Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
SABRINA MONTENEGRO CRUZ
Coautor(es)
A insulinoterapia na Atenção Primária à Saúde (APS) requer orientação clínica estruturada para assegurar o uso seguro do medicamento no domicílio. No cuidado às pessoas com diabetes, a condução do tratamento depende da compreensão das orientações relacionadas ao armazenamento, preparo, técnica de aplicação e descarte de insumos. No município de Miraíma, Ceará, localizado na região noroeste do estado e com população aproximada de 14 mil habitantes, a organização do cuidado ocorre no âmbito da APS, com atuação de equipes multiprofissionais no território. Nesse contexto, a análise do processo de cuidado identificou inconsistências no uso da insulina, associadas à ausência de padronização das orientações entre profissionais e à inadequação da comunicação ao nível de compreensão dos usuários, com repercussões na segurança do tratamento e ocorrência de erros evitáveis no uso do medicamento. A experiência foi desenvolvida na rede municipal de saúde, envolvendo profissionais da APS, Agentes Comunitários de Saúde, trabalhadores da assistência farmacêutica e pessoas com diabetes em uso de insulina. A intervenção fundamenta-se na incorporação do letramento em saúde como base para a organização da comunicação clínica e da orientação terapêutica. Como resposta ao problema identificado, foi desenvolvido um guia digital direcionado aos profissionais, estruturado em etapas operacionais do cuidado e elaborado com linguagem acessível. O material foi validado por profissionais da APS, público-alvo da intervenção, por meio de instrumento específico para avaliação de materiais educativos. A implementação incluiu capacitação das equipes e organização do acompanhamento farmacêutico remoto por teleatendimento, permitindo suporte contínuo no manejo da insulinoterapia. A proposta orienta a prática clínica para o uso seguro da insulina ao estruturar a comunicação terapêutica com base no letramento em saúde.
Objetivo geral: Desenvolver, validar e implementar uma tecnologia educacional digital baseada no letramento em saúde para orientar a prática clínica na Atenção Primária à Saúde, com foco na segurança do uso da insulina. Objetivos específicos: 1. Identificar inconsistências no uso da insulina relacionadas à organização do cuidado e à comunicação clínica na APS 2. Elaborar um guia digital estruturado em etapas operacionais, com base em diretrizes clínicas e princípios do letramento em saúde 3. Validar o material junto a profissionais da APS quanto à clareza, relevância e aplicabilidade 4. Capacitar equipes de saúde e trabalhadores da assistência farmacêutica para utilização do guia na prática clínica 5. Implementar acompanhamento farmacêutico remoto como estratégia de suporte ao manejo da insulinoterapia 6. Promover o uso seguro da insulina por meio da qualificação da comunicação e da compreensão das orientações em saúde.
Trata-se de uma experiência de natureza aplicada, com abordagem metodológica mista, desenvolvida no âmbito da Atenção Primária à Saúde de um município do interior do Ceará. A experiência foi estruturada em três etapas interdependentes. A primeira consistiu no diagnóstico situacional do processo de cuidado, realizado a partir da prática profissional na assistência farmacêutica, análise do uso de insulina no território e observação das orientações realizadas pelas equipes de saúde, permitindo identificar inconsistências relacionadas à comunicação clínica e à condução da insulinoterapia no domicílio. Na segunda etapa, foi desenvolvido um guia digital direcionado aos profissionais da APS, com base nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes e nos Protocolos Clínicos do Ministério da Saúde, incorporando os princípios do letramento em saúde. O conteúdo foi organizado em etapas operacionais do cuidado, com foco na orientação estruturada da insulinoterapia. A construção seguiu referencial metodológico de desenvolvimento de tecnologias educacionais em saúde, com adaptação da linguagem e organização da informação para facilitar a compreensão e aplicação na prática clínica. A validação do material foi realizada com profissionais da Atenção Primária à Saúde, público-alvo da tecnologia, utilizando o Instrumento de Avaliação de Materiais Educativos com foco no Letramento em Saúde para o Brasil (AMEELS-BR), que permite avaliar clareza, conteúdo, apresentação e adequação cultural dos materiais educativos . O processo seguiu abordagem de validação de conteúdo, amplamente utilizada em estudos metodológicos, com análise estruturada dos itens e concordância entre avaliadores . A terceira etapa compreendeu a implementação da intervenção, incluindo capacitação das equipes de saúde, Agentes Comunitários de Saúde e trabalhadores da assistência farmacêutica, com foco na aplicação do guia na prática clínica. Paralelamente, foi instituído acompanhamento farmacêutico remoto, por meio de teleatendimento síncrono e suporte assíncrono, permitindo monitoramento do uso da insulina e intervenções oportunas no cuidado.
