Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
Leonel Francisco de Oliveira Freire
Coautor(es)
Raquel Barbosa da silva Felix
Lívia Bezerra Ramalho Araújo
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento de origem multifatorial, caracterizado por padrões de comportamento e interesses restritos e alterações na comunicação e interação social. A prevalência global tem se mostrado crescente nos últimos anos, esse fato se deve principalmente ao aumento da conscientização, mudanças conceituais no diagnóstico e ampliação do acesso ao rastreamento do transtorno. A qualidade de vida é diretamente afetada no autismo, seja por condições relacionadas ao desfecho do transtorno ou pelos impactos relacionados no ambiente ao qual está inserido, com destaque para o familiar. A necessidade de acompanhamento especializado contínuo impõe uma demanda financeira muitas vezes impossível de ser suprida, gerando danos irreparáveis para o transcorrer da condição. Oferecer terapia multiprofissional, na frequência necessárias, é desafio constante no cotidiano de famílias atípicas, principalmente as residentes no interior do Estado do Ceará. A indisponibilidade de equipamentos públicos especializados no interior, gera a necessidade de deslocamento até a capital do estado, e o enfrentamento de longas filas de espera. Ciente da realidade que afeta as crianças com autismo, o município de Alto Santo, Ce, através da Secretaria Municipal de Saúde, decidiu inovar e oferecer o atendimento multiprofissional para crianças com autismo, de forma integrada a atenção básica. O objetivo principal da iniciativa foi criar um Centro especializado de Atendimento ao Transtorno do Espectro Autista (CATEA) e compor uma equipe multiprofissional com atuação específica as necessidades presentes no autismo.
Objetivo geral Promover o cuidado contínuo, integral e multiprofissional para crianças com autismo residentes na cidade de Alto Santo, Ceará, através da criação do Centro de Atendimento ao Transtorno do Espectro do Autista (CATEA). Objetivos específicos: •Realizar o mapeamento situacional das crianças com autismo no município de Alto santo, Ce, identificando e compreendendo as necessidades e desafios •Compor uma equipe multiprofissional especializada no atendimento ao autismo •Ofertar terapias de forma contínua e integradas a estrutura da atenção básica •Promover a integração entre profissionais de diferentes setores da gestão municipal criando um fluxo otimizado para o atendimento ao autismo •Ampliar o acesso às terapias multiprofissionais, reduzir o tempo de espera e a necessidade de deslocamento intermunicipal.
A iniciativa foi executada em quatro etapas principais: Mapeamento situacional, triagem, definição da equipe multiprofissional e a escolha do espaço físico. A equipe inicial foi composta por um profissional de fisioterapia, assistente social, nutricionista e farmacêutica. O mapeamento situacional teve como objetivo principal levantar o número de crianças com autismo no município e identificar as regiões de origem. Esta etapa contou com a integração entre equipes da Secretaria Municipal de Saúde, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Secretaria Municipal de Educação. Dentre os profissionais envolvidos, as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) e as enfermeiras coordenadoras das Unidades Básicas de Saúde (UBS), contribuíram diretamente com o levantamento do número de casos de autismo por região. A segunda etapa consistiu na triagem com objetivo de identificar a situação de cada criança. A triagem foi executada pela equipe inicial e a aplicação de um instrumento desenvolvido especificamente para o público. Foram levantadas informações socioeconômicas, a identificação das necessidades individuais a partir de laudos e exames, medicamentos utilizados, estado nutricional, a recomendação e a frequência recomendada de terapias especializadas e o atual estado do acompanhamento terapêutico. Uma vez identificada a necessidade e a recomendação terapêutica das crianças, foram definidos os profissionais da equipe. A equipe inicial foi composta por profissionais de fisioterapia, nutrição, assistência social, psicologia, odontologia, farmácia e educação física. A escolha do espaço físico foi definida considerando a necessidade da criação de um fluxo otimizado que proporcionasse agilidade nas etapas de identificação de casos, triagem e início das terapias. Considerando esses critérios, optou-se por implantar o CATEA em uma UBS. O espaço possibilitou a utilização de salas dedicadas ao atendimento nutricional, psicoterapêutico, fisioterapêutico e educação física contando com recursos para estímulo sensorial e desenvolvimento motor, além da recepção para acolhimento das famílias. O espaço compartilhado possibilitou também o acesso a farmácia com entrega de medicações, orientação farmacêutica e atendimento odontológico. Dessa forma, em uma única visita, a criança tem acesso a diferentes terapias e atendimentos, reduzindo a necessidade de múltiplos deslocamentos.
Desde a inauguração em novembro de 2023, o Centro de Atendimento ao Transtorno do Espectro Autista (CATEA) transformou a realidade da assistência a famílias atípicas no município. O que começou como um suporte para 43 crianças, contando com uma equipe de seis profissionais e cinco salas, evoluiu para um serviço de ampliado que hoje acolhe 115 famílias. A expansão na capacidade de atendimento em pouco mais de dois anos reflete não apenas o aumento da demanda, mas o compromisso da gestão em não deixar essas crianças desamparadas. Para garantir a qualidade do acompanhamento, a estrutura física cresceu para oito salas terapêuticas e o corpo técnico foi diversificado de forma estratégica. Atualmente, o CATEA oferece um cuidado integral com profissionais da nutrição, psicologia, assistência social, fisioterapia, psicopedagogia, odontologia, fonoaudiologia, educação física e neuropediatria. O cuidado multiprofissional, até o presente momento, já realizou aproximadamente 6.700 atendimentos, esse número tem uma representação não apenas estatística, mas do avanço real na autonomia, na comunicação e na interação social de cada criança atendida, dando voz também às famílias. O impacto do projeto tem reflexo no desenvolvimento direto das crianças atípicas, oferece assistência para as famílias atípicas, que muitas vezes enfrentavam o isolamento e a falta de orientação. A segurança de ter um acompanhamento multiprofissional perto de casa mudou a rotina desse público. O crescimento do CATEA e a seu impacto na melhoria da qualidade de vida e no desenvolvimentos das crianças com autismo, fez com que o projeto se tornasse uma referência na região, despertando o interesse em gestores de outros municípios por entender como implementar um modelo que concilie acolhimento humanizado com eficiência técnica. Embora o desafio da lista de espera ainda persista, os resultados alcançados até aqui confirmam que o Centro é um passo fundamental para uma saúde pública mais inclusiva e sensível às n
A trajetória do CATEA entre 2023 e 2026 demonstra que o cuidado multiprofissional e intersetorial para o autismo é um investimento necessário e transformador para a saúde pública municipal. A síntese dessa experiência revela que o aumento no número de vagas e a chegada de novas especialidades foram fundamentais para acolher 115 crianças que, antes, não tinham onde buscar suporte. Mais do que números, os mais de 6.700 atendimentos realizados representam ganhos reais na autonomia e na qualidade de vida das crianças e das famílias. Os objetivos centrais foram atingidos ao consolidar o Centro como um espaço de referência, onde o tratamento é visto de forma integral. O maior aprendizado desse processo é que o acolhimento deve abraçar também as famílias atípicas, oferecendo segurança e orientação. Pelo sucesso alcançado e pelo interesse que despertou em outros municípios, o CATEA mostra um enorme potencial para ser replicado em outras cidades. Ele é a prova de que, com vontade política e olhar humano, o SUS pode oferecer um atendimento digno e inclusivo.