potencialização das suas práticas de cuidado.
A sensibilização, assim como a formação, dos(as) trabalhadores da saúde mental acerca das questões raciais e de gênero deve ser um processo constante. Destaca-se que o Aquilomba SUS, embora tenha se configurado enquanto estratégia potente de formação e cuidado em saúde mental, não poderia dá conta de apresentar e discutir a complexidade deste campo e dessas temáticas. Por outro lado, coloca-se como norte para o desenvolvimento de novas ações que visem a desconstrução de práticas que relativizem, negligenciem e perpetuem a violência racial e de gênero nos equipamentos de saúde, favorecendo a oferta de um cuidado equânime à população. E como resultado disso, será expandido para outros pontos da rede de atenção à saúde do município.