Autor(a)
DANIEL BERTOLAZZI UCHOA
Coautor(es)
BRUNA STENIA QUEIROZ MELO
ANTONIO DIEGO ABREU DE PAULA
O Centro de Atenção Psicossocial álcool e outras drogas (CAPS ad) de Canindé, orientado pelos princípios e orientações que constituem a Rede de Atenção Psicossocial, procura oferecer acompanhamento as pessoas que desejam melhorar sua relação com algum tipo de substância psicoativa. Nesse ambiente, repleto de nuances e com uma ampla diversidade de pessoas, diariamente, enfrentamos o complexo desafio de oferecer suporte integral, respeitando os limites e possibilidades de cada paciente. A proposta de acompanhamento medicalizadora torna-se, inicialmente, muito sedutora por oferecer a suposta cura de uma doença, que é extremamente complexa e multifacetada em sua gênese. Envolver os pacientes e seus familiares em atividades que transcendam esse modelo de assistência é um desafio constante para as equipes de saúde, que quase sempre, envoltas as demandas que se apresentam nos serviços, ficam restritas as ações desenvolvidas dentro das próprias instituições. A atividade física é uma importante aliada neste tipo de tratamento e embora seja constantemente prescrita pela equipe de profissionais, ainda possui limitadas iniciativas continuadas nos dispositivos da rede. Pensando em preencher esta lacuna é que organizamos a proposta de realizar com nossos pacientes uma caminhada ecológica. Dentro do perímetro urbano, a atividade foi disponibilizada para todos os pacientes da Rede de Atenção Psicossocial do município de Canindé e seus familiares.
Geral: Promover a prática de atividade física como auto cuidado em saúde mental. Específicos: Inserir os pacientes da RAPS local em espaços comunitários de prática de atividade física Promover a cultura de saúde mental para além da medicalização Incentivar a prática de atividade física em familiares e cuidadores Estimular o vínculo familiar por meio da atividade física.
Motivados pelo desejo de realizar ações continuadas de prática de atividade física no CAPS ad de Canindé, identificamos em função da nossa estrutura, que a caminhada, por possuir baixo custo e execução simples, atenderia plenamente aos nossos interesses. A escolha do percurso levou em conta, os locais que já são utilizados comunitariamente para a prática de atividades físicas, dentre as possibilidades, escolhemos um percurso, que embora estivesse no perímetro urbano, proporcionou contato direto com a natureza em um percurso de baixa exigência física. A participação foi aberta inicialmente aos pacientes do CAPS ad de Canindé e posteriormente a todos os serviços da rede de Atenção Psicossocial, o convite era realizado por meio de nossas redes sociais e durante as atividades clínicas realizadas em nossa instituição. Definimos o horário de 16:30h para início da atividade, buscando um ambiente de prática com temperaturas mais amenas e que pudesse ser realizada do início ao fim, sob a luz do dia, implicado em menor risco de acidentes pessoais, diante da irregularidade do terreno em que caminharíamos. O horário também nos permitiu acompanhar do ponto com maior elevação do percurso, o pôr do sol, momento em que cada participante realizava suas reflexões ou registro fotográfico do momento. Vale acrescentar, que o percurso era realizado em terreno privado, com autorização prévia do proprietário para a realização da atividade.
Foram realizadas ao todo, seis caminhadas. O número de pacientes participantes sempre foi pequeno, quando comparado a demanda total do serviço. Tal fato, por outro lado, não tira o mérito e a importância da ação na proposta terapêutica da instituição. Por meio da caminhada conseguimos estimular nos pacientes participantes a experiência abandonada durante a fase ativa de seu vício do auto cuidado corporal, da releitura de alguns limites físicos e do possível estabelecimento de uma nova rotina. O vínculo e a relação entre profissional e paciente também pode ser fortalecido durante a caminhada, já que ao ultrapassar os limites físicos do CAPS, também estimulamos a reinserção desses pacientes em espaços que até então não eram frequentados, seja pela falta de conhecimento ou mesmo do estigma que muito frequentam em função de seu vício. Um ganho não previsto inicialmente, mas que nos chamou a atenção, foi o de que realizar atividades deste cunho, em ambiente externo, também foi muito motivador e até terapêutico para a equipe, que quase sempre, mesmo ultrapassando seu horário de expediente, não resistia a realização da atividade, de acordo com sua disponibilidade pessoal. Por motivo de força maior, a atividade não pode ser continuada, o que nos impediu de avaliar, se uma maneira segura, se a frequência e assiduidade ao serviço dos participantes apresentou evolução, embora os dados iniciais apontassem essa possível correlação.
Em função da mudança de proprietário do terreno em que o percurso era realizado e o início de obras no local, infelizmente a atividade teve que ser suspensa, já que não encontramos outro espaço que pudesse nos oferecer uma experiência semelhante. Acredito ser válido acrescentar que, embora a participação dos pacientes inicialmente fosse muito tímida, sempre foi muito bem avaliada por quem participou. O horário ainda era um impeditivo para parte da clientela atendida, por ainda estar dentro do horário comercial, desta forma, para atividades futuras, fica registrada a sugestão de um possível realinhamento junto ao grupo de pacientes. A iniciativa de realizar ações extramuro nos CAPS, ao nosso entender, foi validada nesta ação, por oferecer, possibilidades de intervenção e cuidado aos pacientes e equipe de profissionais, que também, de alguma forma, puderam se beneficiar do momento. Atividades que ofereçam possibilidades terapêuticas para além das estratégias biologistas, ampliam a visão e percepção do paciente sobre suas fantasias de cura e doença, fortalecendo a aliança terapêutica e o seu protagonismo durante o acompanhamento.