A implementação da intervenção produziu mudanças no processo de cuidado às pessoas com diabetes em uso de insulina na Atenção Primária à Saúde (APS). A capacitação das equipes, orientada pelo guia digital, promoveu a padronização das orientações clínicas entre profissionais, Agentes Comunitários de Saúde e trabalhadores da assistência farmacêutica, com organização das etapas do cuidado e maior consistência na condução da insulinoterapia. A incorporação dos princípios do letramento em saúde qualificou a comunicação clínica, tornando as orientações mais compreensíveis e aplicáveis ao contexto domiciliar. Nesse contexto, a implantação do acompanhamento farmacêutico remoto ampliou o acesso ao cuidado e possibilitou monitoramento contínuo do uso da insulina, com identificação de inadequações no manejo e realização de intervenções oportunas, especialmente no preparo, técnica de aplicação e manuseio de dispositivos. Evidenciou-se redução de falhas no uso da insulina, com diminuição de danos associados ao uso incorreto, maior adequação na execução das etapas do tratamento e aumento da segurança no cuidado domiciliar. Destaca-se a melhoria no uso de dispositivos de insulinoterapia, com redução de perdas e inconsistências no manuseio. No nível dos usuários, verificou-se maior compreensão das orientações, redução de dúvidas recorrentes e ampliação da participação no autocuidado, com repercussões na condução do tratamento. No âmbito da gestão, identificou-se qualificação da prática assistencial, fortalecimento da assistência farmacêutica na APS e uso mais adequado dos insumos relacionados à insulinoterapia. Os achados indicam que a organização da comunicação clínica, estruturada pelo letramento em saúde, atua diretamente na segurança do uso da insulina e na condução do cuidado na APS.
A experiência evidencia que a segurança no uso da insulina na Atenção Primária à Saúde está diretamente relacionada à organização da comunicação clínica no cuidado. A incorporação do letramento em saúde como base para a orientação terapêutica estruturou o processo assistencial, qualificou a prática profissional e contribuiu para a redução de falhas no manejo da insulinoterapia no domicílio, demonstrando o alcance do objetivo proposto. A utilização de tecnologia educacional validada, associada à capacitação das equipes e ao acompanhamento farmacêutico remoto, mostrou-se viável no contexto da APS e aplicável à rotina dos serviços, favorecendo a padronização das orientações, a ampliação do acesso ao cuidado e o fortalecimento da atuação multiprofissional no território. Os resultados indicam que intervenções estruturadas na comunicação em saúde contribuem para o uso seguro de medicamentos de maior risco e para o fortalecimento do autocuidado em condições crônicas. Recomenda-se a incorporação de estratégias baseadas no letramento em saúde na organização do cuidado na APS, considerando seu potencial para qualificar a assistência e reduzir falhas evitáveis. A experiência apresenta potencial de replicação em diferentes contextos do Sistema Único de Saúde, por se apoiar em tecnologias acessíveis, na reorganização do processo de trabalho e no alinhamento às diretrizes nacionais, contribuindo para o fortalecimento da APS como coordenadora do cuidado.