Tema: GESTÃO E PLANEJAMENTO DO SUS
Autor(a)
JANAINA MATEUS TEIXEIRA
Coautor(es)
ALINE MARIA FURTADO DE CARVALHO
PEDRO HUMBERTO COELHO MARQUES
O processo de gestão no âmbito da atenção psicossocial, amparado nos preceitos da Reforma Psiquiátrica Brasileira, das diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e do Sistema Único de Saúde (SUS) constitui um exercício desafiador e complexo, sobretudo ao considerar os aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos do Brasil. Logo, vale indagar, quais dificuldades atravessam a gestão de dados em saúde mental? O cuidado centrado no controle de sintomas com abordagem de caráter curativa ainda permeia a produção do significado das pessoas ao longo do desenvolvimento das políticas de saúde. Tal fenômeno, foi observado por longos anos nos territórios municipais, como em Reriutaba-Ceará, onde a corresponsabilização pelo cuidado só acontece mediante a parceria coletiva entre usuários, gestores e profissionais da saúde e de outros setores. Reriutaba, município de pequeno porte, com população estimada de 19.051 habitantes (IBGE, 2025), conta com 9 Unidades Básicas de Saúde e 2 equipes eMulti. O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) enquanto ordenador da RAPS e marco do processo de desinstitucionalização no Brasil só foi incorporado em Reriutaba em 2021. A estruturação recente desse equipamento bem como de outros processos ao longo dos anos mobilizou esforços assistenciais e de gestão que se desdobram até os dias atuais. Nessa direção, o gerenciamento estratégico das ações e serviços na atenção psicossocial em Reriutaba através da construção de um banco de dados se fez imprescindível para construção de Projeto Terapêutico Singular (PTS) àqueles casos de maior risco clínico e social, facilitando ainda a organização dos recursos materiais e humanos além de direcionar a realização de educação permanente a partir das fragilidades vivenciadas nos processos de trabalho.
Objetivo geral Compartilhar o processo de gestão de dados do CAPS do município de Reriutaba, como ferramenta para integralidade do cuidado psicossocial, construído à luz dos preceitos da desinstitucionalização, equidade e respeito a diversidade. Objetivos específicos - Descrever o perfil de pacientes atendidos no CAPS de Reriutaba a partir de informações contidas no banco de dados atualizado periodicamente - Apresentar as informações sistematizadas em banco de dados que subsidiam o planejamento da equipe multidisciplinar, facilitando uma atuação interdisciplinar - Relatar as ações de educação permanente desenvolvidas no âmbito da RAPS de Reriutaba, a partir das fragilidades identificadas nos processos de trabalho - Descrever os principais desafios na implantação e efetividade das ações e cuidados na saúde mental de Reriutaba.
A presente produção trata-se de um relato de experiência do processo de gestão estratégica do Centro de Atenção Psicossocial –CAPS I de Reriutaba, desde sua implantação em 25 de fevereiro de 2021 até fevereiro de 2026 desenvolvida à luz dos princípios da Reforma Psiquiátrica e do Sistema Único de Saúde. Para sistematização da descrição do processo de gestão estratégica objeto dessa produção, foram estabelecidas as seguintes etapas interdependentes: 1ª ETAPA: Levantamento das informações, a fim de caracterizar o perfil dos usuários atendidos do CAPS, a partir do acesso ao banco de dados disposto em planilhas no software Microsoft Excel, alimentadas periodicamente 2ª ETAPA: Descrição das estratégias terapêuticas executadas no CAPS, destacando os recursos de abordagem individual e coletiva como tecnologias leves e leve-duras utilizadas (instrumentais criados pela gestão e demais profissionais do CAPS) 3ª ETAPA: Apresentação dos processos de Educação permanente já desenvolvidos no equipamento e em parceria com outros serviços que compõem a RAPS de Reriutaba (eMulti, Atenção Primária à Saúde), voltado para profissionais de nível superior das equipes multidisciplinares e de nível médio como recepcionistas e motoristas, de todas as unidades de saúde, Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes Comunitários de Endemias (ACE). 4ª ETAPA: Construção do Projeto Terapêutico Institucional do CAPS (PTI), elaborado coletivamente na perspectiva da cogestão, vislumbrando desafios e potencialidades vivenciados. Destacando a indissociabilidade entre atenção e gestão, a fim de democratizar as relações de trabalho e valorizar o trabalho em equipe.
Entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2026, o banco de dados do CAPS de Reriutaba permitiu identificar 1576 usuários, sendo 859 mulheres e 717 homens, com maior prevalência entre 19 e 59 anos (896 usuários). Identificamos 122 usuários com transtornos esquizofrênicos, esquizotípicos e delirantes entre os transtornos mentais severos e 163 com Transtorno Afetivo Bipolar. Nas estratégias de cuidado grupal entre 2022 e 2025 foram atendidos 2.748 usuários e realizados 65 matriciamentos entre atendimentos conjuntos e compartilhamento de casos. No campo da educação permanente, foram capacitados 46 ACS’s em 2021 e 39 em 2022 para prevenção ao suicídio, além de 14 ACE’s sobre cuidados de posvenção. Nesse mesmo ano (2022), foram realizadas: ações sobre Saúde Mental na infância para enfermeiros da APS e um encontro sobre gerenciamento de risco em visitas domiciliares voltado para 32 motoristas que atuam na saúde. Em 2023, foi desenvolvido uma oficina abordando atendimento humanizado e gerenciamento de crise com 09 profissionais da equipe do CAPS. Em 2024, 12 profissionais da APS participaram de um momento de cuidado intitulado Cuidando do Cuidador e foi criado o Grupo de Estudos em Psicologia (GEPSI) voltado para os 07 profissionais de psicologia que atuam na RAPS de Reriutaba. Em 2025 houve dois momentos sobre identificação e manejo de casos de ideação suicida com a participação de 23 enfermeiros e 7 gerentes da APS. Além de oficinas sobre atendimento ao público, acolhimento e fluxo de saúde mental no município, onde participaram 20 recepcionistas dos equipamentos de saúde. Vale ressaltar que o PTI do CAPS de Reriutaba, apresenta de forma mais detalhada os resultados acima mencionados, sendo fruto da cogestão e construção coletiva, levando em conta as informações obtidas da base de dados do CAPS.
A experiência do CAPS de Reriutaba evidencia que a gestão estratégica de dados é capaz de qualificar significativamente o cuidado em saúde mental em municípios de pequeno porte. Respondendo à pergunta inicial, entre os desafios que permeiam a gestão de dados de saúde mental podemos citar a subjetividade inerente as informações, desafios éticos, a fragilidade na capacitação dos profissionais e a tendência a subnotificação. A implantação de um CAPS que tem ciência desses entraves e estabelece como meta a criação de estratégias que minimizassem esses bloqueios desde o início das suas atividades, foi um facilitador para nossa prática. Em síntese, contamos com a melhoria nos índices de matriciamento nas discussões de dados em propostas de educação permanente das equipes promovendo a articulação ensino-serviço baseada no tangível na recepção de novos profissionais minimamente supervisionados no estabelecimento de espaços de protagonismo familiar de usuários e no repasse para a população em reuniões de prestações de contas no município. Prospectando ainda a criação de novos protocolos clínicos. Contudo, acredita-se que a reprodução desse modo de fazer gestão possa ser replicado em outras realidades, tendo em vistas as infinitas possibilidades vocacionais dos territórios e potenciais das equipes, além do baixo custo de ferramenta tecnológica como software Microsoft Excel utilizadas pelo CAPS de Reriutaba.