Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Arianni Rodriguez Rabelo Moura
Coautor(es)
No decorrer do ano de 2023, por meio da análise dos indicadores do Programa Previne Brasil, a equipe de Saúde da Família identificou a ausência prolongada de pacientes com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, às consultas programadas. Inicialmente, foram realizadas tentativas de contato por intermédio dos agentes comunitários de saúde e visitas domiciliares, contudo, essas iniciativas não obtiveram êxito. Aprofundando a caracterização desse grupo, constatou-se que mais de 60% dos pacientes ausentes eram servidores públicos municipais da área da educação. Essa constatação evidenciou a necessidade de uma abordagem específica para a relação entre trabalho e saúde docente, enfatizando a importância da implementação de estratégias voltadas à preservação e promoção da saúde e do bem-estar desses profissionais. Diante desse cenário, surgiu a iniciativa de incluir um espaço na agenda do Programa Saúde na Escola para o atendimento dos trabalhadores da educação diretamente em seu ambiente laboral. Foi desenvolvida uma estratégia de intervenção, inicialmente aplicada nas instituições de ensino da área de abrangência da equipe de saúde, estando atualmente em processo de expansão para o restante do município.
Ante o exposto, tem-se como objetivo geral: assegurar o acompanhamento e a promoção da saúde dos servidores públicos da área da educação diagnosticados com doenças crônicas, por meio de estratégias que favoreçam a prevenção, o monitoramento e o acesso à assistência em saúde. Por sua vez, como objetivos específicos foram delimitados: •Identificar fatores de risco e promover o diagnóstico precoce de doenças crônicas entre os trabalhadores da educação •Integrar o cuidado às doenças crônicas não transmissíveis no Programa Saúde na Escola, ampliando a atenção à saúde dos profissionais da educação •Oferecer consultas médicas e de enfermagem aos servidores diagnosticados com doenças crônicas, garantindo o acompanhamento adequado •Facilitar o acesso dos funcionários da educação aos serviços de atenção primária à saúde, promovendo a continuidade do cuidado.
A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, baseada na observação participante e em entrevistas semiestruturadas com servidores públicos da educação, do município de Pacatuba-CE. A experiência foi implementada em três unidades educacionais, focando em docentes do Ensino Fundamental. A intervenção ocorreu no Programa Saúde na Escola, ampliando o acesso à atenção primária diretamente no ambiente de trabalho. Inicialmente, foram analisados os indicadores do Programa Previne Brasil para identificar os pacientes crônicos. Após tentativas de contato sem êxito, optou-se por ações nas escolas, facilitando o acesso ao acompanhamento médico e multiprofissional. Foram realizadas consultas médicas e de enfermagem, com anamnese para identificação de fatores de risco. Além disso, foram promovidas ações educativas sobre prevenção e controle de doenças crônicas não transmissíveis. A análise dos dados seguiu uma abordagem qualitativa interpretativa, considerando os significados atribuídos pelos participantes às suas condições de saúde. Segundo Minayo e Costa (2018), na pesquisa qualitativa, "o foco é no entendimento da intensidade vivencial dos fatos e das relações humanas" (p. 143), o que permitiu compreender as barreiras enfrentadas pelos docentes e a necessidade de estratégias específicas para seu acompanhamento contínuo.
Entre junho de 2023 e dezembro de 2024, foram realizadas 14 visitas programadas a três centros educacionais da área de abrangência, atendendo 62 funcionários da educação. Inicialmente, aplicou-se uma entrevista com anamnese e exame físico para todos os participantes. Os dados indicaram que 55% dos servidores já se ausentaram do trabalho por motivos de saúde. Desses, 90% buscaram atendimento em serviços de emergência, enquanto apenas 10% recorreram à atenção primária para acompanhamento contínuo, evidenciando um padrão de cuidado centrado em agravos agudos. Em relação às condições crônicas, 29% dos funcionários apresentavam hipertensão arterial, sendo que 88% não haviam realizado acompanhamento médico no último ano. Além disso, 12% eram portadores de diabetes mellitus tipo 2, dos quais 50% estavam sem acompanhamento médico, justificando a ausência por falta de tempo. Identificou-se ainda que 68% dos avaliados possuíam ao menos um fator de risco cardiovascular, e 78% não realizavam nenhum tipo de acompanhamento médico. As visitas seguintes priorizaram o monitoramento, prescrição e adesão ao tratamento, além de ações educativas para prevenção de doenças crônicas. Foram realizadas intervenções voltadas à promoção da saúde e prevenção de fatores de risco. Estima-se que, até o final de 2024, todos os servidores atendidos realizaram cerca de três consultas na atenção primária, garantindo um acompanhamento mais efetivo de sua saúde.
A inclusão dos docentes no Programa Saúde na Escola (PSE) mostrou-se uma estratégia eficaz para ampliar o acesso à atenção primária e fortalecer o acompanhamento das doenças crônicas, alinhando-se à medicina preventiva ao priorizar ações de promoção da saúde e prevenção de agravos. A elevada prevalência de fatores de risco cardiovasculares e a baixa adesão ao acompanhamento médico reforçam a necessidade de estratégias contínuas de cuidado e prevenção. A realização de consultas médicas e de enfermagem no ambiente escolar facilitou o acesso dos servidores aos serviços de saúde, promovendo uma mudança no padrão de cuidado, antes centrado no atendimento emergencial. Observou-se maior adesão ao tratamento, além da valorização da prevenção e do acompanhamento contínuo, essenciais para a saúde ocupacional. A experiência evidencia o PSE como modelo de integração entre educação e saúde, fortalecendo a articulação entre escolas e equipes da Estratégia Saúde da Família. A expansão dessa abordagem favorece ações preventivas e a promoção da saúde dos profissionais da educação. Reafirma-se, assim, a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) na garantia do acesso, prevenção e cuidado contínuo da população brasileira.