Autor(a)
Gilsiane Maria Vasconcelos Marques
Coautor(es)
Luiz Carlos do Nascimento
Yandra Carla de Vasconcelos
Fabricy Fernandes Mota
Maria Teresa Costa Jorge
Emmanuel Filizola Cavalcante
Atualmente o abuso sexual infantil é considerado um grave problema de saúde pública, tanto devido à elevada incidência de casos, quanto às consequências causadas no indivíduo, nos familiares e na sociedade (HABIGZANG, 2006). Cercada pelos aspectos legais e pelos aspectos cognitivos do indivíduo situa-se a Psicologia, que à medida que se instrumentaliza para atender às demandas, contribui para a proteção da vítima e para seu desenvolvimento psicossocial. O olhar diferenciado visa minimizar o sofrimento e a revitimização, propondo um ambiente acolhedor para o inquérito, num esforço de proteger a vítima e resguardar seus direitos, enquanto crianças e adolescentes. As crianças vítimas de abuso sexual podem ser afetadas severamente, desenvolvendo consequências que causam problemas emocionais, comportamentais, cognitivos e psiquiátricos. A atuação de psicólogos em unidades de apoio e proteção à vítima de abuso sexual compreende desde a análise das informações colhidas ao acompanhamento em seu processo terapêutico, e se for necessário, encaminhamento para outros serviços de saúde, entre outras atribuições, sempre em favor da melhoria da qualidade de vida da criança ou adolescente em situação de risco. E na prática, será que estamos realmente atendendo a este grupo e fornecendo acolhimento e atendimento especializados? É possível a existência de uma unidade de atendimento de vítimas que ofereça suporte psicossocial de qualidade, alinhando prevenção e proteção às vítimas?
Objetivo Geral: Demostrar a experiência de um serviço público na cidade de São Benedito - Ceará, que oferece atendimento psicológico especializado às crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. Objetivos Específicos: - Avaliar o impacto psicossocial na prevenção e atendimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual na cidade de São Benedito, Ceará. - Caracterizar o perfil de atendimento de crianças e adolescentes atendidos pela CAM no município de São Benedito, Ceará. - Averiguar a importância do atendimento psicológico na evolução dos sintomas de estresse pós-traumáticos de crianças e adolescentes atendidos.
O presente estudo apresenta um delineamento quantitativo, uma vez que pretende delinear e analisar características de fatos ou fenômenos, utilizando-se da precisão e controle estatísticos, a fim de fornecer dados para verificação das hipóteses (MARCONI E LACATOS, 2002). Este delineamento quantitativo será feito através de análises dos casos registrados junto à Casa de Atendimento à Mulher (CAM) do município de São Benedito/CE. A pesquisa será documental, pois utilizará de arquivos dos prontuários registrados pelo serviço em questão. A amostra foi constituída por todos os registros de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual atendidos pelo CAM no período de setembro de 2022 a fevereiro de 2024. Foi utilizado um formulário como instrumento elaborado exclusivamente para esta pesquisa, de forma conter todas as informações que serão verificadas através da consulta aos prontuários. Foram catalogados dados como: idade, gênero, perfil socioeconômico, moradia, formas de encaminhamento, tipo de violência sofrida e sintomas relatados.
Entre setembro de 2022 a fevereiro de 2024 foram registrados 26 atendimentos de crianças e adolescentes. Destes, apenas 02 foram do gênero masculino e os demais de gênero feminino (24). Dez (10) tem idade inferior a 12 anos, e as demais entre 12 e 18 anos. Todas as vítimas são residentes em São Benedito/CE, entre a sede (10) e os sítios (14), e duas (02) estão acolhidas no Acolhimento Institucional da cidade. As famílias destas crianças e adolescentes se encontram cadastradas no Cadastro Único e são beneficiárias de programas de transferência de renda. Tais atendimentos chegaram através do Conselho Tutelar (10), do CREAS (14) e do Acolhimento Institucional (02). Todas as crianças e adolescentes foram atendidos por um prazo de 90 dias, e em 02 casos, este prazo foi prorrogado. Dos registros que foram obtidos: abuso sexual (16), estupro de vulnerável (08) e exploração sexual (02). Das adolescentes atendidas, 02 se tornaram mães, sendo uma antes dos 14 anos. Das vítimas, cinco (05) apresentavam risco de suicídio e/ou automutilações, e duas (02) faziam acompanhamento simultâneo no CAPS todas apresentavam variados sintomas de estresse pós-traumático: choro fácil, isolamento social, insegurança, pesadelos, bruxismo, comportamentos sociais inadequados, desinteresse em fazer as atividades rotineiras, desobediência, hiperssexualização, fugas do lar, agressividade, baixo rendimento escolar, refúgio na fantasia, desconfiança dos demais, sentimento de culpa.
Desde a implantação da CAM em São Benedito/CE e da inauguração do serviço voltado especificamente às vítimas de abuso sexual infantil, obtivemos uma evolução satisfatória no quadro psicológico e social de crianças e adolescentes atendidos. Anteriormente no município, estas famílias aguardavam o atendimento psicológico nas unidades básicas de saúde ou CAPS, enfrentando longas filas e um longo espaço de tempo entre os atendimentos. A rede de proteção à criança e o adolescente do município aderiu a esta modalidade de atendimentos e atualmente encaminha com frequência casos dentro deste perfil, em que dispõem de atendimento gratuito e com periodicidade quase que semanal. A CAM também oferta ações educativas em creches, escolas e outros órgãos para a prevenção ao abuso sexual, assim como fóruns com profissionais e pais para a orientação sobre como prevenir tais violências, além de possuir duas profissionais habilitadas para Escuta Especializada (Lei Nº 13.431/2017). Percebeu-se a redução dos sinais de TEPT em crianças e adolescentes atendidos na unidade e a ressignificação do trauma sofrido. Portanto, se faz necessário incentivar mais unidades a disponibilizarem desta modalidade de atendimento especializado às crianças e adolescentes.