Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Isaac Levi Agostinho Pinheiro
Coautor(es)
Monalyza Matias Oliveira
Marianne Santos Pinheiro
Lucas Farias Pereira
Lorena Araújo e Alencar Cartaxo
Ana Paula Gomes de Oliveira
O avanço do Cinturão das Águas do Ceará (CAC) tem provocado transformações socioambientais significativas em territórios do interior do estado, impactando diretamente nas relações comunitárias e a saúde das populações atingidas. No Assentamento 10 de Abril, localizado no distrito de Monte Alverne, no município do Crato (CE), com população remanescente dos indígenas Kariri, essas mudanças têm gerado insegurança, fragilização de vínculos e adoecimento que configuram também sofrimento ético-político. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS), como ordenadora do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), é convocada a responder a demandas que extrapolam o modelo biomédico tradicional, exigindo estratégias mais participativas e territorializadas. Diante disso, a Equipe Multiprofissional (eMulti) desenvolveu uma intervenção baseada na cartografia socioafetiva como tecnologia de cuidado, junto a moradores do assentamento, visando fortalecer a escuta, o vínculo, a compreensão das dinâmicas territoriais impactadas pelo CAC e a capacidade resolutiva da APS frente a esse cenário.
Objetivo Geral: Fortalecer o cuidado territorial na APS diante dos impactos do CAC por meio da cartografia socioafetiva. Objetivos específicos: 1. Identificar mudanças percebidas no território pelos moradores 2. Reconhecer demandas relacionadas ao sofrimento e às condições de vida 3. Ampliar a escuta qualificada da eMulti 4. Fortalecer o vínculo entre equipe e comunidade 5. Subsidiar o planejamento de ações na APS.
A ação foi estruturada como estratégia de cuidado territorial na Atenção Primária alinhada às diretrizes do SUS com foco na identificação de demandas e fortalecimento do vínculo com a comunidade. Utilizou-se da cartografia socioafetiva como ferramenta de escuta e análise do território por meio de encontros coletivos com os moradores. Inicialmente realizou-se articulações com as lideranças comunitárias e a gerência da Unidade de Saúde de referencia para planejar os momentos. Em seguida ocorreram quatro encontros coletivos com participação de dezoito moradores do assentamento, onde aplicou-se o Instrumento Gerador de Mapa Socioafetivo (IGMS) seguido de rodas de conversas sobre as mudanças territoriais e as vivências da população. Ao final, a eMulti sistematizou as informações e dados que emergiram da experiencia para incorporar as estratégias de cuidado do seu processo de trabalho. Deste modo, utilizou-se de materiais como papel, cartolina, lápis de cor, caneta para a construção dos mapas, assim como rodas de conversa, diários de bordo e discussões multidisciplinares, contando com o apoio das lideranças comunitárias e demais equipes da Unidade Básica de Saúde de referência.
A intervenção possibilitou a identificação de mudanças significativas no território relacionadas ao avanço das obras do CAC evidenciando impactos no cotidiano e nas relações comunitárias. Demandas antes despercebidas, como insegurança alimentar, sintomas ansiosos associados a medo de violência sexual e de gênero, sintomas depressivos, uso irracional de medicamentos psicotrópicos e estresse, emergiram durante a intervenção. Deste modo, percebeu-se a qualificação da escuta. A participação dos moradores resultou em diversidade narrativa que subsidiaram dados para a produção de estratégias de cuidado, assim como houve um aumento dos indicadores de atividades coletivas e cuidado compartilhado da equipe eMulti. De mesmo modo, percebeu-se o fortalecimento do vínculo entre a comunidade e a equipe, tendo em vista a assiduidade e participação ativa das atividades propostas. A cartografia socioafetiva também permitiu estreitar o contato com a Equipe de Saúde da Família e demais dispositivos intersetoriais, qualificando encaminhamentos e a elaboração de estratégias de cuidado de acordo com as necessidades reais do território. Em suma, a intervenção resultou em fortalecimento de vínculo, qualificação da escuta e dos encaminhamentos, aumento dos indicadores da equipe eMulti, práticas coletivas e contribuiu para uma maior resolução da APS no território. Assim como a construção coletiva de estratégias de enfrentamento para a população frente aos desafios que surgem na comunidade devido ao avanço das obras do CAC, a partir da continuidade do grupo e rodas de conversa.
A cartografia socioafetiva mostrou-se uma tecnologia potente para o cuidado territorializado na APS, especialmente em territórios como o Assentamento 10 de Abril, atravessados por conflitos socioambientais. A experiência evidenciou o papel estratégico da eMulti na condução de demandas complexas no território, ampliando o acesso e a qualidade do cuidado, para além das práticas biomédicas tradicionais. Elenca-se, por fim, o potencial de replicabilidade da intervenção, tendo em vista seu baixo custo, metodologia ativa, fortalecimento da resolução da APS e alinhamento as diretrizes do SUS.