Tema: ATENÇÃO BÁSICA
autor(a)
FRANCISCA RAYANE FEITOZA LEDO
O Diabetes Mellitus constitui uma das principais condições crônicas acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde (APS) e importante causa de morbimortalidade no Brasil, sobretudo devido às complicações nos membros inferiores, como o pé diabético. A APS, como porta de entrada preferencial e coordenadora das Redes de Atenção à Saúde, possui papel central na prevenção, identificação precoce e manejo dessas complicações. O município de Milhã, localizado no Sertão Central do Ceará, caracteriza-se por pequeno porte populacional e significativa distância dos centros especializados. Antes da implantação desta experiência, usuários com lesões complexas necessitavam deslocar-se cerca de 300 km até Fortaleza, referência estadual para tratamento, o que resultava em custos elevados, dificuldade de acesso, abandono terapêutico e agravamento dos quadros clínicos. Em consonância com o novo modelo de financiamento da APS e com as diretrizes nacionais de cuidado às condições crônicas, o município estruturou um fluxo integrado entre as Unidades Básicas de Saúde e o ambulatório municipal de estomaterapia, garantindo acesso oportuno ao tratamento especializado no próprio território. A APS realiza avaliação sistemática dos pés das pessoas com diabetes durante o acompanhamento longitudinal. Pacientes com alterações são encaminhados ao ambulatório especializado e posteriormente acompanhados de forma compartilhada, fortalecendo a integralidade e a coordenação do cuidado.
Objetivo Geral: Qualificar a linha de cuidado da pessoa com Diabetes Mellitus em Milhã-CE por meio da integração entre a Atenção Primária à Saúde e o ambulatório de estomaterapia. Objetivos Específicos: Instituir avaliação sistemática dos pés na APS Identificar precocemente fatores de risco e lesões Garantir acesso oportuno ao tratamento especializado no território Promover cuidado compartilhado entre níveis de atenção Reduzir amputações evitáveis e internações Diminuir deslocamentos intermunicipais e custos associados
A experiência consistiu na organização de um fluxo assistencial integrado entre APS e ambulatório municipal de estomaterapia, estruturando uma linha de cuidado territorializada para pessoas com Diabetes Mellitus. Nas Unidades Básicas de Saúde, profissionais capacitados realizam avaliação clínica sistemática dos pés durante consultas, atendimentos programados e visitas domiciliares, incluindo inspeção, identificação de deformidades, alterações cutâneas, presença de lesões e estratificação de risco. Usuários com alterações são encaminhados ao ambulatório de estomaterapia, onde são avaliados por enfermeiro especialista, que define plano terapêutico individualizado com curativos especializados, orientações de autocuidado e frequência de acompanhamento, podendo ocorrer até duas consultas semanais conforme a gravidade. Após a avaliação especializada, o cuidado torna-se compartilhado com a APS, responsável pelo seguimento longitudinal, controle clínico, educação em saúde e monitoramento contínuo. O processo de referência e contrarreferência assegura comunicação entre os serviços e continuidade da assistência. A implantação do ambulatório no próprio município ampliou significativamente o acesso ao tratamento especializado antes disponível apenas na capital.
A implantação do fluxo integrado produziu impactos expressivos na organização da rede e na qualidade da assistência: Cobertura de avaliação dos pés alcançando praticamente todas as pessoas com diabetes acompanhadas na APS Redução estimada superior a 70% nos encaminhamentos para Fortaleza Diminuição significativa do tempo entre identificação da lesão e início do tratamento Aumento da adesão ao acompanhamento especializado Redução de complicações graves e amputações evitáveis Queda nas internações relacionadas ao pé diabético A disponibilização do tratamento no próprio território eliminou deslocamentos de aproximadamente 300 km por viagem, reduzindo custos diretos e indiretos para usuários, famílias e gestão municipal. Observou-se ainda fortalecimento do papel da APS como coordenadora do cuidado, maior integração entre os pontos da rede e ampliação da equidade no acesso aos serviços especializados.
A integração entre Atenção Primária à Saúde e ambulatório de estomaterapia demonstrou elevada efetividade na qualificação do cuidado às pessoas com Diabetes Mellitus em Milhã-CE, município de pequeno porte e distante de centros especializados. A iniciativa ampliou o acesso, reduziu custos, preveniu complicações graves e fortaleceu a APS como ordenadora da rede, em consonância com os princípios da universalidade, integralidade e equidade do SUS. Trata-se de uma estratégia sustentável, de alto impacto e baixo custo relativo, com forte potencial de replicabilidade para municípios com características semelhantes, contribuindo para a redução de amputações evitáveis e melhoria dos indicadores de saúde das pessoas com doenças crônicas no país.