Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
YHONARA GRAZIELY DA SILVA ALVES MARTINS
Coautor(es)
Alisson Falcão de Carvalho
ANTONIO WANDERSON MARTINS DO NASCIMENTO
O envelhecimento populacional associado às condições de vulnerabilidade social presentes em territórios rurais impõe desafios relevantes à Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no que se refere à organização da demanda e à oferta de cuidado integral à pessoa idosa. Nesse contexto, observa-se que parte significativa das buscas recorrentes por atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) não está necessariamente relacionada a demandas clínicas agudas, mas a necessidades de acolhimento, escuta qualificada e interação social. A experiência foi desenvolvida na zona rural do distrito de Santo Antônio dos Azevedos, no município de Crateús-CE, território inserido no semiárido nordestino, com características de dispersão populacional, forte vínculo comunitário e limitações de acesso a serviços especializados. A localidade conta com estrutura básica de saúde e equipamentos sociais, sendo a APS o principal ponto de cuidado. A partir da observação do aumento da demanda espontânea de idosos na unidade, sem queixas clínicas definidas, emergiu a necessidade de reorganizar o cuidado, incorporando estratégias de promoção da saúde e fortalecimento do vínculo. Nesse sentido, foi criado o grupo “Bem-Estar”, como dispositivo de cuidado coletivo voltado à valorização da convivência, autonomia e qualidade de vida da pessoa idosa no território.
Reorganizar a demanda espontânea de idosos na Unidade Básica de Saúde por meio de estratégias coletivas de promoção da saúde. Promover o bem-estar, a socialização e o fortalecimento do vínculo entre idosos e equipe de saúde. Estimular o autocuidado e a autonomia da pessoa idosa no território. Reduzir a busca recorrente por atendimentos e uso de medicações sem indicação clínica. Fortalecer a APS como coordenadora do cuidado por meio de ações intersetoriais e centradas no usuário.
Trata-se de um relato de experiência, de natureza descritiva, com abordagem qualitativa, desenvolvido na Unidade Básica de Saúde da zona rural do distrito de Santo Antônio dos Azevedos, em Crateús-CE, ao longo de seis meses. A intervenção consistiu na criação do grupo “Bem-Estar”, coordenado pela enfermeira da unidade, com participação de idosos acompanhados pela equipe de saúde, identificados a partir da frequência recorrente de busca por atendimento. Os encontros foram realizados semanalmente, em espaço comunitário, com duração média de 1 a 2 horas, totalizando aproximadamente 24 encontros. A condução das atividades baseou-se nos princípios da educação popular em saúde, com utilização de metodologias ativas, valorizando o saber dos participantes e promovendo o protagonismo dos idosos. Foram desenvolvidas atividades como rodas de conversa com temáticas relacionadas à saúde e qualidade de vida, educação em saúde, dinâmicas de grupo, atividades lúdicas (pintura), práticas corporais leves (dança e alongamento) e momentos de compartilhamento de experiências. A estratégia priorizou o acolhimento, a escuta qualificada e a construção de vínculos, reconhecendo as necessidades subjetivas dos usuários como parte do cuidado em saúde. A avaliação ocorreu de forma contínua, por meio da observação da participação, interação social, mudanças comportamentais e impacto na demanda da unidade.
A implementação do grupo “Bem-Estar” resultou em mudanças expressivas no perfil de utilização dos serviços de saúde pelos idosos participantes. Observou-se redução significativa na demanda espontânea por atendimentos sem indicação clínica, bem como diminuição na procura por medicação, evidenciando maior resolutividade das ações no âmbito da APS. Os participantes apresentaram melhora no autocuidado, maior adesão a práticas saudáveis e fortalecimento dos vínculos sociais, reduzindo o isolamento e promovendo maior sensação de pertencimento à comunidade. Destaca-se o protagonismo dos idosos, que passaram a atuar como multiplicadores de conhecimento, compartilhando informações e incentivando outros membros da comunidade a adotarem hábitos mais saudáveis. A experiência também contribuiu para a reorganização do processo de trabalho da equipe, permitindo maior foco nas demandas clínicas prioritárias e qualificando o cuidado ofertado. Além disso, fortaleceu o vínculo entre equipe e usuários, ampliando a confiança e a efetividade das ações de saúde no território.
A experiência demonstrou que a implementação de estratégias coletivas voltadas à promoção da saúde da pessoa idosa constitui importante ferramenta para a reorganização da demanda na Atenção Primária à Saúde, especialmente em contextos rurais. O grupo “Bem-Estar” evidenciou que o cuidado em saúde ultrapassa a dimensão clínica, sendo fundamental incorporar práticas que valorizem o acolhimento, a escuta e o convívio social como elementos estruturantes do cuidado integral. Destaca-se o papel da enfermagem na condução de práticas inovadoras no território, bem como a importância da APS como coordenadora do cuidado e ordenadora das redes de atenção. A iniciativa apresenta baixo custo, alta resolutividade e elevado potencial de replicabilidade, configurando-se como uma prática exitosa no fortalecimento da promoção da saúde, autonomia dos usuários e sustentabilidade dos serviços de saúde.