Tema: GESTÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO NA SAÚDE
Autor(a)
Rosângela Souza Cavalcante
Coautor(es)
Edypo de Sousa Carlos
Ana Patrícia Timbó Batista Ribeiro
Adriana Rodrigues de Sousa
Mara Milvia Pontes Melo Resende
Catia Neves de Souza
Raimundo Neto de Abreu Brito
Naira Denise de Sousa Santos
Juracir Bezerra Pinho
Francisco Rosemiro Guimarães Ximenes Neto
A Expedição Cirúrgica é um projeto de extensão da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) que reúne alunos, professores e cirurgiões voluntários para realizar mutirões de cirurgias especializadas minimamente invasivas em regiões com escassez de recursos. Em sua 12ª edição, o projeto ocorreu pela primeira vez no Nordeste, sediado em Crateús/CE, cidade polo de uma Região de Saúde que engloba 11 municípios e aproximadamente 300.000 habitantes, vinculada à macrorregião de Sobral. A iniciativa fundamentou-se na sensibilidade à alta demanda reprimida e extensas filas de espera por procedimentos cirúrgicos eletivos. Diante desse cenário, a gestão municipal buscou parcerias para trazer este renomado projeto aos Sertões de Crateús, visando beneficiar diretamente usuários que aguardavam tratamento, promovendo melhoria na qualidade de vida e resolutividade no território. O projeto promoveu a integração ensino-serviço-comunidade, unindo a FMUSP a instituições locais e regionais, como a Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Estadual do Ceará (UECE), Faculdade Princesa do Oeste (FPO) e Escola Profissionalizante Manoel Mano (EPMM), integrando acadêmicos de Medicina e Enfermagem. A ação contemplou os 11 municípios da região, com efetiva participação dos gestores locais e da Atenção Primária à Saúde (APS) como coordenadora do cuidado. O fluxo envolveu as Diretorias de Regulação (DIRAC) municipais, a Policlínica Regional Raimundo Soares Resende e o Hospital São Lucas como bases do atendimento regional. A execução ocorreu em três etapas: 1) Visita técnica para avaliação da infraestrutura de saúde 2) Triagem e classificação de risco dos pacientes e 3) Efetivação do mutirão cirúrgico especializado
Objetivo Geral Ampliar o acesso a cirurgias eletivas especializadas para populações que enfrentam longas filas de espera ou barreiras geográficas ao tratamento cirúrgico nos sertões de Crateús/CE. Objetivos Específicos Proporcionar treinamento prático e vivência em saúde pública para estudantes e residentes, promovendo a integração ensino-serviço entre universidades nacionais e locais Reduzir desigualdades regionais em saúde através da interiorização de tecnologia cirúrgica minimamente invasiva e equipes especializadas em áreas remotas Fortalecer a rede de atenção regional, integrando a estrutura dos municípios da região de saúde, da Policlínica e do hospital local no suporte à triagem e execução dos procedimentos Otimizar a fila de espera do sistema de regulação local, conferindo celeridade e resolutividade aos casos cirúrgicos represados na região de Crateús.
