Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
ELIZAMARA SILVA SALDANHA LIMA
Coautor(es)
JANAINA MOTA DA ROCHA
Ianca Evangelista da Rocha
Uyara Mara Costa de Sousa
O tempo é um fator determinante na prevenção do câncer de mama e do colo do útero, uma vez que a detecção precoce reduz significativamente a morbimortalidade em mulheres em faixa etária de risco. No município de Horizonte–CE, a adesão aos exames preventivos ainda representa um desafio para a Atenção Primária à Saúde, exigindo estratégias inovadoras que ampliem o acesso, reduzam barreiras e fortaleçam o autocuidado. Nesse contexto, a equipe de Saúde da Mulher, em articulação com a Estratégia Saúde da Família (ESF), desenvolveu ações integradas de acolhimento, educação em saúde e rastreamento oportuno, visando reduzir desigualdades, qualificar a linha de cuidado e aprimorar a organização dos fluxos assistenciais, além de identificar fragilidades e avanços na rede. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, são estimados 73.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil (2023–2025), sendo cerca de 3.080 no Ceará, que apresenta uma das maiores taxas de incidência do país (54,13/100 mil mulheres). Para o câncer do colo do útero, estimam-se 17.010 novos casos anuais, sendo o terceiro mais frequente entre mulheres. Em Horizonte, a população-alvo para rastreamento soma 30.168 mulheres — 23.019 entre 25 e 64 anos e 7.149 entre 50 e 69 anos — correspondendo a 38% da população. Parte significativa desse grupo está inserida no mercado de trabalho, especialmente em indústrias e comércios, o que impõe barreiras relacionadas ao tempo e à organização do acesso. Diante desse cenário, questiona-se como ampliar o acesso ao rastreamento. Para enfrentar esse desafio, foram implementadas estratégias como ações educativas, busca ativa, ampliação de horários e reorganização dos processos de trabalho, promovendo cuidado mais acessível, humanizado, resolutivo e centrado nas necessidades das usuárias.
Objetivo Geral: Ampliar o acesso ao rastreamento do câncer de mama e do colo do útero na população em faixa etária de risco do município de Horizonte–CE, por meio da qualificação do acolhimento, da educação em saúde e da reorganização dos processos de trabalho na Atenção Primária à Saúde. Objetivos especificos: Desenvolver ações educativas voltadas à prevenção e ao autocuidado Realizar busca ativa de mulheres com exames de rastreamento em atraso Reorganizar o processo de trabalho, incluindo horários e modalidades de atendimento Qualificar o acolhimento para ampliação do acesso e redução de iniquidades Monitorar e avaliar a adesão ao rastreamento por meio de indicadores.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido pela equipe de Saúde da Mulher da Atenção Primária à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Horizonte–CE, no período de 2022 a 2025, com foco na ampliação do acesso ao rastreamento do câncer de mama e do colo do útero. O município possui população estimada de 79.934 habitantes (IBGE) e integra a região metropolitana de Fortaleza. As ações foram realizadas em 20 Unidades de Saúde, abrangendo 26 equipes da Estratégia Saúde da Família, com a participação de 86 profissionais de enfermagem, 133 Agentes Comunitários de Saúde, 30 médicos e 57 trabalhadores administrativos, voltadas a uma população-alvo de 30.168 mulheres em faixa etária de risco. A experiência foi estruturada em quatro etapas. Inicialmente, realizou-se diagnóstico situacional por meio de sistemas de informação e prontuários, identificando mulheres com exames de rastreamento em atraso e as principais barreiras de acesso relatadas. Em seguida, ocorreu o planejamento das intervenções, com definição de estratégias voltadas à qualificação do acesso, incluindo ampliação de horários, ações educativas, mutirões e reorganização dos fluxos de agendamento e encaminhamento. Na etapa de implementação, foram desenvolvidas ações como educação em saúde, busca ativa pelas Agentes Comunitárias de Saúde, acolhimento ampliado, atendimento em horários alternativos, intensificação da oferta de mamografias e coleta de citopatológicos, além da articulação com a rede para garantia do seguimento dos casos. Por fim, realizou-se monitoramento e avaliação por meio de indicadores assistenciais, como número de exames realizados, adesão após busca ativa, participação nas ações educativas e redução de exames pendentes, complementados por análise qualitativa baseada na percepção das equipes e usuárias, com apoio de plataforma de gestão.
A implementação das ações integradas ampliou o acesso ao rastreamento do câncer de mama e do colo do útero no município de Horizonte–CE. Em 2025, os indicadores do modelo Saúde Brasil 360 apontam cobertura de 68% para câncer de mama (7.149 mulheres) e 49% para colo do útero (23.019), resultado associado ao acolhimento qualificado, educação em saúde e reorganização dos processos de trabalho. A busca ativa foi fundamental para alcançar mulheres com exames em atraso, especialmente aquelas com barreiras relacionadas ao tempo, medo, desconhecimento e dificuldades de conciliar trabalho e cuidado. A ampliação de horários e atendimentos em dias alternativos favoreceu o acesso de mulheres trabalhadoras. Houve crescimento expressivo na realização de exames. As mamografias evoluíram de 13 solicitações em 2023 para 399 em 2024 e 4.474 em 2025. Já o citopatológico passou de 250 coletas em 2022 para 2.572 em 2023, 2.385 em 2024 e 4.024 em 2025, evidenciando impacto das estratégias na cobertura. As ações educativas fortaleceram o autocuidado e o entendimento sobre a importância do diagnóstico precoce. O acolhimento humanizado contribuiu para redução de medos e aumento do vínculo com os serviços. A reorganização dos fluxos reduziu o tempo de espera dos resultados (de até 90 para menos de 30 dias) e qualificou o seguimento dos casos. Destaca-se ainda a integração entre equipes e a articulação com a regulação, garantindo acesso oportuno à atenção especializada. Observa-se, portanto, que a combinação de estratégias assistenciais e organizacionais promoveu maior equidade no acesso, ampliou a cobertura de exames e fortaleceu a coordenação do cuidado na Atenção Primária. Os resultados demonstram que estratégias centradas na escuta, flexibilização do acesso e organização da rede ampliam a adesão ao rastreamento e reduzem desigualdades em saúde
A experiência desenvolvida pela equipe de Saúde da Mulher de Horizonte–CE evidenciou que estratégias centradas na ampliação do acesso, no acolhimento qualificado e na educação em saúde são fundamentais para fortalecer o rastreamento do câncer de mama e do colo do útero na Atenção Primária à Saúde. Ao reconhecer o tempo das mulheres como elemento determinante para a adesão aos exames, foi possível reduzir barreiras, aproximar a comunidade dos serviços e promover maior autonomia no autocuidado. As ações integradas, como busca ativa, ampliação de horários, atividades educativas e reorganização dos fluxos assistenciais, contribuíram para aumentar a participação das usuárias, qualificar o vínculo e fortalecer a continuidade do cuidado. Os resultados demonstram que práticas inovadoras, humanizadas e sensíveis ao contexto local impactam positivamente os indicadores de saúde e ampliam a resolutividade da APS. Destaca-se que a transformação do cuidado não se restringiu à oferta de exames, mas envolveu a reorganização dos processos de trabalho, a compreensão do contexto de vida das mulheres e a articulação permanente com a rede de atenção. Assim, reafirma-se o papel estratégico da Atenção Primária como ordenadora e coordenadora do cuidado, contribuindo para a integralidade da assistência e a redução das desigualdades em saúde.