Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
VANDERLEA CASTRO ARAUJO
Coautor(es)
ROBERTA DE SOUSA ABREU
RAIMUNDO NONATO DE ALCANTARA SILVA
LIDIANE FERREIRA JORGE
ELZA ELZA RODRIGUES DE SALES
MANOEL NATAL DO NASCIMENTO JUNIOR
MARIA JANIELLY DAVI DE MORAES
O Acidente Vascular Encefálico (AVE) é uma das patologias de maior impacto na saúde pública brasileira, sendo responsável por elevados índices de incapacidade funcional (Melo et al. 2023). A Atenção Primária à Saúde (APS) oferece assistência longitudinal, integral e preventiva à comunidade (Brasil, 2017). Segundo Bispo Júnior (2022), a atuação domiciliar permite que o fisioterapeuta prescreva intervenções baseadas na realidade do paciente, utilizando recursos de baixo custo e alta eficácia para prevenir complicações secundárias, como contraturas e escaras. O cenário deste relato é o município de Graça, localizado no Noroeste Cearense, a 274 km de Fortaleza. Com uma população de 13.801 habitantes (IBGE, 2022) e um território de 258,9 km² majoritariamente rural, a cidade apresenta desafios logísticos para o acesso à saúde. Dado as dificuldades de locomoção inerentes ao perfil socioeconômico da região, o serviço de fisioterapia domiciliar torna-se o principal elo de cuidado para idosos acamados. Esta experiência descreve os atendimentos fisioterapêuticos a domicilio voltados a idosos Pós-AVE com restrições de mobilidade no município de Graça, Ceará. O público-alvo foi composto por 7 idosos (5 mulheres e 2 homens), diagnosticados com AVC isquêmico, impossibilitados de se locomoverem incluídos no sistema no ano de 2025 e que tivessem tido melhora significativa que os permitissem continuar o tratamento até clínica de reabilitação da mesma cidade. A justificativa para a ação reside na necessidade de garantir o acesso à reabilitação para uma parcela da população frequentemente invisibilizada por suas limitações físicas e geográficas, visando mitigar os impactos do imobilismo e promover a funcionalidade no ambiente domiciliar.
3.1 Objetivo Geral Relatar a experiência da assistência fisioterapêutica domiciliar voltada à reabilitação funcional de idosos com sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico e restrição de mobilidade, no âmbito da Atenção Primária à Saúde do município de Graça, Ceará. 3.2 Objetivos Específicos Descrever as condutas cinesioterapêuticas e os recursos utilizados para a recuperação motora Analisar a importância da educação em saúde no engajamento de cuidadores e na continuidade do tratamento Ressaltar o papel do fisioterapeuta na melhoria da qualidade de vida e na prevenção de deformidades em pacientes restritos ao leito.
Trata-se de um relato de experiência profissional, de caráter descritivo e qualitativo, realizado no município de Graça. Segundo Figueiredo (2016) o relato de experiência profissional constitui uma modalidade de produção de conhecimento que valoriza o saber advindo da prática cotidiana em saúde. Para Gil (2019) as pesquisas descritivas expõem as características de determinada população ou experiência. Já Minayo (2016), explica que a abordagem qualitativa trabalha com o universo dos significados e das relações humanas. O cenário de prática é a Atenção Primária à Saúde, em um território com população de 13.801 habitantes (IBGE, 2022). O percurso metodológico compreendeu a assistência domiciliar a 7 idosos (5 mulheres e 2 homens) com sequelas de AVC isquêmico. A experiencia consistiu em visitas domiciliares programadas com frequência de três sessões semanais e duração média de 45 minutos por atendimento. A assistência foi estruturada em três etapas sistemáticas: 1. Avaliação Cinético-Funcional e Ambiental 2. Intervenção Neurofuncional e, 3. Educação em Saúde e Capacitação da Rede de Apoio: A Avaliação Cinético-Funcional e Ambiental: Realizou-se o diagnóstico fisioterapêutico por meio da graduação de força muscular, amplitude de movimento e análise de riscos ergonômicos no domicílio. Esta etapa foi crucial para determinar a viabilidade e segurança das transferências posturais assistidas pelo cuidador A Intervenção Neurofuncional: As condutas basearam-se na cinesioterapia motora, englobando alongamentos musculares globais, mobilizações articulares e manobras de mudança de decúbito. O foco clínico concentrou-se no fortalecimento do controle de tronco e dos segmentos afetados pela hemiparesia. A Educação em Saúde e Capacitação da Rede de Apoio: A participação de filhos e netos foi o elemento central da metodologia. As estratégias incluíram o treinamento em mecânica corporal e ergonomia, capacitando os cuidadores para realizar transferências (do decúbito dorsal para a sedestação) de forma segura. Os instrumentos e insumos utilizados compreenderam Equipamentos de Proteção Individual (máscaras, luvas e álcool em gel) e recursos portáteis de reabilitação, como faixas elásticas de resistências variadas, caneleiras de 1kg e 2kg, e halteres de 0,5kg e 1kg. A metodologia fundamentou-se nas diretrizes de reabilitação baseada na comunidade, utilizando a tecnologia assistiva de baixo custo para garantir a continuidade do cuidado no território de Graça-CE.
