Tema: GESTÃO E PLANEJAMENTO DO SUS
Autor(a)
ANTONIO ERISBERTO ALVES
Coautor(es)
MARIA RAFAELA FERREIRA DOS SANTOS
IRACEMA GONÇALVES ARAÚJO DE OLIVEIRA
MARCIO CARVALHO FONTENELE
FRANCISCO EDVANDO DE ARAÚJO ARAGÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) exerce papel estratégico na organização do Sistema Único de Saúde (SUS), atuando como porta de entrada preferencial e coordenadora da Rede de Atenção à Saúde. Entretanto, municípios do interior do Ceará enfrentam desafios da desproporção entre demanda programada e espontânea, o que compromete a resolutividade dos serviços, a continuidade do cuidado e o planejamento das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF). A elevada procura por atendimentos imediatos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) sobrecarrega as agendas e dificulta a realização de ações programáticas essenciais, como acompanhamento de condições crônicas, pré-natal e atividades de promoção da saúde (OLIVEIRA et al., 2025 MASSUDA, 2025 SILVA et al., 2024). Em Granja-CE, com população estimada em 53.344 habitantes e rede de APS composta por 24 equipes da ESF distribuídas em território de ampla extensão geográfica e significativa dispersão populacional, identificou-se elevada pressão da demanda espontânea nas UBS. Esse cenário esteve associado a dificuldades no acesso regulado aos serviços especializados, limitações na disponibilidade de insumos e fragilidades nos processos de planejamento participativo na gestão municipal. Diante desse contexto, realizou-se, em abril de 2024, no Centro Vocacional Tecnológico (CVT), uma oficina participativa para aplicação da Matriz GUT (Gravidade, Urgência e Tendência), ferramenta de priorização utilizada no planejamento estratégico em saúde. A atividade reuniu 58 atores sociais, entre gestores, profissionais da saúde, Conselho Municipal de Saúde e lideranças comunitárias. A iniciativa configurou-se como estratégia de gestão participativa voltada à qualificação do planejamento municipal, fortalecendo a governança local e subsidiando a tomada de decisão baseada em critérios técnicos e pactuação coletiva, em consonância com os princípios do SUS e com as diretrizes de planejamento ascendente e territorializado na APS
Objetivo Geral Aplicar a Matriz GUT como ferramenta de planejamento participativo para identificar e priorizar problemas estratégicos da APS no município de Granja-CE. Objetivos Específicos •Identificar coletivamente os principais problemas de saúde nos territórios da ESF •Classificar os problemas segundo critérios de gravidade, urgência e tendência •Estabelecer hierarquização técnica e participativa das prioridades •Subsidiar o Plano Municipal de Saúde e instrumentos de gestão • Fortalecer a participação social e o controle social no planejamento em saúde.
A experiência foi estruturada como intervenção metodológica de caráter participativo e intersetorial, conduzida pela Coordenação da Atenção Primária à Saúde de Granja-CE, com o objetivo de institucionalizar a Matriz GUT como ferramenta permanente de priorização estratégica. Participaram gestores municipais, profissionais da APS, conselheiros de saúde, representantes comunitários e usuários do SUS, garantindo pluralidade e legitimidade ao processo decisório. O percurso metodológico foi organizado em quatro etapas sequenciais. Inicialmente, realizou-se diagnóstico situacional participativo, com divisão dos participantes em grupos temáticos para identificação dos principais problemas da APS, utilizando técnica de brainstorming orientado, análise territorial e discussão baseada em evidências locais. Em seguida, procedeu-se à categorização dos problemas em eixos estruturantes: acesso e organização da demanda, condições crônicas, saúde mental, assistência farmacêutica, logística e gestão do trabalho. Na terceira etapa, aplicou-se a Matriz GUT, atribuindo-se pontuação de 1 a 5 para Gravidade (impacto sanitário e social), Urgência (necessidade temporal de intervenção) e Tendência (probabilidade de agravamento). O escore final foi obtido pela multiplicação dos critérios (G x U x T), permitindo hierarquização objetiva das prioridades. Para reduzir vieses e ampliar a confiabilidade do processo, utilizou-se votação anônima e consolidação coletiva dos resultados. Por fim, realizou-se plenária de pactuação para validação do ranking e definição de encaminhamentos estratégicos, incorporando as prioridades ao Plano Municipal de Saúde e aos instrumentos de gestão. Como instrumentos operacionais, foram utilizados formulários padronizados, planilhas de consolidação, registros sistematizados e atas deliberativas. A estratégia institucional integrou gestão, assistência e controle social, consolidando fluxo decisório transparente, baseado em critérios técnicos e participação social qualificada.
A institucionalização da Matriz GUT possibilitou a priorização técnica e participativa dos principais problemas da Atenção Primária à Saúde no município. O escore mais elevado foi atribuído à elevada demanda espontânea nas UBS, evidenciando impacto direto na organização da agenda programada, na longitudinalidade do cuidado e na resolutividade das equipes da Estratégia Saúde da Família. Entre as demais prioridades destacaram-se: insuficiência de medicamentos básicos, demanda reprimida para exames e consultas especializadas, fragilidades na educação permanente das equipes e limitações logísticas para deslocamento de profissionais e usuários. A hierarquização estruturada permitiu definição objetiva de prioridades estratégicas, orientando decisões orçamentárias e administrativas com base em critérios transparentes. Como indicadores de impacto gerencial, observou-se alinhamento entre as prioridades elencadas e a revisão do Plano Municipal de Saúde, incorporação das demandas priorizadas na programação anual e reorganização de fluxos internos da APS. Houve fortalecimento do Conselho Municipal de Saúde, ampliação da participação social qualificada e maior integração entre gestão e equipes assistenciais, evidenciando avanço na governança local. Os resultados demonstram melhoria no processo de planejamento, maior coerência entre diagnóstico territorial e alocação de recursos, além de qualificação da tomada de decisão baseada em evidências e participação social, configurando avanço consistente na gestão e na organização da assistência na APS.
A institucionalização da Matriz GUT na gestão da Atenção Primária à Saúde em Granja-CE evidenciou que ferramentas estruturadas de priorização fortalecem a governança local, qualificam o planejamento ascendente e ampliam a legitimidade das decisões no âmbito do SUS. Como principal aprendizado, destaca-se a relevância da participação social qualificada, da transparência metodológica e do uso de critérios objetivos para reduzir vieses e promover corresponsabilização entre gestão, equipes e comunidade. A experiência demonstrou potencial de replicabilidade em municípios de porte semelhante, especialmente aqueles que enfrentam desproporção entre demanda espontânea e programada e fragilidades no planejamento territorial. Por se tratar de instrumento de baixo custo operacional e alta aplicabilidade, sua adoção pode ser integrada aos ciclos anuais de planejamento, à Programação Anual de Saúde e ao monitoramento de metas. A sustentabilidade da iniciativa depende da sua incorporação formal aos instrumentos de gestão e da manutenção de espaços participativos permanentes. Ao fortalecer a cultura do planejamento baseado em evidências e participação social, a experiência contribui para consolidar a APS como ordenadora do cuidado e reafirma os princípios da equidade, integralidade e controle social no SUS.