Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Larissa Maria Frota Cristino
Coautor(es)
Minuchy Mendes Carneiro Alves
Erlemus Ponte Soares
Antônio Alex da Silva Martins
José Alisson Gomes da Costa
Nádia Maria de Luna Silva
Francisco Emanoel Uchôa Barbosa
Shirley Cristianne Ramalho Bueno
Arethusa Morais de Gouveia Soares
Rui de Gouveia Soares Neto
A sazonalidade das doenças respiratórias e arboviroses impõe desafios significativos à organização da rede de atenção à saúde, com aumento expressivo da demanda por atendimentos e risco de sobrecarga dos serviços hospitalares e de urgência. No município de Fortaleza, esse cenário evidenciou a necessidade de adoção de estratégias que ampliassem o acesso e garantissem maior resolutividade na Atenção Primária à Saúde (APS). A experiência foi desenvolvida no contexto do Plano Municipal de Contingência para atendimento durante o período sazonal de 2026, envolvendo a integração entre vigilância em saúde, APS e rede pré-hospitalar e hospitalar. As ações foram direcionadas à população geral, com foco no manejo de casos de síndrome gripal e outras condições agudas de menor gravidade. Diante do aumento progressivo dos casos, foram implementadas estratégias baseadas no monitoramento contínuo dos atendimentos, com análise diária dos dados e organização da oferta de serviços conforme a demanda. Destaca-se a implantação de unidades de retaguarda na APS, com funcionamento ampliado aos finais de semana e articulação com os demais pontos da rede. Essa reorganização buscou fortalecer a APS como porta de entrada preferencial e coordenadora do cuidado, contribuindo para a ampliação do acesso, qualificação do atendimento e melhor distribuição da demanda entre os serviços de saúde.
Descrever a organização da Atenção Primária à Saúde no município de Fortaleza, por meio da implantação de unidades de retaguarda e monitoramento contínuo para o enfrentamento da sazonalidade de síndromes gripais, com foco na ampliação do acesso, qualificação do cuidado e suporte à rede hospitalar.
A experiência foi desenvolvida no município de Fortaleza, no contexto do Plano Municipal de Contingência para atendimento no período da sazonalidade, com atuação integrada entre vigilância em saúde, Atenção Primária à Saúde (APS) e rede pré-hospitalar e hospitalar. O monitoramento do cenário epidemiológico foi realizado por meio da análise dos atendimentos por síndrome gripal em todas as unidades de saúde do município, no período de 04 de janeiro a 20 de março de 2026, com acompanhamento por semana epidemiológica, permitindo a identificação do aumento progressivo da demanda ao longo do período. Esses dados foram obtidos a partir do sistema FastMedic, utilizado para registro e monitoramento dos atendimentos na rede municipal. A partir desse cenário, foi implantada, em 21 de fevereiro de 2026, a estratégia de unidades de retaguarda na APS, com funcionamento aos finais de semana e feriados, destinadas ao atendimento de casos leves e moderados. Para fins de análise desta experiência, foram considerados os dados do período de 21 de fevereiro a 15 de março de 2026. As unidades foram selecionadas de forma estratégica no território e vinculadas às unidades hospitalares e de urgência, com expansão progressiva conforme o aumento da demanda, passando de 8 para até 13 unidades em funcionamento. O monitoramento operacional da estratégia foi realizado por meio da consolidação diária de dados assistenciais em dois momentos (12h e 17h), a partir do acompanhamento pelas equipes no território, incluindo número de atendimentos por síndrome gripal, atendimentos gerais, atendimentos farmacêuticos, perfil por faixa etária, encaminhamentos e realização de testes diagnósticos. As equipes multiprofissionais das unidades de saúde foram responsáveis pelo acolhimento e atendimento dos usuários, conforme classificação de risco e protocolos assistenciais, com organização de fluxos entre os diferentes pontos da rede. As informações foram utilizadas para subsidiar a tomada de decisão em tempo real, permitindo ajustes dinâmicos na oferta de serviços, ampliação do número de unidades em funcionamento e qualificação da resposta assistencial durante o período sazonal.
Observou-se aumento expressivo dos atendimentos por síndrome gripal no município de Fortaleza ao longo do período de 04 de janeiro a 20 de março de 2026, totalizando 28.661 atendimentos, com crescimento progressivo nas semanas epidemiológicas e picos assistenciais nas semanas mais recentes. Observou-se maior concentração de atendimentos na faixa etária de 18 a 59 anos, seguida pelas faixas infantis, evidenciando o perfil familiar da demanda assistencial. Diante desse cenário, foi implementada, a partir de 21 de fevereiro de 2026, a estratégia de unidades de retaguarda na Atenção Primária à Saúde, com funcionamento aos finais de semana e feriados. No primeiro final de semana de monitoramento, foram realizados 1.222 atendimentos por síndrome gripal, evidenciando elevada demanda desde o início da intervenção. Ao longo dos finais de semana subsequentes, a demanda apresentou variações, com pico de 699 atendimentos por dia e média aproximada de 1.063 atendimentos por final de semana. Para responder a esse aumento, houve expansão progressiva do número de unidades em funcionamento, passando de 8 para 13 unidades, podendo alcançar até 20 unidades conforme a necessidade. Além dos atendimentos por síndrome gripal, observou-se média de 215 atendimentos gerais e cerca de 1.855 atendimentos farmacêuticos por final de semana, evidenciando elevada procura pelos serviços e capacidade de resposta da APS. Nos períodos com registro disponível, observou-se média diária de 63 usuários encaminhados a partir dos hospitais e 16 a partir das UPAs para acompanhamento na APS, enquanto os encaminhamentos para serviços hospitalares mantiveram-se reduzidos, com média de 3 por dia e 1 para as UPAs, indicando efetividade da estratégia na absorção de casos leves e moderados. A realização de testes diagnósticos também foi incorporada ao processo assistencial, com média de 12 testes rápidos e 3 RT-PCR por dia, contribuindo para a qualificação do manejo clínico e vigilância dos casos.
A experiência do município de Fortaleza demonstra que a organização da Atenção Primária à Saúde, baseada no monitoramento contínuo dos atendimentos e na análise oportuna dos dados, foi capaz de responder de forma efetiva ao aumento da demanda por síndrome gripal no período sazonal. A implementação das unidades de retaguarda, com funcionamento ampliado aos finais de semana e feriados, possibilitou absorção significativa dos casos leves e moderados, ampliando o acesso aos serviços, qualificando o cuidado e contribuindo para a organização do fluxo assistencial na rede de saúde. A estratégia evidenciou a importância da integração entre os níveis de atenção, do uso de informações em tempo real e da capacidade de adaptação da rede frente a cenários dinâmicos, fortalecendo o papel da APS como coordenadora do cuidado. Como principais aprendizados, destacam-se o monitoramento sistemático como ferramenta de gestão e a expansão progressiva da oferta de serviços conforme a demanda. A experiência apresenta potencial de replicação em outros contextos municipais, especialmente em situações de aumento sazonal da demanda assistencial.