Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Marta Emília de Oliveira Nobre
Coautor(es)
Gysselle Franco Freitas
Francisca Quélia de Oliveira
O atual modelo de atenção à saúde mental, norteado pelos princípios da reforma psiquiátrica brasileira, tem como principal diretriz a ampliação e qualificação do cuidado às pessoas com transtornos mentais nos serviços comunitários. A Organização Mundial de Saúde (OMS) enfatiza que a Saúde Mental na APS torna o atendimento mais efetivo. Além de mobilizar a comunidade e menor gasto, a APS busca a integralidade, atua no território e com o contexto familiar, procura a continuidade do cuidado e busca articular-se com a rede de atenção (OMS, 2001). Valendo destacar a potência de um grupo para o cuidado de mulheres de um território e os sofrimentos vividos por elas, muitas vezes causados pela condição feminina de subjugação ao machismo, suas condições de vida e discriminações por sua raça/etnia, ou seja, experiências de sofrimento vivenciadas coletivamente e que podem ser cuidadas a partir de uma mesma perspectiva e ferramenta. A ideia surgiu por três profissionais (terapeuta ocupacional, profissional de educação física e uma agente comunitária de saúde). Oriundos dos atendimentos individuais para cuidar de mulheres e as manifestações de suas diversas situações de sofrimento (adoecimentos) com conexões de suas histórias condições de vida, e ainda, com questões de gênero, despertando e fortalecendo os potenciais de fortalecimento das mulheres a partir do encontro entre elas, pois, é no coletivo que reside a possibilidade de transformação da sociedade e de fortalecimento individual.
Objetivo geral: Identificar em mulheres as manifestações de suas diversas situações de sofrimento (adoecimentos). Proporcionando mudança do perfil epidemiológico apresentado e das condições de vida. Objetivos específicos: Compreender os diferentes modos de viver, Instigar uma reflexão a cerca das diversas áreas da vida Aprofundar a compreensão no sentido de apreender as reais necessidades de saúde da mulher Resgatar valores pessoais e sociais ressignificar as atividades cotidianas Promover o exercício da cidadania e inclusão social Ampliar a corresponsabilização da família no tratamento Expressar sentimentos e conflitos internos Usufruir de momentos de lazer e relaxamento Desenvolver habilidades motoras, criatividade e afastar a ociosidade
Considerando a demanda de cuidar de mulheres e as manifestações de suas diversas situações de sofrimento (adoecimentos), comuns e severos, a pesquisadora, sendo terapeuta ocupacional da equipe de NASF, juntamente a profissional de educação física e uma Agente comunitária de Saúde, propuseram em outubro/2019 um “Grupo de Saúde Mental” somente para mulheres, denominado por elas como “Grupo Girassol”. Este acontece a cada quinze dias, com duração de 2 horas, na localidade da Linha da Serra no município de Guaramiranga – CE, inserido na IV ADS de Saúde. Sua população segundo estimativa do IBGE 5.073/hab. A experiência se deu em um grupo com 20 participantes, através de diversas atividades, pré-programadas, sendo essas as expressivas, corporais, de linguagem, de arte livre, possibilitando e ampliando os meios de tratamento e reabilitação das pacientes, estimulando a motricidade, o cognitivo, o afetivo, a autoestima, a interação grupal, cidadania e autonomia, proporcionando melhor qualidade de vida e utilização dos espaços coletivos dentro da sociedade, promovendo o exercício da cidadania e inclusão social. A cada encontro foram feito registros da atividade ofertada, como também a lista de presença.
Esta pesquisa identificou que os grupos de saúde mental desenvolvidos na APS se constituem em um dispositivo da reforma psiquiátrica quando promovem aos seus participantes rupturas nas suas formas de cuidado com a vida, possibilitando que se reconheçam enquanto corresponsáveis pelo seu tratamento e pelo seu modo de ser. Desta forma, o grupo Girassol, na perspectiva da atenção psicossocial, institui mudanças na relação dos usuários consigo mesmos, com o tratamento e com a lógica dos especialismos na saúde mental. No decorrer da pesquisa, percebeu-se em vários momentos o reposicionamento de usuários, que passaram a se colocar como sujeitos e agentes de sua saúde, dialogando mais com os técnicos e questionando os procedimentos. As intervenções buscaram fortalecer o modo de atenção psicossocial, apostando no resgate da singularidade de cada usuário, investindo no comprometimento com seus sintomas e tratamento e incentivando seu protagonismo. Ainda, procurou-se auxiliar na construção de outros laços sociais, para além do grupo, apostando na força do território e da cidade como alternativas para a reabilitação psicossocial. Indicando que o trabalho grupal com foco no resgate da singularidade possibilita o reposicionamento subjetivo das pessoas, as quais passam a se responsabilizar mais por seu sofrimento e a se reconhecer como agentes de mudanças.
Para que processos de trabalho no modelo psicossocial sejam efetivados é necessário que a equipe de trabalho dos serviços de saúde mental comunitários tenha como objeto de suas ações o sujeito em seus contextos de vida, sendo priorizado o cuidado em saúde de forma ampliada, objetivando autonomia, protagonismo e emancipação. Buscou-se gerar um olhar ampliado dos profissionais e o compartilhamento das responsabilidades entre especialidades. A Terapia Ocupacional, nesse sentido, se constitui como uma das estratégias de cuidado ofertada e sua ação terapêutica deve estar engajada com todas as demais intervenções. Ainda, os Núcleos Ampliado a Saúde da Família (NASF) potencializam a centralidade da atenção no território e na família, configurando um arranjo favorável para práticas humanizadas de cuidado em saúde mental. O NASF promove a criação de espaços para a produção de novos saberes e ampliação da clínica (BRASIL, 2009).