Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
NELSON MATTESON FERREIRA DE ALMEIDA
Coautor(es)
ERBENIA MARIA MONTEIRO DE OLIVEIRA
VANESSA RICARDO DA SILVA
CARMENCIRA DA COSTA DIAS
NORMA PAULINO DA SILVA
ANA AMÉLIA CAVALCANTE MOREIRA
KELCIA CILENE RAMOS LEÃO
MARIA ZENEIDA RAMOS RODRIGUES LIMA
MARIA AURIACELE NOBRE
As condições crônicas, como hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes mellitus (DM), representam importante desafio para a Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no que se refere à adesão ao tratamento e ao autocuidado. No cenário atual, diretrizes internacionais e organismos como a Organização Mundial da Saúde reforçam a importância e relevância do cuidado centrado na pessoa, da educação em saúde e do autocuidado apoiado como componentes estruturantes do manejo dessas condições. No diabetes, recomendações da American Diabetes Association destacam a educação para o autogerenciamento como essencial para a melhoria de desfechos clínicos e comportamentais. De forma complementar, iniciativas como o HEARTS nas Américas e evidências de revisões sistemáticas sustentam o papel de intervenções educativas e coletivas na melhoria da adesão e no controle de fatores de risco cardiovascular. Adicionalmente, evidências de síntese demonstram que intervenções educativas em grupo estão associadas à redução de hemoglobina glicada no diabetes e à diminuição dos níveis pressóricos na hipertensão, além de melhora da autoeficácia e da adesão ao tratamento, reforçando a relevância dessas estratégias na APS. Nesse contexto, estratégias grupais emergem como tecnologias leves capazes de promover vínculo, engajamento e transformação do cuidado na APS. O Grupo FelizIdade foi desenvolvido como resposta a essas necessidades no território, buscando ampliar o acesso, qualificar o cuidado e promover autonomia dos usuários.
Objetivo geral: Descrever a experiência do Grupo FelizIdade como estratégia de promoção do autocuidado apoiado e melhoria da adesão ao cuidado em pacientes idosos e portadores de hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus na Atenção Primária à Saúde. Objetivos específicos: Analisar o impacto do grupo na adesão ao tratamento medicamentoso e não medicamentoso. Avaliar a influência das ações educativas na compreensão das condições crônicas e na incorporação de práticas de autocuidado. Evidenciar o fortalecimento do vínculo entre usuários e equipe de saúde. Descrever a contribuição do grupo na redução de faltas às consultas e no aumento da procura espontânea pelos serviços. Verificar a repercussão da intervenção nos desfechos clínicos, incluindo controle pressórico e glicêmico. Destacar o papel da equipe multiprofissional e dos agentes comunitários de saúde na mobilização e manutenção da adesão. Demonstrar o potencial de replicabilidade da estratégia no âmbito da Atenção Primária à Saúde.
