Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
FRANCISCA LARISSA RODRIGUES DE ALMEIDA
Coautor(es)
Natacha Teles de Almeida
Francisca Maria Bezerra dos Santos
Luis Frederico Mendes Neto
Elania Cristina de Araujo Vasconcelos
Lucas Mardem Leite Duarte
A seletividade alimentar infantil caracterizada pela recusa persistente de alimentos, limitação do repertório alimentar e resistência à introdução de novos sabores e texturas têm se tornado uma condição cada vez mais comum nos dias atuais. Tal comportamento compromete o estado nutricional das crianças, resultando em desnutrição, obesidade e deficiências nutricionais importantes. Durante os atendimentos nutricionais e psicológicos, foram observados relatos crescentes de mães com queixas de comportamentos evitativos frente a consistências e alimentos por parte de seus filhos, sobretudo entre aqueles com desenvolvimento atípico. Dessa forma, a ideia da criação do Projeto Evoluindo Sabores surgiu em decorrência desses atendimentos com crianças e seus responsáveis pela equipe multiprofissional (eMulti) de General Sampaio, como estratégia para o manejo da seletividade alimentar infantil através da terapia alimentar em grupo com a manipulação e a experimentação de receitas culinárias.
Relatar a experiência do Projeto Evoluindo Sabores no manejo da seletividade alimentar infantil na Atenção Primária à Saúde (APS) do município de General Sampaio-CE. Especificamente, identificar crianças com sinais de seletividade alimentar atendidas pela equipe multiprofissional (eMulti) de General Sampaio–CE, por meio de questionário aplicado aos responsáveis realizar terapia alimentar em grupo com crianças de 3 a 10 anos, utilizando atividades culinárias e experimentação de diferentes alimentos e texturas para melhor aceitação alimentar orientar os responsáveis sobre estratégias de manejo da seletividade alimentar, visando o estímulo à experimentação de novos alimentos no ambiente familiar.
Trata-se de uma relato de experiência com abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, realizado no município de General Sampaio, estado do Ceará, no contexto do Sistema Uníco de Saúde (SUS). A metodologia baseou-se na vivência da implantação do Projeto Evoluindo Sabores no manejo da seletividade alimentar infantil. Entre fevereiro e abril de 2025, responsáveis que relataram recusa alimentar dos filhos foram convidados a responder um questionário para identificação de sinais de seletividade alimentar. Confirmados os casos, as crianças foram incluídas no projeto mediante consentimento dos responsáveis. Participaram 20 crianças de 3 a 10 anos, distribuídas em sete grupos conforme idade, tipo de recusa e suporte necessário. Foram realizados 10 encontros quinzenais no ano de 2025, às terças-feiras no período de maio à agosto. Os encontros conduzidos pela nutricionista e psicóloga da eMulti, com duração média de 60 minutos aconteceram com a utilização de insumos alimentares em uma das salas do Centro Especializado em Desenvolvimento Infantil (CEDI), ambos cedidos pela Secretaria Municipal de Saúde. O primeiro encontro contou com uma palestra da nutricionista e da psicóloga sobre a seletividade alimentar e uma oficina culinária de vitamina de fruta com farinha de frango caseira. Em cada um dos encontros seguintes, as crianças realizaram a preparação e a degustação de receitas culinárias com foco nos grupos alimentares (frutas, vegetais, proteínas), além do contato com diferentes texturas (elásticas, crocantes, cremosas), sendo elas: espetinho de frutas com chocolate, pão de beijo rosa (ovo, goma de tapioca, queijo e farinha de beterraba), pipoca salgada com farinha de beterraba e pipoca com creme de whey protein de chocolate, cupcakes de milho com goiabada, sanduíche com hambúrguer de frango (aveia, cenoura, frango), canudinhos recheados com creme de frango e com doce de leite, salgadinho caseiro (goma de tapioca, ovo e frango) e biscoito doce. Ao final de cada encontro eram realizadas devolutivas aos responsáveis, contendo orientações nutricionais e evolução alimentar de cada criança. No último encontro houve o encerramento do projeto com a entrega de certificados para as crianças participantes, relatório com a evolução comportamental e alimentar de cada uma, uma maleta contendo um mimo e um livro com todas as receitas realizadas durante o projeto.
Do total de participantes 60% eram do sexo feminino e 40% do sexo masculino, 60% possuíam Transtorno do Espectro Autista. Observou-se um avanço progressivo no comportamento alimentar das crianças, refletido no aumento do interesse pelas preparações, na maior aceitação de diferentes texturas e na diminuição de comportamentos de recusa. Sendo que a cada encontro, as crianças se mostravam cada vez mais motivadas a experimentar as preparações realizadas por elas. Esse resultado evidencia que a participação ativa das crianças no preparo das receitas favorece a construção de um ambiente mais lúdico e seguro, reduzindo resistências e promovendo maior abertura para a experimentação de novos alimentos. A participação dos responsáveis também se mostrou um elemento central no processo terapêutico, uma vez que os relatos de maior envolvimento das crianças no preparo dos alimentos em casa e a reprodução das receitas indicam a extensão dos efeitos da intervenção para além do ambiente dos encontros. Isso reforça a importância da inclusão da família como parte ativa no manejo da seletividade alimentar. Além dos avanços no comportamento alimentar, o projeto promoveu também encaminhamentos para o acompanhamento dos casos de seletividade alimentar com outros profissionais da eMulti como a terapeuta ocupacional e a fonoaudióloga. A alta adesão ao projeto e a baixa taxa de desistência demonstraram a aceitabilidade da proposta, enquanto os relatos consistentes de evolução alimentar indicam sua efetividade. Dessa forma, os resultados apontaram que a utilização da culinária como ferramenta terapêutica não apenas contribui para mudanças no comportamento alimentar, mas também fortalece vínculos, promove autonomia e amplia as possibilidades de cuidado integral na infância, configurando-se como uma estratégia promissora no contexto da Atenção Primária à Saúde.
O Projeto Evoluindo Sabores mostrou-se uma iniciativa inovadora ao utilizar a culinária como ferramenta terapêutica no SUS, promovendo não apenas ampliação do repertório alimentar infantil, mas também acolhimento, escuta e empoderamento das famílias diante de uma demanda tão crescente e muitas vezes negligenciada. Sugere-se que essa iniciativa possa ser um modelo de acolhimento e tratamento, beneficiando todas as crianças sejam elas neuroatípicas ou típicas que frequentam a Atenção Primária à Saúde.