Tema: GESTÃO E PLANEJAMENTO DO SUS
Autor(a)
Roberta Sampaio de Brito Mamede
Coautor(es)
Rosilene da Silva Maciel
Emmanuella Carvalho Fonseca
Dielle Jordane Oliveira da Silva
Antonia Cinthya Gomes da Silva
Ana Lúcia e Silva Mamede
Garantir o acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme previsto no art. 196 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), requer, entre outros fatores, a ordenação dos fluxos assistenciais. Conforme o Manual de Planejamento do SUS, “no setor saúde, as práticas de planejamento estão presentes em todo o processo que é conhecido como Gestão do SUS” (BRASIL, 2016, p. 55-56). Por vezes, faz-se necessário o reordenamento desse processo. No município de Pentecoste-CE, que pertence à microrregião Vale do Médio Curu, com população estimada em 39.903 habitantes (IBGE, 2025), observava-se que os espaços de gestão, ocasionalmente, ocorriam de forma pouco alinhada, o que dificultava a construção coletiva de estratégias e o diálogo entre os diferentes setores da saúde. Logo, surgiu o questionamento: como qualificar o planejamento em saúde e ordenar os fluxos assistenciais por meio de estratégias participativas no âmbito da gestão municipal? Nesse contexto, emergiu a necessidade de adotar metodologias que favorecessem maior envolvimento dos atores da gestão e contribuíssem para o fortalecimento do planejamento das ações. Assim, dentro de uma programação articulada pela então secretária municipal de saúde, foi realizada, no auditório da referida secretaria, a experiência ora relatada, que ocorreu em janeiro de 2026, durante reunião de gestão, contando com 20 participantes. Na oportunidade, utilizou-se a ludicidade como recurso metodológico que buscou favorecer a escuta, o diálogo e a construção coletiva. Ressalta-se que a “ludicidade é um contínuo ‘vir-a-ser’, proveniente do universo interno do ser humano em qualquer idade” (KISHIMOTO, 1998 apud GIMENES, 2023, p. 118). A estratégia veio a contribuir com a identificação das demandas e com o fortalecimento da organização dos fluxos na rede de atenção à saúde do município.
Objetivo Geral: Relatar a experiência do uso da ludicidade na gestão em saúde durante o processo de planejamento no município de Pentecoste-CE. Objetivos Específicos: 1.Apresentar a utilização de metodologias lúdicas na condução do planejamento em saúde 2.Caracterizar o desenvolvimento da atividade e a participação dos atores envolvidos 3.Analisar as contribuições da ludicidade para a qualificação do planejamento e da gestão em saúde.
Realizou-se um encontro de gestão com coordenadores e diretores da Secretaria Municipal de Saúde de Pentecoste, que teve como foco a discussão dos fluxos assistenciais. Foi definida, previamente, uma dupla responsável pela atividade, que utilizou metodologias participativas e recursos lúdicos, com vistas a favorecer o envolvimento dos atores da gestão e a construção coletiva de soluções. A experiência foi vivenciada no dia 28 de janeiro, das 13h às 16h30, no auditório da referida secretaria, com programação estruturada em momentos sequenciais: acolhida, apresentação da proposta, meditação guiada, dinâmica lúdica, estudo de caso e avaliação, gerando ainda um produto final. Inicialmente, realizou-se a acolhida dos participantes na recepção do evento, com entrega de caneta personalizada em cartão com mensagem simbólica e distribuição de chocolates. Na sequência, foi apresentada a proposta metodológica do encontro, seguida de meditação guiada, em alusão ao Janeiro Branco. Pensar o reordenamento dos fluxos assistenciais requer, a priori, identificar os gargalos da gestão. Assim, esclarecidas as etapas, ocorreu a dinâmica “Lamparina Mágica”, na qual, em círculo, os participantes receberam a lamparina e puderam expressar três desejos relacionados a melhorias nos setores sob sua responsabilidade. A estratégia possibilitou a identificação das principais demandas da gestão, trazendo descontração e leveza ao ambiente. Posteriormente, houve um momento de devolutivas, no qual a secretária de saúde, o secretário executivo e os demais participantes contribuíram com encaminhamentos e possíveis soluções, assumindo o papel de “Gênios da Lamparina”. Após um intervalo para o café da tarde, realizou-se a leitura de um estudo de caso real, resguardados os devidos sigilos, para discussão coletiva acerca do fluxo mais adequado de atendimento. O encontro foi finalizado com uma avaliação dos participantes sobre a experiência vivenciada e com a produção de um relatório contendo as demandas levantadas, além do compromisso do grupo em realizar momentos que contemplassem a apresentação dos fluxos redefinidos. Foram utilizados como instrumentos e recursos a ambientação do espaço, lamparina, brindes e estratégias como meditação, dinâmica lúdica e estudo de caso. Participaram 20 sujeitos, entre coordenadores, diretores, secretária de saúde, secretário executivo e assessora técnica, configurando um espaço coletivo de diálogo e construção no âmbito da gestão e do planejamento do SUS.
