Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
JOYCE MIRELLA FERREIRA DA COSTA FARIAS
Coautor(es)
MARILIA DENISE CASTRO LIMA
ISABELLE PIANCO DE CASTRO
EDNARDO DA SILVA RODRIGUES
JOSE GUDENBERG NOGUEIRA DE SOUZA
RÉGIS SATIRO TELES
JACINTA PESSOA DO NASCIMENTO
KARYNA LIMA COSTA PEREIRA
AURELUCIO BONFIM DA SILVA NETO
MARCELA DEYSE CASTRO LIMA
A seletividade alimentar é uma condição frequente em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), caracterizada pela recusa persistente de alimentos e pela limitação do repertório alimentar, podendo impactar diretamente o estado nutricional, o crescimento e o desenvolvimento infantil. Essa condição está frequentemente associada a alterações no processamento sensorial, especialmente relacionadas à textura, cor, cheiro e temperatura dos alimentos, além de fatores comportamentais e emocionais. Além disso, condições clínicas associadas, como hipertrofia de adenoides e/ou amígdalas, podem agravar o quadro, dificultando a mastigação, deglutição e respiração, contribuindo para a recusa alimentar. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel fundamental como porta de entrada do sistema de saúde, possibilitando a identificação precoce desses casos e o acompanhamento longitudinal das crianças. A atuação do nutricionista se destaca nesse cenário como essencial para o cuidado integral, promovendo intervenções que vão além da prescrição alimentar, considerando aspectos sensoriais, comportamentais e clínicos. A abordagem terapêutica baseada na dessensibilização sensorial e na exposição gradual aos alimentos tem se mostrado eficaz na ampliação do repertório alimentar. Dessa forma, o presente estudo busca relatar a experiência de intervenção nutricional em crianças com TEA com seletividade alimentar, evidenciando a importância da atuação multiprofissional e integrada na promoção de avanços no comportamento alimentar.
Descrever a evolução do comportamento alimentar de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) submetidas à intervenção nutricional no contexto da atenção integral à saúde. Especificamente, busca-se analisar as mudanças relacionadas à aceitação alimentar, incluindo tolerância à presença dos alimentos, interação sensorial, manipulação e experimentação. Também objetiva-se evidenciar a importância da atuação do nutricionista no manejo da seletividade alimentar, bem como a relevância do trabalho multiprofissional na identificação e condução de fatores associados, como alterações sensoriais e condições clínicas. Além disso, pretende-se destacar o papel da Atenção Primária à Saúde na coordenação do cuidado e no acompanhamento longitudinal dessas crianças, contribuindo para intervenções mais efetivas e individualizadas.
Trata-se de um relato de caso envolvendo crianças com idade entre 3 e 5 anos, diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e apresentando quadro de seletividade alimentar importante. O acompanhamento foi realizado no contexto da Atenção Primária à Saúde, com duração variando entre 4 meses e 1 ano, conforme a necessidade e evolução de cada paciente. Inicialmente, foi realizada avaliação nutricional detalhada, incluindo anamnese alimentar, identificação do repertório alimentar, análise de comportamentos alimentares e investigação de possíveis fatores associados, como alterações sensoriais e dificuldades relacionadas às vias aéreas superiores. Observou-se, no início do acompanhamento, recusa alimentar significativa, restrição importante de alimentos e dificuldade de interação com diferentes texturas. A intervenção foi conduzida por nutricionista, utilizando estratégias de terapia alimentar com foco na dessensibilização sensorial e na exposição gradual aos alimentos. As etapas incluíram tolerância à presença do alimento, aproximação, toque, manipulação e, posteriormente, experimentação, respeitando o tempo e a individualidade de cada criança. Também foram realizadas orientações aos cuidadores, visando à continuidade das estratégias no ambiente domiciliar, fortalecendo o vínculo familiar e promovendo um ambiente alimentar mais positivo. Quando identificada a suspeita de comprometimentos clínicos, como hipertrofia de adenoides e amígdalas, as crianças foram encaminhadas para avaliação otorrinolaringológica, reforçando a importância da atuação multiprofissional. O acompanhamento incluiu reavaliações periódicas para monitoramento da evolução do comportamento alimentar e ajustes das estratégias terapêuticas.
Observou-se evolução progressiva no comportamento alimentar das crianças acompanhadas. Inicialmente, houve melhora na tolerância à presença dos alimentos no ambiente, reduzindo comportamentos de recusa imediata. Com a continuidade da intervenção, as crianças passaram a apresentar maior interação sensorial, permitindo o toque e a manipulação dos alimentos. Posteriormente, verificou-se avanço para a experimentação, ainda que de forma gradual e respeitando as particularidades de cada paciente. Houve ampliação do repertório alimentar, com inclusão de novos alimentos e melhor aceitação de diferentes texturas, cores e preparações. Outro aspecto relevante foi a redução da ansiedade alimentar e melhora na relação da criança com o momento das refeições. A participação ativa dos cuidadores contribuiu significativamente para os resultados, possibilitando a continuidade das estratégias no domicílio. Além disso, a articulação com outros profissionais de saúde permitiu o manejo adequado de fatores clínicos associados, como alterações das vias aéreas superiores, potencializando os resultados da intervenção nutricional. Os achados evidenciam que a abordagem gradual, sensível e individualizada é fundamental para o sucesso no manejo da seletividade alimentar em crianças com TEA.
A intervenção nutricional mostrou-se eficaz na redução da seletividade alimentar em crianças com Transtorno do Espectro Autista, promovendo avanços significativos no comportamento alimentar e na ampliação do repertório alimentar. Os resultados reforçam a importância de uma abordagem baseada na dessensibilização sensorial, na exposição gradual e no respeito ao tempo de cada criança, evitando práticas impositivas que possam gerar maior resistência alimentar. Destaca-se ainda o papel fundamental da Atenção Primária à Saúde como coordenadora do cuidado, possibilitando o acompanhamento contínuo e a articulação com outros níveis de atenção e profissionais. A atuação multiprofissional, associada ao envolvimento dos cuidadores, é essencial para o sucesso das intervenções, garantindo um cuidado integral que considera aspectos biológicos, sensoriais e comportamentais. Assim, evidencia-se a necessidade de fortalecer estratégias de cuidado integradas no SUS, visando à melhoria da qualidade de vida das crianças com TEA e suas famílias.