Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Driely Dandary Soares Mendes
Coautor(es)
ANA MARIA DE OLIVEIRA AQUINO NETA
MARIA DAS CANDEIAS REGIS SALDANHA
BRENDA ALMEIDA DANTAS
GEOVAN DE SOUSA NEGREIROS
NAYARA BARBOSA FERREIRA DE SOUSA
ANA KÉSSIA TORRES GOMES
VITÓRIA MARIA DANTAS DE FREITAS
KAMILA QUEIROS RODRIGUES
O tabagismo no Brasil registra um alerta de aumento recente, com a prevalência de fumantes adultos subindo de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, interrompendo uma trajetória histórica de queda (BRASIL, 2024). Estima-se que 156 mil mortes anuais sejam causadas pelo tabaco, gerando um custo de R$ 153 bilhões ao ano em doenças relacionadas. Nesse contexto, visualiza-se o tabagismo como um desafio de saúde pública persistente, o que culminou na criação do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT). O programa tem como objetivo reduzir a prevalência de fumantes e a consequente morbimortalidade relacionada ao consumo de derivados do tabaco no Brasil. Porém, verifica-se que esse hábito tem se tornado cada vez mais difícil de ser manejado, necessitando de uma articulação diferenciada e fortalecimento da rede de saúde. No município de Jaguaribara, verificou-se em 2023 uma demanda de mais de 100 pacientes interessados em cessar o fumo, entretanto, os números de adesão ao tratamento farmacológico isolado eram baixos, resultando em interrupções e desperdício de medicamentos. Com isso, em 2024, após capacitação pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), o município implementou o grupo de tabagismo como estratégia para efetivar a linha de cuidado. Para isso, foi necessária uma abordagem multiprofissional, visto que o tabagismo não é apenas uma dependência física, mas uma condição complexa que envolve dimensões biopsicossociais. A estratégia garante que o usuário receba suporte integral, enquanto a medicina e a enfermagem manejam os sintomas de abstinência, a psicologia, a farmácia e o serviço social atuam na reestruturação comportamental e na identificação de gatilhos sociais. Essa atuação permite uma visão holística, aumentando as taxas de adesão e reduzindo as recaídas.
•OBJETIVO GERAL Analisar a eficácia da integração de diferentes profissionais de saúde para efetividade da linha de cuidado ao tabagista, visando a integralidade e otimização dos recursos na Atenção Primária. •OBJETIVOS ESPECÍFICOS: oEvidenciar a importância da implementação de grupos terapêuticos multiprofissionais como estratégia central de apoio ao abandono do tabagismo. oAumentar a taxa de cessação do tabagismo entre os usuários acompanhados. oMostrar a necessidade da equipe multiprofissional para efetivar a cessação do tabagismo. oFomentar o protagonismo da equipe multiprofissional na rede de saúde.
A formação do grupo foi realizada primeiramente pelo recrutamento pelos agentes comunitários de saúde, nos pacientes que já tinham sinalizado o interesse em realizar o tratamento. Inicialmente, foi realizado o convite para esses pacientes participarem de uma palestra motivacional conduzida pelo médico da estratégia saúde da família capacitado e responsável, pelos atendimentos ao grupo, juntamente com a farmacêutica da equipe multiprofissional responsável pela coordenação do programa no município. Após a sensibilização, os pacientes eram marcados para uma avaliação e triagem médica para serem verificados o grau de motivação, nível de dependência à nicotina, através do teste de fagerström, história tabagista, histórico patológico, avaliação da indicação de farmacoterapia, entre outros fatores. Posterior a essa avaliação, o grupo era formado por 10 a 15 pacientes, para garantir a efetividade das sessões coletivas e iniciava-se os aconselhamentos estruturado, utilizando-se de uma abordagem intensiva coletiva. O protocolo de tratamento se baseia nas diretrizes do tabagismo, sendo que as quatros primeiras sessões são semanais, em seguida ocorre quatro sessões quinzenais, iniciando a fase de manutenção da abstinência e posteriormente uma consulta farmacêutica por mês, para prevenção de recaídas, até completar no mínimo seis meses de acompanhamento. Nas quatros primeiras sessões os participantes são orientados para escolherem o dia “D” (data de início da abstinência à nicotina) , após a escolha desse dia, os participantes são agendados para primeira consulta médica para avaliação do tratamento medicamentoso. Nas sessões estruturais e nas sessões de manutenção, os profissionais da equipe multiprofissional (e-Multi) são acionados para colaborar com temas específicos. O profissional de educação física conduz a sessão de incentivo à prática de atividade física, a nutricionista com orientações sobre o aumento do peso após a cessação, a fisioterapeuta com efeitos do tabagismo no sistema respiratório, a psicóloga sobre ferramentas para lidar com os gatilhos, entre outros profissionais. Além da abordagem intensiva e farmacoterapia, é ofertado para o grupo a prática integrativa de auriculoterapia, com oito sessões semanais, que ocorre no mesmo dia dos encontros do grupo de apoio. Além disso, esse paciente é agendado para demais serviços da atenção primária diante do acompanhamento e identificação das necessidades pela e-Multi.
