Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Marina Rodrigues Silva
Coautor(es)
Maria Marfisa Marques Aguiar
Mariana Maria da Silva Arruda
Andressa Virgínia Mesquita Pinto
Antônia Valéria Rodrigues Vale
Larissa Maria Pinheiro Furtado
Karine Martins Nobre
O aleitamento materno exclusivo (AME), definido como a oferta exclusiva de leite materno ao lactente, sem adição de outros líquidos ou sólidos, excetuando-se medicamentos e suplementos quando indicados, constitui prioridade da Atenção Primária à Saúde (APS), sendo recomendado a sua manutenção até os seis meses de vida (De Paula Leite, Mittang e Rossetto, 2024). A eficácia da amamentação depende da coordenação entre sucção, deglutição e respiração, funções relacionadas à mobilidade lingual. Alterações anatômicas como a anquiloglossia, caracterizada pela restrição da mobilidade da língua decorrente de alterações do frênulo lingual, podem comprometer a transferência eficiente de leite, favorecer dor materna e contribuir para interrupção precoce do AME (Vilarinho et al., 2022). Além do impacto inicial na amamentação, pode repercutir posteriormente na mastigação, deglutição e fala, reforçando a importância do diagnóstico oportuno na APS (Tuard et al., 2025). No município de Reriutaba-CE, observou-se aumento da demanda por avaliação do freio lingual, associado a barreiras de acesso para realização de frenectomia, resultando em filas e atraso no tratamento. Em 2025, a Secretaria Municipal de Saúde implantou a oferta do procedimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), por meio do Programa Clubinho Girassol, ampliando o acesso e fortalecendo a resolutividade da APS no território. A experiência é desenvolvida no âmbito da APS e tem como público-alvo bebês e crianças com diagnóstico de anquiloglossia, acompanhados junto às suas famílias. O cuidado é organizado a partir de atuação multiprofissional, contemplando avaliação clínica, indicação criteriosa, realização da frenectomia, orientações às famílias e acompanhamento funcional no pós-operatório. A iniciativa fundamenta-se na intervenção precoce, na qualificação da linha de cuidado materno-infantil e na consolidação da APS como coordenadora do cuidado, em consonância com os princípios do SUS.
Objetivo Geral: Relatar a implantação da frenectomia lingual na Atenção Primária à Saúde de Reriutaba-CE, por meio da organização do fluxo assistencial, como estratégia para qualificar o diagnóstico precoce da anquiloglossia e ampliar o acesso ao tratamento no território. Objetivos Específicos: Descrever a organização do fluxo na APS para rastreio, avaliação e acompanhamento de bebês e crianças com alterações do frênulo lingual apresentar a qualificação das equipes com uso de protocolo validado para subsidiar a tomada de decisão clínica demonstrar a ampliação do acesso à frenectomia no próprio município e evidenciar o fortalecimento da atuação multiprofissional e da coordenação do cuidado, com impacto na amamentação, nas funções orais e no vínculo com as famílias.
Trata-se de um relato de experiência construído a partir da vivência das equipes da APS de Reriutaba-CE, no âmbito do Programa Clubinho Girassol, estruturado sob perspectiva multiprofissional no cuidado à saúde infantil. Em conformidade com a Lei nº 13.002/2014, o rastreio do frênulo lingual é realizado nas maternidades. Entretanto, no âmbito da linha de cuidado materno-infantil do município, compreende-se que o exame neonatal constitui etapa inicial do processo assistencial, exigindo acompanhamento na APS. Assim, os recém-nascidos com resultado sugestivo são referenciados à rede municipal para avaliação especializada e definição da conduta, sobretudo quando identificado prejuízo funcional. Nos casos com resultado duvidoso ou sem repercussão clínica imediata, a reavaliação ocorre durante as consultas de puericultura, garantindo monitoramento longitudinal, articulação entre os níveis de atenção e consolidação da APS como coordenadora do cuidado no território. Para qualificar a linha de cuidado, realizou-se capacitação dos profissionais da APS, conduzida pela odontopediatra do município, com foco na padronização diagnóstica e fortalecimento da resolutividade na Atenção Primária. A formação contemplou atualização teórica e treinamento para aplicação do protocolo adotado no serviço. O fluxo assistencial foi organizado nas UBS, tendo como eixo estruturante a puericultura e o acompanhamento infantil, de modo a possibilitar a avaliação clínica e favorecer a identificação de alterações no frênulo lingual. A linha de cuidado contempla também a avaliação de crianças maiores em consultas de rotina, permitindo investigação de limitações e repercussões sobre fala, alimentação e respiração, assegurando a longitudinalidade. Nesse contexto, adota-se o Protocolo de Avaliação do Frênulo Lingual (Martinelli et al., 2013), que integra história clínica, exame anatomofuncional e análise da sucção, com atribuição de escores. Os casos com indicativo são encaminhados à dentista do Programa Clubinho Girassol para avaliação cirúrgica e realização da frenectomia no próprio território, enquanto os demais permanecem em acompanhamento, com reavaliação periódica. Em crianças maiores, a avaliação das funções orais ocorre com participação da fonoaudiologia, definindo-se conduta compartilhada. O seguimento pós-operatório é realizado de forma integrada, consolidando a APS como coordenadora do cuidado e garantindo continuidade, integralidade e fortalecimento da resolutividade no SUS.