O presente relato de experiência detalha o percurso metodológico da implementação do projeto Expedição Cirúrgica da USP no município de Crateús-CE, estruturado em um desenho operacional que integrou planejamento remoto e fases presenciais. A estratégia institucional iniciou-se com uma fase preparatória entre novembro e dezembro de 2024, por meio de quatro reuniões remotas. Esse momento inicial envolveu os diretores da Expedição e os gestores da saúde de Crateús, incluindo Secretários de Saúde e as Diretorias da Policlínica Regional Raimundo Soares Resende e do Hospital São Lucas, focando no alinhamento de objetivos, fluxos de atendimento e funcionalidade das ações futuras. A execução presencial seguiu um fluxo de três etapas complementares. A primeira ocorreu em 13 e 14 de janeiro de 2025, consistindo em uma visita técnica para avaliação da infraestrutura e dos equipamentos de saúde locais. Nessa ocasião, a equipe gestora municipal acompanhou quatro integrantes do projeto — um médico anestesista, um engenheiro clínico e dois diretores — em vistorias detalhadas à Policlínica e ao Hospital São Lucas, garantindo a viabilidade e segurança dos procedimentos. Posteriormente, entre 11 e 17 de abril de 2025, foi realizada a etapa de triagem e estratificação de risco na Policlínica Regional. Uma equipe multidisciplinar de 19 participantes, composta por especialistas em ginecologia, cirurgia geral, radiologia, anestesiologia e acadêmicos, avaliou os usuários encaminhados pelos 11 municípios da região de saúde. A identificação desses pacientes seguiu critérios populacionais pré-definidos para cirurgias ginecológicas, dermatológicas e do aparelho digestivo, culminando no diagnóstico preciso e na programação cirúrgica. O percurso encerrou-se com o mutirão cirúrgico, ocorrido de 29 de junho a 5 de julho de 2025. Essa força-tarefa mobilizou 88 profissionais para a efetivação dos procedimentos cirúrgicos e a oferta de ultrassonografias e inserção de Dispositivos Intrauterinos (DIU) para pacientes de toda a região. A abertura desta fase contou com o acolhimento da equipe externa por autoridades e representantes da Rede de Atenção à Saúde (RAS), consolidando o fortalecimento de vínculos e a integração ensino-serviço no território.
A implementação do projeto viabilizou um mutirão sem precedentes na região, mobilizando gestores, profissionais, acadêmicos e serviços de saúde em prol do acesso a cirurgias eletivas. A logística foi estruturada por tipos de procedimentos, dias e horários, otimizando o fluxo de insumos e o transporte de usuários pelos municípios. A execução contou com a força de trabalho de 90 profissionais locais e 88 integrantes da Expedição Cirúrgica. No total, foram realizados 1.287 procedimentos. Destes, 847 foram ultrassonografias (mamárias, abdominais, pélvicas, endovaginais, de pescoço, articulares e de varizes), distribuídas em quatro salas na Policlínica Regional. Ainda na Policlínica, realizaram-se 200 pequenas cirurgias em duas salas, com foco em condutas terapêuticas para carcinomas (basocelulares e espinocelulares), cistos epidérmicos, lipomas e dermatofibromas, assegurando-se a garantia de biópsia para todas as peças retiradas. Adicionalmente, ocorreram 44 inserções de Dispositivos Intrauterinos (DIU), ampliando o acesso a métodos contraceptivos e promovendo a capacitação de estudantes na técnica. No Hospital São Lucas, realizaram-se 196 cirurgias ginecológicas e do aparelho digestivo. Destacou-se o tratamento cirúrgico da endometriose — procedimento inédito no hospital local — e cirurgias com uso de torre de vídeo, empregando técnicas minimamente invasivas que proporcionam recuperação mais célere aos pacientes. Segundo a direção da Expedição Cirúrgica da USP, a edição de Crateús consolidou-se como a maior em volume de atendimentos já registrada na história do projeto. O impacto observado superou a meta assistencial, evidenciando melhoria direta no acesso e na resolutividade da rede regional, além de promover um legado de integração e troca de saberes entre as equipes.
A experiência da Expedição Cirúrgica em Crateús reafirma a eficácia de parcerias institucionais e estratégias descentralizadas para garantir a equidade no acesso aos serviços do SUS, beneficiando populações em áreas remotas. A iniciativa representou um avanço histórico para a saúde regional, ampliando a oferta de exames e procedimentos cirúrgicos eletivos, o que resultou na redução expressiva da demanda reprimida no município e na Região de Saúde. O projeto consolidou a integração ensino-serviço-comunidade, promovendo uma assistência humanizada e segura. Para além dos números grandiosos, o maior impacto reside na diminuição das filas e no alívio do sofrimento de usuários que aguardavam por tratamento especializado. O legado da expedição inclui a qualificação das práticas assistenciais e a rica troca de experiências entre profissionais e estudantes, fortalecendo o processo formativo dentro do SUS e a rede regional de atenção. A experiência demonstra alto potencial de replicabilidade em outros cenários nacionais, desde que haja forte engajamento da gestão local e articulação em rede. Conclui-se que o modelo é sustentável e essencial para o fortalecimento do sistema público, provando que a união entre academia e serviço é capaz de transformar a realidade da assistência à saúde no interior do Brasil.