Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
ANTONIO ERISBERTO ALVES
Coautor(es)
MARIA RAFAELA FERREIRA DOS SANTOS
IRACEMA GONÇALVES ALVES DE OLIVEIRA
MÁRCIO CARVALHO FONTENELE
FRANCISCO EDVANDO DE ARAÚJO ARAGÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui o principal eixo estruturante do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pela coordenação do cuidado e pela organização das Redes de Atenção à Saúde. Entretanto, municípios do interior brasileiro enfrentam desafios históricos relacionados ao provimento e à fixação de profissionais médicos, especialmente em territórios com baixa densidade demográfica e elevada dispersão populacional, situação que compromete o acesso oportuno da população aos serviços e a continuidade do cuidado. Nesse contexto, o Programa Mais Médicos para o Brasil foi instituído como estratégia para ampliar a disponibilidade de médicos em áreas prioritárias e fortalecer a capacidade resolutiva da APS. A partir da promulgação da Lei nº 14.621/2023, que reformulou o programa, ocorreu o provimento de 21 médicos para o município de Granja, fortalecendo a capacidade assistencial da APS e ampliando o acesso da população aos serviços de saúde. A experiência foi desenvolvida no município de Granja, localizado na região Norte do Ceará, com população de 53.344 habitantes e território de aproximadamente 2.663 km², marcado por ampla dispersão geográfica e significativo contingente populacional residente na zona rural. O sistema municipal de saúde está estruturado a partir da Atenção Primária, organizada em 24 equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF). Atualmente, o município conta com 24 médicos atuando na APS, sendo 23 vinculados ao Programa Mais Médicos, correspondendo a 96% do total dos médicos da rede. Após a nova legislação, observou-se maior fixação dos profissionais nos territórios, favorecendo a continuidade e a longitudinalidade do cuidado. A experiência tem como público-alvo a população adscrita às equipes da ESF, especialmente residentes em áreas rurais e territórios em situação de maior vulnerabilidade social, contribuindo para a ampliação do acesso, redução das desigualdades territoriais e fortalecimento da resolutividade da APS no município.
Objetivo Geral Fortalecer o acesso e a resolutividade da Atenção Primária à Saúde por meio da inserção de profissionais do Programa Mais Médicos em equipes da Estratégia Saúde da Família em município do interior do Ceará. Objetivos Específicos •Ampliar o acesso da população aos atendimentos médicos nas Unidades Básicas de Saúde. •Reduzir vazios assistenciais decorrentes da dificuldade de provimento e fixação de médicos. •Qualificar o cuidado longitudinal e o acompanhamento das condições crônicas. •Fortalecer o processo de trabalho das equipes da Estratégia Saúde da Família. •Contribuir para a organização da Rede de Atenção à Saúde no território.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no âmbito da gestão municipal da Atenção Primária à Saúde (APS) em um município do interior do estado do Ceará, a partir da implementação e consolidação do Programa Mais Médicos para o Brasil nas equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF). A experiência foi conduzida entre 2023 e 2025, no contexto das Unidades Básicas de Saúde (UBS) do território municipal, com foco na ampliação do acesso e na qualificação do cuidado na Atenção Primária. O percurso metodológico foi estruturado em etapas articuladas de planejamento, implantação e monitoramento das ações. Inicialmente, realizou-se diagnóstico situacional da rede municipal de APS, utilizando dados do e-SUS, indicadores assistenciais e análise territorial das áreas com maior vulnerabilidade social, demanda populacional e histórico de dificuldade de provimento médico. A partir desse diagnóstico, foi definido o processo de alocação dos profissionais do Programa Mais Médicos nas UBS com maior necessidade assistencial, priorizando territórios rurais e comunidades com maior dispersão geográfica. Como estratégias de implementação, foram adotadas: reorganização das agendas assistenciais nas UBS ampliação da oferta de consultas médicas fortalecimento das ações de promoção da saúde e prevenção de agravos acompanhamento longitudinal de usuários com condições crônicas e participação ativa dos médicos nas reuniões de equipe e no planejamento territorial das ações de saúde. Os fluxos assistenciais foram organizados de forma integrada às equipes multiprofissionais da ESF e à Rede de Atenção à Saúde, garantindo encaminhamento oportuno, continuidade do cuidado e acompanhamento compartilhado dos usuários. Entre os instrumentos utilizados destacam-se os sistemas de informação em saúde, e-SUS, prontuário eletrônico do cidadão (PEC), relatórios de produção assistencial, além de reuniões de monitoramento e planejamento das equipes. A experiência envolveu a realização de atividades de educação permanente em saúde, com discussões clínicas, apoio matricial e troca de saberes entre os profissionais, fortalecendo o trabalho interdisciplinar e a qualificação das práticas de cuidado. O processo foi conduzido em articulação com a gestão municipal de saúde, equipes da ESF e demais pontos da Rede de Atenção à Saúde, contribuindo para a reorganização do processo de trabalho na APS e para o fortalecimento da resolutividade da atenção no território.
