Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
Thalita Soares Rimes
Coautor(es)
Raimundo Levi Gomes Santos
Vanuza Cosme Rodrigues
Simone Lucia Silva
Valdenir Freire Peixoto Filho
Izabelli Barros de Barros
João Paulo Lima Vieira
Roberto Rodrigues Ferreira
A doença de Chagas (DC), causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e transmitida principalmente através de insetos vetores, permanece como importante problema de saúde pública na América Latina e no Brasil, especialmente em regiões historicamente endêmicas, como o sertão cearense. Estima-se que milhões de pessoas vivam com a infecção, muitas sem diagnóstico, o que reforça seu caráter silencioso e negligenciado. Fatores socioeconômicos, ambientais e limitações no acesso aos serviços de saúde contribuem para o subdiagnóstico e a descontinuidade do cuidado mesmo com a disponibilidade de tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O município de Limoeiro do Norte, localizado no interior do Ceará, com população estimada de 62.623 habitantes, segundo estimativa do IBGE 2025, tem uma rede assistencial com serviços da atenção primária, secundária e terciária à saúde. São 23 Equipes da Estratégia Saúde da Família- ESF que possibilitam a cobertura de 100% da Atenção Primária à Saúde-APS, as quais ordenam o cuidado junto aos demais pontos de atenção da rede. Esse território é estratificado como alto risco para DC, segundo boletim epidemiológico para DC do Ceará, em 2021. Informa-se que tem notificado cerca de 220 pessoas com DC no sistema de notificação e SUS notifica com residência em Limoeiro do Norte. Porém, percebeu- se ausência de fluxos estruturados, desconhecimento dos protocolos clínicos para manejo de DC principalmente na APS, evidenciando-se lacunas na linha de cuidado desses usuários. Diante desse cenário, e a partir da implementação do projeto Expresso Chagas 21 (EC21), emergiu a necessidade de estruturar um serviço que garantisse acesso ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo. A implantação do ambulatório de DC surge como estratégia para enfrentar a invisibilidade desses pacientes, ampliar o acesso ao cuidado, fortalecer a rede de atenção à saúde e promover uma assistência integral, oportuna e resolutiva, alinhada aos princípios do SUS
Avaliar a implantação e a organização de um ambulatório de atenção à doença de Chagas no interior do Ceará, evidenciando desafios, estratégias adotadas e impactos na assistência aos usuários. Objetivos Específicos: •Descrever o processo de implantação e organização do ambulatório no contexto da Atenção Primária à Saúde •Identificar os principais desafios enfrentados na implementação da iniciativa •Avaliar os impactos da implantação na ampliação do acesso, no acompanhamento clínico e na qualidade da assistência aos usuários com doença de Chagas
ATrata-se de um relato de experiência sobre a implantação de um ambulatório de atenção à doença de Chagas no município de Limoeiro do Norte, Ceará. A iniciativa foi impulsionada a partir da implementação do projeto Expresso Chagas 21 (EC21), e da formalização de Acordo de Cooperação Técnica entre a gestão municipal e o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), para criação do Centro de Estudos e Pesquisas em Atenção Integral à Saúde e Vigilância em Doença de Chagas (CEPAV-Chagas). No início de 2025 foi definido espaço físico para realização processo de trabalho do CEPAV através de bolsistas da FIOCRUZ e médico do município. Realizou-se diagnóstico situacional de pessoas com DC, identificando usuários sem acompanhamento na rede de saúde. Percebe-se também a necessidade de qualificação dos profissionais da APS, sendo realizada uma formação sobre o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da doença, direcionada a médicos e enfermeiros da Atenção Primária à Saúde, mediada por equipe do IOC/Fiocruz. Assim, com os pacientes sem acompanhamento já identificados e com a equipe formada, em agosto de 2025 foram iniciadas as atividades do ambulatório de Chagas no município. A proposta do ambulatório é realizar o atendimento clínico dos pacientes acometidos com a doença, em especial daqueles que não realizam nenhum tipo de acompanhamento. O ambulatório funciona de segunda a sexta feira, em horário comercial, dentro de uma estrutura junto ao laboratório municipal de análises clínica e de entomologia, atendimento especializado e central de regulação municipal. O atendimento médico acontece 01 vez por semana, principalmente aos pacientes com diagnóstico de DC e sem acompanhamento na rede municipal. NO CEPAV todos os pacientes são monitorados através de planilhas em excel, as quais constam informações socio demográficas e do tratamento para DC em seguimento. Os pacientes são acolhidos e já seguidos conforme orientação médica, sendo coletado exames laboratoriais, aquisição de medicamentos para DC, monitoramento de eventos adversos, visita domiciliar em parceria com as ESF. Além disso, desenvolve uma excelente trabalho de mídias digitais através do instagram com informes diversos sobre a DC. Ressalta-se que a importância da parceria com Associação dos afetados pela doença de Chagas, primeira do Ceará, a qual tem feito uma importante participação popular para a continuidade do funcionamento do CEPAV.
O ambulatório já realizou mais de 80 atendimentos, entre primeiras consultas e seguimento ambulatorial. Importante mencionar que dois pacientes já realizaram tratamento com benzonidazol, desmistificando o medo da prescrição do tratamento e dando oportunidade de uma melhor qualidade de vida ao portador. Este avanço no enfrentamento da doença de Chagas no Ceará, vem sendo considerado um marco pela sociedade civil e autoridades locais, uma vez que o acesso ao tratamento só era possível na atenção terciária e hoje é realizada in loco, com todo acompanhamento necessário, incluindo exames laboratoriais de seguimento
Limoeiro do Norte está com a linha de cuidado ao DC sendo estruturada, a visibilidade para a doença está sendo paulatinamente sendo contemplada. Quão importante é a continuidade desses serviços para contribuir com a qualidade de vida das pessoas que vivem com DC. Nessa caminhada os desafios são perceptíveis, os quais também fortalecem a continuidade dessa estratégia de excelência no município. Pauta-se alguns desafios para a oferta desses serviços, tais como: poucos recursos humanos para a realização do processo de trabalho do CEPAV, carga horária insuficiente do profissional médico e demora na realização de exames especializados, especialmente ecocardiograma e colonoscopia. A iniciativa representa um importante avanço na descentralização do cuidado às pessoas com doença de Chagas no interior do Ceará, além de contribuir para o fortalecimento da vigilância e para o aprimoramento do conhecimento sobre a situação epidemiológica da doença na região. A parceria entre instituições de pesquisa, gestão municipal e atenção primária à saúde demonstra o potencial de estratégias integradas para ampliar o acesso ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento clínico, fortalecendo a rede de cuidado e contribuindo para maior visibilidade e enfrentamento da doença no território. Recomenda-se que essas experiências tenham sejam valorizadas pela Estado e Ministério da Saúde, os quais podem contribuir com a ampliação e financiamento uma vez que essa problemática assola o território nacional