Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
Marília Félix Apolônio
Coautor(es)
Ticiane Santana Gomes Santiago
Juliana Girão de Oliveira
Patrícia Aparecida Dias
Hévila Ferreira Gomes Medeiros Braga
A experiência “Chá com Elas” foi desenvolvida no contexto da campanha Outubro Rosa de 2025, a partir de iniciativa do Instituto de Gestão e Cidadania (IGC), no campo da inovação social aplicada, que idealizou e executou a primeira edição do projeto. A proposta teve como objetivo principal promover acolhimento e escuta qualificada a mulheres em tratamento ou pós-tratamento do câncer de mama. A iniciativa foi realizada presencialmente em sete municípios (Sobral, Maracanaú, Morada Nova, Quixadá, Horizonte, Aracaju e Tejuçuoca), alcançando diretamente 142 mulheres em diferentes contextos territoriais. A experiência foi desenvolvida em articulação com atores locais e em diálogo com a rede de atenção à saúde dos municípios, contribuindo para o fortalecimento das práticas de cuidado no território. Ao incorporar demandas emergentes, evidencia o potencial da escuta qualificada como ferramenta estratégica para a reorientação das práticas no SUS. A proposta partiu do reconhecimento de que o câncer de mama produz impactos que extrapolam a dimensão clínica, afetando aspectos psicossociais, familiares e econômicos, frequentemente não contemplados no cuidado tradicional. Durante os encontros, conduzidos com base na escuta qualificada, emergiu de forma recorrente uma demanda estruturante: a necessidade de reconstrução da autonomia econômica e da identidade produtiva das participantes. Relatos evidenciaram afastamento do trabalho, perda de renda, fragilização de vínculos familiares e situações de vulnerabilidade social. Esses elementos revelaram limites do modelo assistencial, indicando a necessidade de ampliação das estratégias de atenção à saúde. Nesse contexto, o IGC atuou como indutor de inovação em saúde, ao desenvolver e implementar uma estratégia de cuidado baseada na escuta qualificada e na resposta às necessidades emergentes das usuárias, contribuindo para o fortalecimento de práticas mais integradas e alinhadas aos princípios do SUS.
Objetivo geral •Promover o fortalecimento emocional, social e econômico de mulheres em tratamento ou pós-tratamento do câncer de mama, por meio de escuta qualificada e estratégias de inclusão produtiva. Objetivos Específicos •Promover acolhimento e escuta qualificada em espaços coletivos estruturados •Identificar demandas psicossociais e econômicas relacionadas ao processo de adoecimento •Fortalecer a autoestima, o protagonismo e a capacidade de reconstrução de projetos de vida •Produzir subsídios para o aprimoramento das práticas de cuidado no Sistema Único de Saúde, com base nas demandas identificadas no território.
A experiência adotou uma estratégia institucional centrada na escuta qualificada e no cuidado integral, alinhada às diretrizes da atenção humanizada e da promoção da saúde. A iniciativa foi idealizada pelo Instituto de Gestão e Cidadania (IGC), responsável pelo desenho metodológico e pela condução da primeira edição do projeto, no campo da inovação social aplicada. O desenho operacional consistiu na realização de encontros presenciais em sete municípios, precedidos por mobilização territorial e articulação com atores locais e redes de atenção. As etapas incluíram: planejamento estratégico articulação intersetorial identificação e mobilização do público-alvo execução dos encontros e sistematização das informações produzidas. Os encontros foram estruturados como rodas de diálogo e espaços de convivência, conduzidos por facilitadores com experiência em abordagem psicossocial e metodologias participativas. Foram utilizadas estratégias como palestras temáticas, dinâmicas de grupo, exercícios de reflexão e práticas voltadas ao fortalecimento da autoestima e valorização de trajetórias. A escuta ativa possibilitou a identificação de demandas relacionadas aos determinantes sociais da saúde, especialmente no campo da vulnerabilidade econômica. A partir dessas evidências, o projeto foi adaptado para incorporar estratégias de inclusão produtiva, como estímulo ao empreendedorismo, valorização de saberes locais e incentivo à qualificação profissional. Foram utilizados recursos pedagógicos acessíveis, linguagem inclusiva e metodologias adaptadas às especificidades territoriais. Além disso, a articulação com redes institucionais contribuiu para ampliar o alcance das ações e fortalecer a integração com políticas públicas. A abordagem adotada caracteriza-se como prática de inovação em saúde, ao utilizar a escuta qualificada como dispositivo para reorganização do cuidado a partir das necessidades reais do território.
A experiência alcançou diretamente 142 mulheres em sete municípios, produzindo impactos relevantes nas dimensões emocional, social e econômica, além de gerar evidências para qualificação do modelo de atenção. Observou-se fortalecimento da autoestima, ampliação da confiança e ressignificação das trajetórias de vida. As participantes relataram reorganização de objetivos pessoais e profissionais, com retomada de perspectivas futuras e maior capacidade de planejamento. Destaca-se o aumento da motivação para qualificação e requalificação profissional, bem como o interesse em iniciativas de empreendedorismo e geração de renda. A troca de experiências contribuiu para a construção de redes de apoio, reduzindo o isolamento social e fortalecendo o senso de pertencimento. O projeto atuou, portanto, como um dispositivo real de empoderamento e ativação produtiva, para além do cuidado emocional. A escuta qualificada permitiu identificar demandas estruturais relacionadas à vulnerabilidade econômica, evidenciando a necessidade de integração entre saúde e políticas de desenvolvimento social. Do ponto de vista da gestão, a experiência demonstrou capacidade de mobilização territorial, articulação intersetorial e execução de ações estruturadas, além de produzir insumos relevantes para o aprimoramento das práticas de cuidado. Destaca-se que a experiência possibilitou a identificação de demandas invisibilizadas nos serviços tradicionais, especialmente relacionadas à autonomia econômica, evidenciando a necessidade de incorporação dos determinantes sociais da saúde nas práticas de cuidado.
A experiência “Chá com Elas” evidencia o potencial da escuta qualificada como dispositivo estratégico para a identificação de demandas complexas e para a reorientação do modelo de atenção à saúde. Os objetivos foram alcançados ao promover acolhimento, fortalecimento emocional e estímulo à autonomia econômica, demonstrando que a inclusão produtiva pode ser incorporada como componente do cuidado ampliado, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Como principais aprendizados, destacam-se a importância da escuta ativa, da valorização do protagonismo das usuárias na construção das soluções e da importância de práticas participativas. A experiência contribui para demonstrar que a incorporação de estratégias voltadas à autonomia econômica amplia a integralidade e a resolutividade do cuidado no Sistema Único de Saúde. Além disso, apresenta elevado potencial de replicabilidade, podendo ser adaptada a diferentes territórios e públicos, especialmente nos âmbitos das políticas públicas de saúde da mulher. Recomenda-se sua incorporação como prática complementar às ações de cuidado oncológico no âmbito do SUS.