Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Antônia Neuma de Souza
Coautor(es)
Janaina Cavalcante Gonçalves
Cícera Munda Rodrigues
Cleidiane Rodrigues da Silva
No contexto da Atenção Primária à Saúde, as mulheres trabalhadoras do campo frequentemente vivenciam múltiplas vulnerabilidades relacionadas às condições de trabalho, à sobrecarga doméstica, ao isolamento social e ao acesso limitado a espaços de cuidado e escuta. Essas condições podem favorecer o sofrimento psíquico, a baixa autoestima e o enfraquecimento dos vínculos comunitários, impactando negativamente sua saúde e qualidade de vida. Diante dessa realidade, foi desenvolvido, no âmbito do Projeto Cuidar e Ser Cuidado – Cuidando da Saúde do Trabalhador, pela Secretaria Municipal de Saúde de Tauá, o Grupo do Retalho – Mulheres que acolhem, mãos que aquecem, no território da comunidade Olho D’Águinha, localizada na Serra de São Domingos. A iniciativa surgiu a partir da observação cotidiana e da escuta territorial realizada por uma Agente Comunitária de Saúde durante as visitas domiciliares, evidenciando a necessidade de estratégias coletivas de cuidado voltadas às mulheres trabalhadoras do campo. O grupo constitui-se como uma prática territorial de promoção da saúde e fortalecimento do bem-estar emocional, estruturada a partir da criação de um espaço coletivo de convivência, escuta qualificada e apoio mútuo. A proposta integra cuidado em saúde, inclusão social e valorização do trabalho manual por meio da confecção colaborativa de cobertas produzidas a partir de retalhos de tecido doados pela comunidade. Ao articular promoção da saúde, solidariedade comunitária e participação social, a iniciativa contribui para o fortalecimento dos vínculos sociais, a ampliação do suporte comunitário e a valorização do protagonismo feminino no território, reforçando o papel da Atenção Primária à Saúde como espaço estratégico de cuidado integral no âmbito do Sistema Único de Saúde.
Objetivo geral Promover a saúde e o bem-estar das mulheres trabalhadoras do campo por meio de uma estratégia coletiva de cuidado no território, fortalecendo vínculos sociais, autoestima, apoio mútuo, inclusão social e a aproximação com a equipe da Atenção Primária à Saúde. Objetivos específicos • Identificar, por meio da busca ativa realizada pela Agente Comunitária de Saúde, mulheres em situação de vulnerabilidade social ou sofrimento psíquico no território. • Criar um espaço coletivo de convivência que favoreça a escuta qualificada, o acolhimento e o apoio mútuo entre as participantes. • Fortalecer a autoestima, o sentimento de pertencimento e os vínculos sociais entre as mulheres trabalhadoras do campo. • Estimular práticas de cuidado coletivo articuladas à realidade sociocultural e às condições de vida das mulheres do território. • Ampliar ações de solidariedade comunitária por meio da produção e doação de cobertas destinadas a famílias em situação de vulnerabilidade social. • Fortalecer o vínculo das mulheres participantes com a Agente Comunitária de Saúde e com a equipe da Atenção Primária à Saúde, ampliando o acesso às ações de cuidado e promoção da saúde no território.