Os resultados evidenciam uma evolução clínica e funcional significativa, mensurada por indicadores como a força muscular (Escala de Oxford), o controle de tronco e a independência nas Atividades de Vida Diária (AVDs). Inicialmente, os sete idosos apresentavam hemiparesia severa, com incapacidade de bipedestação e deambulação, sendo que apenas 28,5% mantinham o equilíbrio sentado. O foco inicial na estabilização central, por meio de exercícios de ponte (elevação pélvica) para fortalecimento de complexo lombo-pélvico-abdominal, foi o marco para a progressão funcional. Quanto aos impactos assistenciais e sociais, observou-se que a estratégia de educação em saúde foi potencializada pelo uso da tecnologia. Os cuidadores utilizaram dispositivos móveis para registrar as manobras de transferência e os protocolos de exercícios, o que garantiu a segurança na execução e a continuidade do cuidado. Após sete meses de intervenção, 100% da amostra atingiu a capacidade de sedestação e ortostatismo assistido. Com a introdução de carga progressiva (caneleiras de 1kg e 2kg) e halteres, iniciou-se o treino de marcha e agachamentos funcionais. Ao final de dez meses, o impacto na resolutividade foi total: todos os idosos recuperaram a capacidade de deambulação, sendo 42,8% com auxílio de dispositivos de marcha (muletas) e 57,2% de forma independente. Esse ganho de autonomia permitiu a transição do cuidado do domicílio para a clínica de fisioterapia municipal, evidenciando uma melhoria no fluxo assistencial da rede. A experiência confirma que a fisioterapia na APS atua como facilitadora da reabilitação baseada na comunidade, eliminando barreiras de acesso e promovendo a reintegração social do idoso pós-AVE por meio de recursos de baixo custo e alta eficácia metodológica.
A síntese dos resultados obtidos demonstra que a assistência fisioterapêutica domiciliar foi determinante para a recuperação funcional dos idosos em Graça-CE. O alcance do objetivo geral foi plenamente atingido, uma vez que a experiência relatada comprovou a viabilidade da reabilitação funcional pós-AVC no âmbito da APS, transformando o domicílio em um cenário de cuidado efetivo. Em resposta aos objetivos específicos, a descrição das condutas cinesioterapêuticas e o uso de recursos de baixo custo evidenciaram que a recuperação motora é possível fora do ambiente ambulatorial. A análise do engajamento familiar revelou que a educação em saúde, potencializada por recursos tecnológicos, foi o pilar para a continuidade do tratamento. Como recomendações e aprendizados, destaca-se que a parceria entre o fisioterapeuta e o cuidador familiar é a estratégia mais potente para a sustentabilidade da assistência em territórios rurais. A experiência possui alto potencial de replicabilidade em outros municípios de pequeno porte, servindo como modelo de gestão do cuidado para pacientes acamados. Conclui-se que o fortalecimento da fisioterapia na Atenção Primária é indispensável para garantir a equidade do SUS, permitindo que a restrição de mobilidade não seja um impedimento para o exercício do direito à saúde e à autonomia.