Autor(a)
Maria Rafaele Pereira Bezerra
Coautor(es)
O mês de setembro é o período mundialmente conhecido em que se aborda a temática de prevenção ao suicídio. Durante este período, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as unidades básicas de saúde e demais órgãos públicos e particulares realizam ações e campanhas de conscientização sobre a temática e tentam ao máximo, reduzir o preconceito e estigmas relacionados ao adoecimento mental. Apesar do grande aumento de casos de adoecimento mental e da grande divulgação que a mídia tem feito, muitas pessoas ainda recusam-se a buscar atendimento especializado e a adentrar as portas de um CAPS julgando ser “lugar de doido”, e por medo de ser alvo de chacotas e brincadeiras entre os conhecidos. Pensando nisso e na possibilidade de ofertar uma experiência com psicologia para a população em geral, elaboramos o projeto jardim da escuta, que configura-se como um momento de escuta psicológica em um parque ecológico público do município de Limoeiro do Norte.
O objetivo principal foi promover o cuidado em saúde mental por meio da escuta qualificada por profissional psicólogo(a) em ambiente externo. E os objetivos específicos foram: a) realizar cuidados de saúde mental para além da estrutura física dos serviços de saúde b) ofertar a população em geral um momento de escuta de suas queixas e sofrimentos c) desmistificar a assistência psicológica a medida que este cuidado se aproxima da população no ambiente externo d) oportunizar a escuta psicológica para quem tem receio de ir ao CAPS e) dar visibilidade ao cuidado em saúde mental e prevenção ao suicídio facilitando o acesso da população aos profissionais especializados.
O projeto foi desenvolvido durante a semana de 16 a 20 de setembro do ano de 2024 e será realizado novamente a cada ano. A organização contou com a assistência de um(a) psicólogo(a) a cada turno e uma técnica de enfermagem para o gerenciamento do fluxo. Foram distribuídas 6 fichas por turno e os critérios de inclusão foram: ser maior de 16 anos e não possuir acompanhamento em nenhum CAPS. Os profissionais psicólogos escalados eram servidores atuantes no CAPS geral II e no CAPS álcool e outras drogas além dos residentes da escola de saúde pública do estado do Ceará (ESP/CE). Além disso, o espaço escolhido foi o Campo Florestal, um parque ecológico público no município de Limoeiro do Norte que conta com ambiente para caminhada, academia ao ar livre, parquinho infantil, espaço para piquenique, lago para visitação com animais, ampla arborização e produção de mudas para doação. Os atendimentos aconteceram em uma sala reservada para não expor o sofrimento referido.
Os resultados atingidos com o projeto foram de grande impacto, considerando que foi possível fortalecer os vínculos com o território na medida em que ofertamos o serviço psicológico para aqueles que, em sua maioria, não tiveram contato anterior com esse tipo de atendimento, podendo aproximar-se da escuta qualificada e do que é ofertado em um CAPS. Na maioria dos atendimentos, foi possível perceber tanto a necessidade de uma escuta psicológica por parte dos pacientes, como a satisfação, ao final, de terem encontrado um lugar onde era possível falar sem ser julgado, descarregar o peso de suas emoções ou mesmo de sua história de vida em poucos minutos. O estigma com o serviço de saúde mental aparece nas falas de formas diversas, mas sempre entregando o peso que vem junto do que é ser “louco” para a família e para a sociedade. Apesar de a faixa etária ter sido delimitada, observou-se a procura intensa por parte de mães de adolescentes, que buscaram acolhimento e orientações de como proceder diante das situações trazidas. Portanto, além da escuta ofertada para essas mães e adolescentes e para os demais pacientes que participaram, o projeto pôde ofertar orientações em saúde mental, envolvendo a atenção primária e secundária, de modo a apaziguar as angústias trazidas diante do adoecimento e das dúvidas em saúde mental.
Por meio do projeto, foi possível visualizar a relevância da realização de novas atividades voltadas para o cuidado em saúde mental realizadas fora dos limites institucionais. Destaca-se que a proposta inicial do projeto, de se configurar como uma ferramenta de cuidado, foi atingida com sucesso, tendo em vista que o jardim da escuta se mostrou um importante instrumento terapêutico para aproximar a população dos cuidados com a saúde mental, considerando que se apresentou como um novo ambiente de busca por assistência especializada e levou os participantes a associarem a assistência psicológica ao contato com a natureza e a prática de atividade física que são ações conhecidas e eficazes para a promoção e recuperação da saúde mental.