Autor(a)
Tiago da Rocha Oliveira
Coautor(es)
Larisse Araujo de Sousa
Danielli Mendes de Sousa
Letícia Reichel dos Santos
Marina Pereira Moita
O conceito de saúde mental é extremamente complexo, permeado, por questões ideológicas, políticas, sociais, culturais e espirituais. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde mental é um completo estado de bem-estar em que o indivíduo tem consciência de seu potencial e está apto a contribuir com sua comunidade. A assistência à saúde mental no Brasil passou por avanços desde a década de 1970, com o processo de reforma psiquiátrica, que provocou transformações conceituais e operacionais como a inclusão da Atenção Primária à Saúde (APS) como ordenadoras do cuidado em saúde mental. Portanto, dentro da APS é de suma importância a escuta singular do sujeito e das equipes que compõem os serviços de saúde, com isso, o matriciamento em saúde mental permite a integração da Saúde Mental na APS com vistas à efetivação das propostas da Reforma Sanitária e da Reforma Psiquiátrica. Além disso, possibilita a ampliação da oferta de cuidado, já que a APS também passou a se responsabilizar por ele.
Relatar a experiência da articulação intersetorial entre Atenção Primária à Saúde e Rede de Atenção Integral a Saúde Mental na realização do matriciamento em saúde mental no município de Sobral- CE.
Trata-se de um relato de experiência da realização do matriciamento em saúde mental como ferramenta de cuidado dialogado entre os diferentes níveis de atenção à saúde. Em Sobral-CE, adotou-se nas agendas dos profissionais os turnos de Matriciamento, como rotina mensal, já que se entende que o usuário que utiliza o serviço do CAPS, continua fazendo parte do território, e deve ter ponto de apoio em variados pontos da rede de atenção à saúde. Portanto, o momento de matriciamento é realizado mensalmente ou quinzenalmente, a depender da pactuação prévia entre Centro de Saúde da Família e matriciador. O momento é realizado com técnicos de referência que se deslocam dos seus serviços de referência, como CAPS-AD e CAPS Geral, para apoiarem e discutirem estratégias de cuidado junto à equipe mínima. Reúnem-se Enfermeiros, médico, Agente Comunitário de Saúde (ACS), Residência Multiprofissional, E-Multi e Técnico de Referência do serviço de saúde mental que pode ser de categoria multiprofissional ou médico. Previamente são elencados os casos a serem discutidos, a partir da identificação da equipe mínima, os ACS tem papel primordial nessa identificação, visto que tem vínculo maior dentro do território. A depender do caso, a discussão pode ser feita após a escuta com o próprio usuário, para melhor se criar as estratégias de cuidado.
O matriciamento, formulado originalmente por Gastão Wagner de Souza Campos, foi definido, posteriormente, como “um novo modo de produzir saúde em que duas ou mais equipes, num processo de construção compartilhada, criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica”. A prática do matriciamento, escuta terapêutica, entre as equipes, acompanhamento e fortalecimento da autonomia das pessoas com transtorno mental têm o poder de modificar a conduta de se viver e interferir nos campos social, econômico e ambiental. Dentro da APS de Sobral, percebe-se que a rede de saúde mental não se restringe aos muros dos CAPS, fazer saúde mental tornou-se um desafio mais alcançável a partir da articulação entre os diferentes níveis da atenção. Dar possibilidade de escuta ativa e sistemática do usuário dentro dos serviços da APS, possibilitou ressignificar o cuidado em saúde mental, empoderando as equipes da atenção primária, para se sentir parte do cuidado. O matriciamento em saúde mental sistemático, entre APS e RAISM tornou possível a garantia do cuidado integral e longitudinal, garantido acesso ao usuário e possibilidade de cuidado em diferentes níveis de atenção, para além de encaminhamentos ou fichas de referência ou contra-referência, visto que, a partir dos encontros, são disparados plano terapêutico singular e cuidados a serem realizados pelos diferentes serviços.
Conclui-se que o matriciamento em saúde mental proporciona um melhor acompanhamento e cuidado integral do usuário, assim como proporciona à APS a possibilidade de ordenar o cuidado em saúde mental na rede, tal como fortalecimento de vínculo do usuário dentro da APS. O diálogo intersetorial no matriciamento, possibilita às equipes mínimas o empoderamento para ofertar uma melhor assistência à saúde mental, assim como fortalecer o vínculo com os usuários do território, potencializando o cuidado em saúde. Dentro das práticas de cuidado integral, o matriciamento possibilita novas formas de acolhimento e escuta qualificada aos usuários, desse modo, proporciona possibilidade de cuidado ampliado em saúde. Baseado nisso, o matriciamento traz ao município a garantia do cuidado em saúde mental em seus vários níveis de atenção á saúde.