O primeiro grupo, realizado no primeiro semestre de 2024 composto por 10 participantes, teve 5 desistências, enquanto 5 continuaram. Dentre os que prosseguiram, 3 (60%) conseguiram parar de fumar, e 2 (40%) reduziram o número de cigarros consumidos. No segundo grupo, realizado no segundo semestre de 2024, formado por 15 participantes, 12 (75%) conseguiram parar de fumar, e 3 (25%) reduziram o consumo de cigarros. No terceiro grupo, no primeiro semestre de 2025, os 7 membros do grupo consegui cessar o fumo (100%) e no quarto grupo, dos 14 participantes do grupo, 8 cessaram o fumo (57%) e 6 (43%) reduziram o número de cigarros consumidos. Totalizando no total 41 participantes que realizaram o tratamento completo, em que 30 (73%) conseguiram cessar o fumo. Esse índice demonstra a eficácia da abordagem cognitiva-comportamental associada ao suporte medicamentoso quando conduzida por uma equipe interdisciplinar. O fortalecimento do fluxo de atendimento otimizou a dispensação de insumos (adesivos e gomas de nicotina), garantindo que o tratamento farmacológico fosse um complemento ao apoio psicológico e não a única via de cuidado. Além disso, foi possível quantifica 117 atendimentos individuais, realizado pela e-Multi para pacientes tabagistas em 2024 e em 2025 foram quantificados 218 atendimentos. Esses dados contemplam atendimentos realizados pelo psicólogo, nutricionista, educador físico e farmacêuticas. Atendimentos individuais que ocorrem no período dos grupos de forma simultânea, quantificando todas as consultas de acompanhamentos e sessões de auriculoterapia. O principal impacto assistencial identificado foi a humanização do cuidado. A presença de diferentes categorias profissionais (psicologia, nutrição, profissional de educação física, fisioterapeuta, médico, dentista e enfermagem) permitiu que questões subjetivas, como a ansiedade e a compulsão alimentar que são as principais causas de recaída, fossem tratadas precocemente.
A experiência vivenciada no município de Jaguaribara demonstra que a implementação de grupos operativos para o tratamento do tabagismo na atenção primária não é uma tarefa simples, exigindo superação de desafios que vão desde a manutenção da constância do grupo até a atração contínua de novos pacientes. Mesmo com o suporte técnico e os protocolos estabelecidos pelo ministério da saúde, a operacionalização prática em municípios de pequeno porte esbarra, muitas vezes, na escassez de recursos humanos e na alta demanda assistencial. Entretanto, a compreensão da relevância do tema para a saúde coletiva permitiu uma mudança de visão na gestão do cuidado. A necessidade de transição de um modelo de atendimento isolada para uma estratégia de cuidado compartilhado. Nesse cenário, o papel da equipe e-Multi revelou-se o diferencial estratégico para a efetivação do tratamento. Ao integrar profissionais de diferentes áreas, foi possível dividir o trabalho de forma organizada e oferecer um suporte que ultrapassa os limites do consultório e da simples prescrição medicamentosa, fatores que, isoladamente, costumam ser causas frequentes de recaída. Os resultados evidenciam que, através do empenho e da capacitação contínua, o trabalho multiprofissional é a ferramenta mais eficaz para reverter complicações de saúde e garantir o êxito no abandono do tabagismo.