Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
DRIELY DANDARY SOARES MENDES
Coautor(es)
RITA GABRIELA DE SOUSA MUNIZ
ANA MARIA DE OLIVEIRA AQUINO NETA
MARIA DAS CANDEIAS REGIS SALDANHA
BRENDA ALMEIDA DANTAS
GEOVAN DE SOUSA NEGREIROS
Durante grande parte da história, as causas de adoecimento eram doenças infecciosas e agudas. Porém, as melhorias em nosso sistema de saúde e o avanço na medicina provocaram uma transição demográfica em que o perfil populacional é modificado, principalmente pela redução das taxas de natalidade e mortalidade, aumentando, assim, a expectativa de vida e o envelhecimento da população e, consequentemente, o predomínio de doenças crônicas não transmissíveis. Entre as doenças mais prevalentes, temos a hipertensão arterial sistêmica e a diabetes mellitus, fazendo com que a Atenção Primária tenha como cenário primordial o manejo de condições crônicas. Essas condições muitas vezes são caracterizadas pela necessidade de acompanhamento contínuo, uso crônico de medicamentos e mudanças no estilo de vida. Esse cenário exige estratégias que transcendam as paredes da Unidade Básica de Saúde (UBS), fundamentadas em Redes de Atenção à Saúde (RAS) que garantam a longitudinalidade do cuidado. Em Jaguaribara, observa-se um perfil demográfico de cerca de 643 pacientes diabéticos, segundo o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), em sua maioria polimedicados. Diante dessa realidade, a equipe multiprofissional (e-Multi), através da farmacêutica clínica, articulou a estratégia de visitas domiciliares junto com a equipe de Saúde da Família, por meio da enfermagem, para realizar um panorama do território atual da Atenção Primária a Saúde (APS), focado na prevenção do pé diabético e no acompanhamento farmacoterapêutico. Esta abordagem interprofissional visa fundir os conhecimentos, garantindo que o cuidado seja centrado nas necessidades e na autonomia do paciente em seu contexto real.
Objetivo Geral: Relatar a importância da assistência interprofissional domiciliar, por meio da integração entre enfermagem e farmácia Clínica, como estratégia para a prevenção de complicações do Diabetes Mellitus (DM) e qualificação do acompanhamento terapêutico na APS. Objetivos Específicos: •Apresentar a metodologia de visita conjunta, demonstrando como a fusão dos olhares, amplia a segurança do paciente •Identificar Problemas Relacionados aos Medicamentos (PRM), evidenciando como a revisão da farmacoterapia no domicílio reduz riscos de interações e erros de administração em pacientes polimedicados •Mostrar como a utilização de instrumentos de estratificação de Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20) contribui na priorização do atendimento a idosos frágeis e vulneráveis no território.
As visitas iniciaram-se na equipe 03 da sede do município de Jaguaribara. A equipe acompanha 148 diabéticos, segundo o PEC, correspondendo cerca de 23 % dos diabéticos do município. A estratégia iniciou em 2026 após pactuação em reunião de equipe. As visitas foram pré-agendadas pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), que também as acompanhavam, junto com a enfermeira e a farmacêutica. No domicílio, a abordagem ocorre de forma simultânea. Enquanto a enfermeira realiza a inspeção dos pés, o teste de sensibilidade e a verificação de sinais vitais, a farmacêutica realiza a revisão da farmacoterapia. Além disso, era realizada uma avaliação do estado clínico do paciente, aferição de sinais vitais, glicemia capilar e análise de possíveis complicações do diabetes. Na visita, eram realizadas orientações sobre alimentação adequada, adesão ao tratamento medicamentoso, cuidado com os pés e autocuidado. Além disso, ocorriam intervenções como a solicitação de exames complementares, a análise de exames laboratoriais e modificações de horários de medicamentos que melhorassem a adesão ao tratamento. Foram utilizados monofilamentos para avaliação do pé diabético e fichas do IVCF-20 para identificar idosos frágeis, o que é essencial para um olhar integral de acordo com a realidade do paciente. Utilizou-se também o Google Forms para identificar problemas relacionados aos medicamentos. Dessa forma, foi possível elaborar um plano de cuidado compartilhado com definições de condutas, encaminhamentos e acompanhamentos periódicos para o monitoramento do paciente.
Os resultados preliminares contam inicialmente com 12 pacientes acompanhados com visitas interprofissionais realizadas. Eles evidenciam um cenário de complexidade clínica e farmacoterapêutica. Identificou-se que 100% da amostra utiliza mais de quatro medicamentos diariamente, evidenciando o risco desses pacientes em relação a interações medicamentosas e eventos adversos, o que prejudica a eficiência da qualidade de vida. Dentro dos pacientes acompanhados inicialmente, 91,7% dos participantes possuíam idade superior a 64 anos. Em relação às comorbidades, 83,3% dos usuários possuíam hipertensão arterial, além da presença de doença renal crônica em 75% dos casos. No que se refere ao estilo de vida, identificou-se baixa adesão a hábitos saudáveis, sendo que 100% dos participantes relataram não realizar atividade física regular e 83,3% referiram não consumir frutas e verduras diariamente, evidenciando fatores adicionais para o agravamento das doenças crônicas. As visitas permitiram detectar que 41,7% dos pacientes apresentavam falhas na adesão por esquecimento, enquanto 58,3% possuíam dificuldades físicas, como a deglutição de comprimidos de grandes dimensões. Diante desses cenários, foi possível intervir orientando sobre a melhor administração dos medicamentos, além de reorganizar a rotina de tomada dos remédios. A avaliação sistemática do pé diabético possibilitou a identificação precoce de lesões cutâneas e calosidades em pacientes que não tinham sensibilidade total nos pés. O impacto assistencial mais significativo foi a redução do "vazio assistencial" para o paciente domiciliado, aumentando a resolutividade da APS.
A experiência evidencia a relevância da atuação interprofissional como pilar para a consolidação da integralidade na APS, especialmente no manejo de pacientes com complexidades clínicas e sociais que demandam cuidado longitudinal. A visita domiciliar conjunta é uma ferramenta potente de gestão do cuidado, superando a fragmentação da assistência. Ao compartilhar o cuidado entre profissionais no território, foi possível otimizar o tempo das equipes e qualificar os encaminhamentos, garantindo que as necessidades do usuário fossem atendidas de forma oportuna e colaborativa. No território da experiência, a intervenção permitiu enfrentar a elevada carga de morbidades e os desafios da polifarmácia e do autocuidado irregular. O cenário domiciliar foi crucial para identificar vulnerabilidades clínico-funcionais que muitas vezes permanecem invisíveis no consultório, possibilitando ações educativas personalizadas e aplicadas à realidade do paciente. Embora em fase inicial de implementação, a estratégia demonstra alto potencial para qualificar o acompanhamento de pessoas com diabetes mellitus, contribuindo diretamente para a prevenção de agravos e hospitalizações evitáveis. Portanto, destaca-se que se trata de uma estratégia de baixo custo e alta resolutividade, fundamentada na governança interprofissional que fortalece o acompanhamento longitudinal.