Autor(a)
Daniel Rocha Carneiro
Coautor(es)
Franciele Lopes de Aguiar
Francisco Rosemiro Guimarães Ximenes Neto
O parto é um processo fisiológico, porém todas as circunstâncias que o acompanham, são importantes e devem ser assistidas, ainda que no início não se suspeite de nenhuma intercorrência. A Hemorragia Pós-Parto (HPP) é uma das principais causas de óbito materno, ocorrendo a partir da perda sanguínea superior a 500 ml, após o parto por via vaginal, devido a atonia uterina, condição na qual o útero para de involuir e não retorna à sua conformação não gravídica sendo seu diagnóstico precoce imprescindível, para uma assistência segura e ágil, desde que a equipe possua qualificação e insumos os necessários. Para tal, no Centro de Parto Humanizado de Massapê foi implantado um kit para conter a HPP, já que o hospital é de pequeno porte e, por sua classificação não dispõe de uma grande densidade tecnológica, a exemplo dos hospitais de referência Macrorregional. Além disso, o hospital de referência para gestação de alto risco fica a 17 km e, para sua transferência, a parturiente ou puérpera tem que ser submetida ao sistema de regulação regional, que por sua vez nem sempre a vaga é liberada de forma imediata, tendo em vista a superlotação e, que somente após aceitação esta deve ser encaminhada. Quando a vaga não sai a tempo, demorando horas, a equipe toma a decisão para transferir em “vaga zero”, com intuito de se evitar o óbito. Tal fato motivou a implantação do kit, para que a puérpera tenha maior chance de reversão do quadro, sem agravamentos.
O presente estudo objetiva relatar o processo de implantação de um kit para conter hemorragia em puérperas, com o intuito de reduzir o risco de morbidade e mortalidade materna.
O presente relato de experiência, se dá a partir da observação da eminência de riscos e a situação de gravidade, com a realidade vivenciada no Centro de Parto Humanizado da Maternidade do Hospital Senador Ozires Pontes, localizado em Massapê, município da região Noroeste do estado do Ceará, com uma população estimada de 39.344 habitantes, com uma média mensal 10 partos normais, em que a equipe presta assistência ao trabalho de parto, parto e puerpério e os cuidados imediatos e mediatos ao recém-nascido. Em determinados momentos os profissionais se deparam com casos de intercorrências geradas pelo trabalho de parto, sendo necessária a adoção de medidas, que reduzissem o tempo de atuação da equipe frente a HPP, como estratégia de diminuir os danos e os riscos de mortalidade materna, durante esse tipo de intercorrência fez-se necessária a intervenção em tempo hábil e com precisão. Assim, no período de agosto a dezembro de 2022, com a participação de 40 profissionais atuantes direta ou indiretamente no Centro de Parto Humanizado, sendo estes, enfermeiros, médicos, técnicos de enfermagem, fisioterapeuta, nutricionista e assistentes sociais foi possível refletir sobre a necessidade da tomada de algumas decisões para adaptá-lo e organizá-lo a partir da qualificação da equipe, definir o tempo de atuação, identificar as necessidades de equipamentos e insumos para o momento de intercorrências no trabalho de parto.
Quando se fala de HPP é importante destacar a “hora de ouro”, pois nesses casos, a equipe necessita localizar o sangramento dentro de 60 minutos, após o seu diagnóstico, evitando o agravamento, buscando a reversão do quadro clínico, para prevenção da evolução do óbito materno. A implementação do kit para conter a HPP na sala de parto, se deu frente às necessidades do serviço, para uma atuação mais ágil e segura da equipe, garantindo os insumos necessários e de fácil acesso. Durante o processo de implantação, foi percebida a necessidade de um novo dimensionamento da equipe, para uma maior resolubilidade e efetividade da ação. A reorganização do setor passou por reunir todos insumos necessários em um só espaço, sendo criado um check list contendo a relação de insumos e medicamentos necessários além de sua dispensação em depósitos, estando sempre fechados e na sala de parto, divididos por prateleiras devidamente identificadas, em local de fácil visualização. Após alguns usos, observou-se a necessidade de aperfeiçoamento do kit, dessa forma, foram acrescentados determinados medicamentos e excluídos outros ou retirados itens em excesso. Para implantação do kit, foi realizada a qualificação da equipe e pactuada as atribuições entre os membros desta e que o kit deveria sempre permanecer lacrado, em local determinado, que após aberto, o enfermeiro do setor deveria efetuar a checagem e reposição dos itens utilizados, para quando necessário.
A implementação do kit, além de garantir uma maior qualidade no atendimento a puérpera nos casos de HPP, estabelecendo uma ação rápida e efetiva, proporcionou uma maior racionalidade de insumos. Outro resultado importante foi o ganho com profissionais direcionados para a ocorrência terem sido reduzidos, pois estes já protocolo, sempre que esta intercorrência for identificada. Vale salientar ainda, que a implantação dessa nova tecnologia em um hospital de pequeno porte, proporcionou um prática mais afetiva e humanizada, tendo em vista que a equipe consegue atuar de forma mais efetiva, trazendo maior conforto e segurança à puérpera, além de esclarecer os passos que serão seguidos. O kit de HPP trata-se de uma tecnologia de trabalho, que foi implementada com baixo custo, podendo ser replicada em outros municípios, que poderá salvar inúmeras vidas, garantindo à parturiente uma assistida com mais resolubilidade e humanização nas urgências e emergências obstétricas, diminuindo o tempo de ação da equipe, reconhecendo de imediato as suas necessidades e aplicando uma assistência segura e, com isso, reduzindo o risco e a eminência do óbito materno.