A inserção de profissionais médicos vinculados ao Programa Mais Médicos nas equipes da ESF produziu impactos relevantes na organização e no desempenho da APS. Atualmente, o município conta com 24 médicos atuando na APS, sendo 23 vinculados ao programa, correspondendo a aproximadamente 96% da força de trabalho médica da APS. Esse cenário contribuiu para a redução de vazios assistenciais e para a ampliação do acesso da população aos atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde. A presença contínua do profissional médico fortaleceu o vínculo entre profissionais e usuários e ampliou a longitudinalidade do cuidado, favorecendo a continuidade do acompanhamento de condições agudas e crônicas. Observou-se também melhoria na organização das agendas assistenciais e no planejamento das ações de saúde no território, com maior integração entre os membros das equipes multiprofissionais. No campo da atenção psicossocial, registrou-se a implantação do matriciamento em saúde mental em 100% das equipes da APS, ampliando o apoio técnico às equipes da ESF e fortalecendo a capacidade de manejo dos casos no próprio território. Entre os indicadores de impacto, destaca-se a redução das internações por condições sensíveis à APS no período de 2023 a 2025, evidenciando maior capacidade das equipes em identificar precocemente agravos e manejar clinicamente situações evitáveis no âmbito da APS, conforme dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) (BRASIL, 2025). Redução significativa da mortalidade infantil, que passou de 14,45 óbitos por mil nascidos vivos em 2024 para 6,97 por mil nascidos vivos em 2025, indicando avanços na qualificação do cuidado materno-infantil e no acompanhamento pré-natal, segundo informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) (BRASIL, 2025). Os resultados evidenciam aumento da resolutividade da APS e fortalecimento da coordenação do cuidado na Rede de Atenção à Saúde.
A experiência demonstra que o Programa Mais Médicos configura-se como estratégia estruturante para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde em municípios do interior, contribuindo para a ampliação do acesso, qualificação do cuidado e redução das desigualdades na distribuição de profissionais médicos. A inserção desses profissionais nas equipes da Estratégia Saúde da Família favoreceu a continuidade do cuidado, o fortalecimento do vínculo entre profissionais e comunidade e a reorganização do processo de trabalho nas Unidades Básicas de Saúde. Entre os principais aprendizados destaca-se a importância do provimento médico associado à organização territorial da APS, ao trabalho interdisciplinar e ao planejamento das ações de saúde no território. Além de ampliar a oferta de consultas médicas, a presença desses profissionais contribuiu para o fortalecimento da resolutividade da Atenção Primária e para a consolidação de seu papel como coordenadora do cuidado na Rede de Atenção à Saúde. A iniciativa demonstra potencial de replicabilidade em municípios com características territoriais semelhantes, utilizando tecnologias leves de cuidado e estratégias de gestão territorializadas. Sua sustentabilidade está associada à manutenção de políticas públicas de provimento profissional e ao fortalecimento da Estratégia Saúde da Família, elementos essenciais para a consolidação do Sistema Único de Saúde e para a garantia do direito à saúde.