Autor(a)
Jéssica Pinheiro Carnaúba
Coautor(es)
Ana Karen Pereira de Souza
Antonia Raquel Lopes Bezerra
Dalverlanio Pereira de Oliveira
Ana Carolina de Carvalho
Liane Evangelista de Alencar
A Estratégia Saúde da Família (ESF) é a principal porta de entrada e a base do acesso dos usuários ao Sistema Único de Saúde (SUS) e às Redes de Atenção à Saúde (RAS), orientada pelos princípios da acessibilidade, coordenação do cuidado, vínculo, continuidade e integralidade. Assim deve ser capaz de organizar também as demandas de saúde mental do território, de acordo com seus princípios de intervenção. Destaca-se atualmente o Transtorno do Espectro Autista (TEA) que necessita de cuidados desse nível de atenção. Nesse sentido, é importante perceber que mesmo sendo uma condição de saúde comum e disseminada nos meios de comunicação, pouco se sabe a respeito da conduta clínica e os caminhos para a construção de uma rede mais fortalecida e sólida. Dois motivos embasam essa constatação: profissionais de saúde ainda não estão aptos a trabalhar com o autismo pela falta de formação continuada e especializada, além da ausência de execução das políticas públicas construídas nos últimos anos em favor do autismo. Durante os atendimentos na ESF Recreio, na cidade de Mombaça, Ceará, foi identificada uma quantidade significativa de crianças com TEA sendo necessário desenvolver ações de cuidado a essas crianças e seus familiares. Nesse sentido, quais ações podem ser implantadas na ESF para o cuidados a crianças com TEA e seus familiares?
Relatar as ações de cuidado interprofissional aos usuários com TEA e seus familiares em um ESF. Como objetivos específicos, identificar a população com TEA e seus familiares no território para realização de ações no cuidado integralizado, trabalhando o processo de informação e conhecimento em torno do transtorno Desenvolver ações de cuidado aos usuários com TEA e seus familiares Aperfeiçoar o conhecimento da equipe de saúde, em relação aos cuidados as crianças com TEA e seus familiares
A equipe da ESF Recreio, ao identificar necessidade desenvolver ações de cuidado no TEA, buscou a equipe multiprofissional, no qual havia um Profissional de Educação Física (PEF) com experiência no cuidados a crianças com TEA. A partir do diálogo entre equipes, foi iniciada reuniões de planejamento, com o objetivo de estabelecer ações de cuidado. Participaram Agentes Comunitário de Saúde (ACS), enfermeiras da unidade, fisioterapeuta e PEF integrantes da equipe multiprofissional. Inicialmente, foram mapeadas as famílias com crianças autistas residentes no território da ESF Recreio, através dos ACS. Em seguida, foi construído um grupo presencial e outro no WhatsApp com as mães ou responsáveis. Em ambos os espaços, a perspectiva era de compartilhar experiências, obter informação sobre o espectro e adquirir conhecimento para a tomada de decisões e melhores estratégias no cuidado e desenvolvimento de seus filhos. Inicialmente, buscava-se identificar a percepção das mães em relação ao transtorno, nível de conhecimento sobre características, diagnóstico, tratamento e convivência. A partir desses momentos de acolhimento e escuta, foi estabelecido um grupo de cuidado, inicialmente com as mães e cuidadores, com frequência mensal, que vem ocorrendo desde outubro de 2023.
As participantes do grupo relataram que, nos primeiros anos de vida de seus filhos, houve atraso na fala ou ausência de fala, pouco contato visual e físico, inquietação (hiperatividade), e interação social diferente. O diagnóstico das crianças aconteceu em média entre 3 e 5 anos de idade, com alguns casos significativos de diagnóstico tardio depois dos 10 anos. A maioria chegou a conclusão do diagnóstico pela suspeita/investigação e encaminhamento de profissionais fonoaudiologia, enfermagem, e médico. Notou-se que a maioria dos diagnósticos não especificam o nível de suporte da criança. Também ficou evidente que os cuidadores desconhecem diversos direitos em relação ao TEA, além de estratégias que podem auxiliar no cuidado em domicílio. Além disso, foi percebido a necessidade de cuidados em relação aos familiares, que sentem a sobrecarga e estresse em relação à supervisão das crianças e demais demandas do dia a dia. Os momentos em grupo proporcionam o compartilhamento de experiências, além de estabelecer momentos de cuidados às mães através do uso de ventosas e Práticas Integrativas Complementares (PIC). A mais, essa estratégia, vista como exitosa, vem sendo disseminada para outras unidades de saúde, como a ESF Cipó, que está na fase das visitas domiciliares para o reconhecimento das necessidades das famílias do território.
O TEA é um tema pouco explorado pelos profissionais da ESF, haja vista não haver uma rede organizada e profissionais especializados, especialmente pelos estudos envolvendo TEA serem recentes. Diante do exposto, foi percebida a necessidade de aprender e desenvolver ações de cuidado voltadas a essas famílias e seus cuidadores. Nesse sentido, através de ações simples pautadas no diálogo, foi possível aperfeiçoar o processo de acolhimento aos familiares e crianças com TEA, estabelecendo vínculo e apoio a esses pacientes. Além disso, os profissionais puderam compartilhar conhecimentos e construir novos entendimentos e caminhos para o cuidado.