A experiência evidenciou o potencial das metodologias lúdicas como estratégia para qualificar os espaços de gestão e planejamento em saúde. Observou-se maior engajamento dos participantes ao longo da atividade, com ampliação da participação e da escuta qualificada entre os diferentes setores da Secretaria Municipal de Saúde. Tal movimento contribuiu para maior corresponsabilização dos gestores no processo de organização dos serviços. A utilização da dinâmica “Lamparina Mágica” favoreceu a expressão das principais demandas e desafios vivenciados na rotina dos serviços, possibilitando a identificação de fragilidades relacionadas ao ordenamento dos fluxos assistenciais, especialmente no que se refere à comunicação entre setores, definição de responsabilidades e organização do acesso dos usuários. Além disso, o momento de devolutivas contribuiu para a construção coletiva de encaminhamentos, fortalecendo o diálogo entre a gestão e os demais atores envolvidos. O estudo de caso realizado no retorno do intervalo possibilitou aproximar a discussão da realidade concreta da rede de atenção à saúde, estimulando a análise crítica dos fluxos existentes e a proposição de alternativas mais adequadas para o atendimento dos usuários, contribuindo para maior compreensão sobre a necessidade de integração entre os pontos da rede. Como principais resultados, destacam-se: a sistematização das demandas da gestão, a identificação de pontos críticos nos fluxos assistenciais e o fortalecimento do processo participativo no planejamento em saúde. Como produto concreto, foi elaborado um relatório técnico contendo as demandas levantadas, o qual subsidiou o planejamento das ações para o ano de 2026. Ademais, foi pactuada a realização de encontro subsequente para apresentação dos fluxos de cada setor, configurando-se como desdobramento da experiência e estratégia para continuidade do processo de organização da rede.
A experiência demonstrou que a utilização da ludicidade como recurso metodológico na gestão em saúde contribui significativamente para a qualificação dos processos de planejamento, ao favorecer a participação ativa dos sujeitos, o diálogo entre os setores e a construção coletiva de soluções. Destaca-se que a abordagem adotada favoreceu a criação de um ambiente mais acolhedor e colaborativo, estimulando a troca de experiências e o reconhecimento dos desafios comuns entre os diferentes setores. Como principais aprendizados, ressalta-se a importância da adoção de estratégias inovadoras que rompam com modelos tradicionais de condução do planejamento, ampliando a participação e fortalecendo o protagonismo dos atores envolvidos. Nesse sentido, a ludicidade se apresenta como ferramenta potente para a gestão, contribuindo para processos mais democráticos, resolutivos e alinhados às necessidades reais dos serviços. Por fim, considera-se que a experiência possui potencial de replicabilidade em outros contextos da gestão em saúde, especialmente em espaços que demandam maior integração entre equipes e qualificação dos processos de trabalho, reafirmando sua contribuição para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde.