Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
Ana Karla Brasil Santiago
Coautor(es)
Lorenna Landim Farias
Walmar Florentino Teixeira Menezes
Keylla Márcia Menezes de Souza
A assistência às crianças com alterações do desenvolvimento tem se configurado como um desafio crescente para os serviços de saúde, especialmente no contexto da atenção à primeira infância no Sistema Único de Saúde (SUS). As condições relacionadas ao neurodesenvolvimento exigem identificação precoce dos sinais de alerta e organização de estratégias que respondam às necessidades das crianças e de suas famílias. O itinerário terapêutico, compreendido como o conjunto de ações e estratégias acionadas pela família na busca por cuidado em saúde, muitas vezes é marcado por barreiras institucionais, fragmentação do cuidado e desarticulação entre os pontos da rede. Essas lacunas podem gerar atraso no diagnóstico e no início das intervenções necessárias ao desenvolvimento infantil. Diante desse cenário, a Rede Girassol foi implementada no município de Fortaleza como estratégia de organização do cuidado às crianças com alterações do desenvolvimento. O Centro de Diagnóstico Dr. Sálvio Caldas – Espaço Girassol constitui um dos equipamentos da rede e atua por meio de avaliação interdisciplinar conduzida por profissionais de Fisioterapia, Psicologia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, podendo ser complementada por avaliação médica especializada. A proposta busca compreender a criança em suas múltiplas dimensões de desenvolvimento, associando as necessidades terapêuticas identificadas à organização do seu itinerário de cuidado na rede municipal de saúde
Objetivo geral: Analisar o cuidado compartilhado no contexto biopsissocial infantil e a importância da avaliação interdisciplinar na construção do itinerário terapêutico no SUS. Objetivos específicos: - Realizar avaliação de forma interrelacionada entre as demandas apresentadas pela criança e relatos vivenciados pela rede social de apoio da criança - Identificar alterações no desenvolvimento das crianças avaliadas - Fortalecer a importância do trabalho interdisciplinar entre os profissionais de saúde
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no processo de avaliação interdisciplinar realizado pela fisioterapeuta e pela terapeuta ocupacional. O processo avaliativo ocorreu em etapas. Inicialmente foi realizado acolhimento da família e anamnese estruturada, com escuta qualificada da história do desenvolvimento da criança desde a gestação, contexto familiar, rotina diária, participação em atividades escolares e sociais e demandas apresentadas pelos responsáveis. Em seguida ocorre avaliação clínica observacional interdisciplinar da criança, contemplando aspectos relacionados ao comportamento, comunicação, interação social, habilidades cognitivas, brincar, organização motora, planejamento de movimentos, processamento sensorial e autonomia nas atividades de vida diária. Após a avaliação, as terapeutas realizam discussão interdisciplinar dos casos, integrando as informações obtidas na interação com os responsáveis e construindo a compreensão ampliada das necessidades da criança. A partir dessa análise são definidos encaminhamentos terapêuticos e estratégias de cuidado dentro da rede municipal de saúde. Esse processo busca superar a lógica exclusivamente diagnóstica e considerar a funcionalidade da criança em seu cotidiano e contexto social.
A experiência tem demonstrado contribuições relevantes para a organização do cuidado às crianças com alterações do desenvolvimento no município de Fortaleza. Destacam-se a qualificação do processo de avaliação interdisciplinar do desenvolvimento infantil e favorecendo maior compreensão das particularidades das crianças e de suas famílias, possibilitando encaminhamentos terapêuticos adequado e melhor articulação entre os diferentes pontos da rede municipal de saúde, evitando assim intervenções fragmentadas.
Para famílias de crianças neurodivergentes, o itinerário terapêutico frequentemente se inicia com a percepção de que o desenvolvimento da criança difere do esperado para a faixa etária. Após a suspeita clínica, inicia-se um período que muitas famílias descrevem como um "calvário diagnóstico": peregrinação por diferentes especialistas, longas filas de espera para avaliação neurológica e das especialidades terapêuticas, bem como dificuldades para reunir laudos e relatórios que fundamentem o diagnóstico interdisciplinar. Esse período de indefinição diagnóstica, por si só, já produz sofrimento psíquico nas famílias e retarda o acesso às intervenções terapêuticas precoces. A experiência relatada nesse trabalho evidencia que processos de avaliação interdisciplinares com abordagem biopsicossocial constituem estratégias eficazes para qualificar o cuidado às crianças com alterações do desenvolvimento. O olhar ampliado e compartilhado entre os saberes terapêuticos sobre o desenvolvimento infantil, associada aos relatos vivos que a rede social de apoio da criança compartilha no momento da avaliação, transforma um processo, que muitas vezes, é realizado de forma engessada, em uma construção individualizada , possibilitando assim que a intervenção seja direcionada a favorecer o desenvolvimento infantil associado a qualidade de vida e a inserção dessa criança e sua família no convívio social, em que muitas vezes são privadas. A iniciativa demonstra potencial de replicabilidade em outros