Trata-se de um relato de experiência acerca de projeto voltado para educação em saúde, por meio de grupo educativo, desenvolvido em uma Unidade de Atenção Primária à Saúde do Município de Maracanaú-CE, a saber, a USF Senador Fernandes Távora, localizada no bairro Industrial, a qual atende uma população de cerca de 1930 pessoas com diagnóstico de HAS e/ou DM (população total do território da USF: aproximadamente 8.000 habitantes). O grupo foi iniciado em 2024, com foco na promoção do autocuidado apoiado em pessoas idosas e pacientes com hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus. A participação no grupo é aberta a usuários adscritos ao território, sendo priorizados indivíduos com diagnóstico de HAS e/ou DM, com necessidade de fortalecimento da adesão ao tratamento e ao acompanhamento longitudinal. O grupo iniciou com 12 participantes e, ao longo de sua implementação, alcançou média de 43 participantes por encontro. O número de usuários impactados torna-se maior, considerando que os participantes são multiplicadores de conhecimento e das medidas de autocuidado. Os encontros são realizados mensalmente, com proposta de ampliação para periodicidade quinzenal, com duração média de 60 a 90 minutos. As atividades são conduzidas por equipe multiprofissional composta por médico, enfermagem, agentes comunitários de saúde (ACS) e equipe eMulti, com participação de outros profissionais conforme a temática abordada. Destaca-se o papel estratégico dos ACS na mobilização da comunidade, no acompanhamento dos usuários e na manutenção da adesão ao grupo. A metodologia adotada baseia-se em tecnologias leves, com utilização de linguagem acessível e metodologias ativas, incluindo rodas de conversa, educação em saúde, práticas corporais, atividades lúdicas e ações de promoção da saúde intra e extramuros, priorizando a participação ativa dos usuários, a troca de experiências e o fortalecimento do vínculo com a equipe. A avaliação dos resultados ocorre de forma contínua, por meio da observação da adesão ao grupo, da participação dos usuários, da evolução clínica relatada e do acompanhamento assistencial, incluindo frequência às consultas, controle de parâmetros clínicos e redução de intercorrências relacionadas às condições crônicas.
Observou-se crescimento progressivo e sustentado da adesão ao grupo ao longo do tempo, com aumento do número de participantes de 12 no início das atividades, em 2024, para a média atual de 43 participantes por encontro e aproximadamente 200 usuários alcançados no total ao longo da implementação. Esse aumento reflete a consolidação do grupo no território e maior engajamento da população adscrita. No eixo relacional, evidenciou-se fortalecimento do vínculo entre usuários e equipe de saúde, com participação ativa, maior interação e sensação de pertencimento ao grupo. Houve redução de faltas às consultas e aumento da procura espontânea pelos serviços, sugerindo melhora na adesão ao acompanhamento longitudinal. No eixo comportamental, os participantes demonstraram maior compreensão das condições crônicas e das medidas de prevenção, com incorporação de práticas de autocuidado no cotidiano, incluindo mudanças no estilo de vida e maior adesão ao tratamento medicamentoso e não medicamentoso. Observou-se, ainda, desconstrução de mitos relacionados ao cuidado em saúde e maior autonomia dos usuários. No eixo clínico, verificou-se melhora do controle pressórico e glicêmico entre os participantes, com pacientes mais compensados e redução de intercorrências relacionadas à HAS e DM. Houve também diminuição da demanda por atendimentos agudos associados às condições crônicas na unidade. No eixo organizacional, o grupo contribuiu para a integração multiprofissional, fortalecimento das estratégias de cuidado e ampliação das ações de promoção da saúde no território.
O Grupo FelizIdade demonstrou ser uma estratégia eficaz, de baixo custo e alta aplicabilidade na Atenção Primária à Saúde, promovendo adesão, vínculo e melhoria de desfechos clínicos em pacientes com condições crônicas. A experiência evidencia o potencial das tecnologias leves e do trabalho multiprofissional na promoção do autocuidado apoiado, traduzindo recomendações teóricas e diretrizes internacionais para a prática no território. Apresenta elevada capacidade de replicação em diferentes contextos, contribuindo para o fortalecimento da APS como coordenadora do cuidado. Adicionalmente, a experiência reafirma o papel central da Atenção Primária na reorganização do cuidado às condições crônicas, ao deslocar o foco do modelo exclusivamente biomédico para uma abordagem centrada na pessoa, no território e na corresponsabilização pelo cuidado. O grupo consolidou-se como espaço de produção de saúde, promovendo não apenas controle clínico, mas também autonomia, engajamento e transformação do comportamento dos usuários. Nesse sentido, demonstra que intervenções coletivas estruturadas, baseadas em vínculo, educação em saúde e continuidade do cuidado, são capazes de gerar impacto clínico, comportamental e organizacional, configurando-se como estratégia potente para qualificação do cuidado e sustentabilidade do sistema de saúde.