O grupo desenvolve suas atividades na comunidade Olho D’Águinha, localizada na Serra de São Domingos, sendo coordenado por uma Agente Comunitária de Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde, por meio da Atenção Primária à Saúde. A iniciativa surgiu a partir das estratégias e estímulos do Projeto Cuidar e Ser Cuidado – Cuidando da Saúde do Trabalhador, que incentivou as Agentes Comunitárias de Saúde a identificar necessidades locais e promover ações comunitárias de saúde. A seleção das participantes ocorre por meio de busca ativa realizada durante visitas domiciliares, método central no trabalho territorial das equipes de saúde. Essa abordagem permite identificar precocemente mulheres trabalhadoras do campo em situação de vulnerabilidade social, isolamento ou sofrimento emocional, incluindo aquelas com histórico de depressão, experiências traumáticas ou sobrecarga derivada das responsabilidades familiares e das condições de trabalho. Os encontros são realizados quinzenalmente na sede da Associação Comunitária, espaço reconhecido como referência de convivência social na comunidade. As atividades incluem rodas de conversa e momentos de produção coletiva, promovendo escuta qualificada, compartilhamento de experiências e fortalecimento de vínculos entre as participantes. Durante as sessões, as mulheres confeccionam cobertas a partir de retalhos de tecido doados pela comunidade, utilizando materiais simples e de baixo custo, como linhas, agulhas, tesouras e máquinas de costura, garantindo a participação ativa de todas. Para valorizar o trabalho realizado e fortalecer a autoestima, são promovidos momentos de socialização dos produtos confeccionados, incluindo pequenos desfiles comunitários que evidenciam o esforço coletivo e promovem reconhecimento social. As cobertas produzidas são destinadas à doação para famílias em situação de vulnerabilidade na própria comunidade, reforçando práticas de solidariedade e cuidado coletivo. Essa dinâmica colaborativa estimula apoio mútuo, fortalece o sentimento de pertencimento e consolida o grupo como espaço de acolhimento, troca de saberes e construção coletiva de estratégias de enfrentamento.
O grupo é formado por 14 mulheres trabalhadoras do campo, cujo trabalho coletivo já beneficiou mais de 32 famílias em situação de vulnerabilidade social. A participação das integrantes atingiu 100% nos encontros, evidenciando a relevância e aceitação da iniciativa no território. As atividades fortaleceram vínculos sociais, ampliaram o diálogo, promoveram apoio mútuo e compartilhamento de experiências, contribuindo para a autoestima, a redução do isolamento social e o protagonismo feminino. O grupo também funciona como espaço de acolhimento, expressão de sentimentos e construção de estratégias de enfrentamento das dificuldades relacionadas às condições de vida e trabalho. O envolvimento da comunidade se refletiu na doação de retalhos de tecido e materiais para confecção das cobertas, que são posteriormente destinadas a famílias em situação de vulnerabilidade, consolidando práticas de solidariedade e cuidado coletivo. Desfiles comunitários valorizam o trabalho manual das mulheres, promovendo reconhecimento social e integração local. A atuação do grupo fortaleceu a relação com a equipe de saúde, especialmente com as Agentes Comunitárias de Saúde, ampliando o vínculo das participantes com a Atenção Primária à Saúde e contribuindo para a consolidação da rede de cuidado territorial e das ações de promoção da saúde da trabalhadora do campo.
O Grupo do Retalho – Mulheres que acolhem, mãos que aquecem configura-se como uma experiência exitosa no campo da promoção da saúde e da saúde da trabalhadora do campo, evidenciando o potencial das práticas comunitárias desenvolvidas no âmbito do Sistema Único de Saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde. A iniciativa demonstra que estratégias simples, de baixo custo e baseadas na participação social podem gerar impactos significativos no bem-estar emocional, na inclusão social e no fortalecimento dos vínculos comunitários, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das mulheres trabalhadoras do campo. Destaca-se o papel estratégico da Agente Comunitária de Saúde na identificação das necessidades do território, na mobilização comunitária e na implementação de práticas inovadoras de cuidado, fortalecendo o vínculo entre população e serviços de saúde e ampliando o alcance das ações de promoção da saúde. A experiência evidencia ainda o potencial das ações territoriais na construção de redes solidárias de cuidado, articulando saúde, participação comunitária e apoio social. Por sua simplicidade metodológica, baixo custo e forte mobilização social, apresenta elevado potencial de replicabilidade em outros territórios, especialmente em comunidades rurais, contribuindo para o fortalecimento das práticas de cuidado coletivo e das políticas de promoção da saúde no SUS.