Após a capacitação das equipes e a implantação do fluxo, observou-se mudanças no cuidado à anquiloglossia no município. Tratava-se de uma demanda reprimida, dependente de encaminhamento para centros especializados. No período subsequente, foram identificados mais de 50 casos durante as consultas de puericultura, evidenciando ampliação do rastreio e qualificação da vigilância do desenvolvimento infantil. A utilização de escores padronizados (≥13 na soma total ou ≥9 no exame clínico) fortaleceu a segurança clínica e reduziu condutas baseadas em avaliação subjetiva. A partir da organização do fluxo com encaminhamento imediato dos casos com interferência funcional, passou-se a realizar a frenectomia no próprio município em até 15 dias após o diagnóstico, reduzindo significativamente o tempo de espera, que anteriormente dependia do encaminhamento para centros especializados e poderia se estender até a idade escolar. Como repercussão assistencial direta, observou-se melhora na pega e na sucção, com maior manutenção do AME entre os lactentes. Ademais, houve diminuição de encaminhamentos para outros níveis de atenção, redução de deslocamentos das famílias e fortalecimento do vínculo com as equipes da APS, favorecendo a adesão ao seguimento longitudinal. Em crianças maiores, a atuação integrada com a fonoaudiologia potencializou ganhos em mobilidade lingual e funções orais. Assim, a experiência demonstrou impacto assistencial, organizacional e social, consolidando a APS como coordenadora do cuidado e ampliando a resolutividade da rede materno-infantil no território. A reorganização do processo de trabalho fortaleceu a integração entre puericultura, odontologia e fonoaudiologia, estruturando uma linha de cuidado desde o período neonatal. Além disso, a oferta do procedimento no próprio município reduziu barreiras de acesso e qualificou a resposta da rede local, reafirmando a APS como espaço estratégico para a garantia do desenvolvimento infantil no SUS.
A experiência de Reriutaba-CE demonstra que a incorporação da frenectomia lingual à rotina da APS, quando estruturada por fluxos bem definidos e com capacitação das equipes, fortalece a capacidade diagnóstica e amplia a resolutividade no território. Nesse sentido, evidencia-se a potência da puericultura para identificação da anquiloglossia, sobretudo quando articulada à atuação multiprofissional e à coordenação do cuidado pela APS. Além disso, a reorganização do processo assistencial permitiu a oferta do procedimento no próprio município, reduzindo barreiras de acesso, com impacto direto na qualidade do cuidado materno-infantil. Desse modo, a experiência reafirma a APS não apenas como porta de entrada, mas como centro ordenador da rede, responsável pela identificação, estratificação de risco, definição de conduta e acompanhamento dos usuários. Ademais, ao integrar rastreio, decisão clínica e intervenção cirúrgica na APS, a iniciativa rompe com o modelo tradicional de centralização do procedimento em nível secundário, ampliando a autonomia e a capacidade resolutiva da APS. Consequentemente, fortalece o cuidado centrado na família e na corresponsabilização. Portanto, mais do que a oferta de um procedimento, trata-se da consolidação de uma linha de cuidado e de uma estratégia de baixo custo, baseada na reorganização de fluxo e qualificação profissional, podendo ser implementada por municípios de pequeno porte, desde que haja equipe capacitada e um protocolo definido.