Tema: GESTÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO NA SAÚDE
Autor(a)
Emília Maria Aerre Ferreira
Coautor(es)
Rayana Feitosa Nascimento
Cristiane Santiago Natário Branco
Ana Cristina de Castro Silva
Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) desempenham papel estratégico na consolidação da Atenção Primária à Saúde (APS), atuando como elo fundamental entre os serviços de saúde e a comunidade, especialmente no que se refere à territorialização do cuidado, ao fortalecimento do vínculo e à identificação das necessidades de saúde da população. Diante da complexidade dos territórios e das demandas crescentes da APS, torna-se imprescindível investir em processos contínuos de qualificação profissional, alinhados às realidades locais e às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, a educação permanente em saúde configura-se como um dispositivo essencial para a qualificação do processo de trabalho, ao promover a reflexão crítica sobre a prática, a atualização de conhecimentos e o fortalecimento das competências dos profissionais. Contudo, os desafios relacionados ao acesso às ações formativas, à integração entre gestão e equipes e à operacionalização de estratégias educativas no território demandam soluções inovadoras e factíveis no âmbito municipal. Foi a partir dessa necessidade que o município de Maracanaú (CE) implantou o PACS Itinerante, uma estratégia inovadora de educação permanente descentralizada, concebida para fortalecer a integração da gestão com os Agentes Comunitários de Saúde e qualificar suas práticas por meio de capacitações realizadas diretamente nos territórios. A iniciativa buscou ampliar o acesso ao conhecimento, valorizar o protagonismo dos ACS e fortalecer o cuidado em saúde, reafirmando a Atenção Primária como ordenadora do cuidado e coordenadora da rede de atenção à saúde.
OBJETIVO GERAL Relatar a experiência do PACS Itinerante como estratégia de educação permanente e integração entre gestão e Agentes Comunitários de Saúde e fortalecer a Atenção Primária à Saúde em Maracanaú (CE). OBJETIVOS ESPECÍFICOS Descrever a implantação do PACS Itinerante como estratégia territorializada de educação permanente Fortalecer a integração entre gestão e ACS Qualificar o desempenho dos ACS no território, com impacto no acesso, vínculo e acompanhamento.
Trata-se de estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido no âmbito da Atenção Primária à Saúde do município de Maracanaú. A experiência refere-se à implantação do PACS Itinerante, iniciada em 2023, estruturada como estratégia municipal de educação permanente descentralizada, voltada à qualificação do processo de trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e ao fortalecimento da integração entre gestão e equipes. O PACS Itinerante consiste na realização de encontros formativos periódicos, desenvolvidos de forma descentralizada nas Unidades de Saúde da Família e, quando necessário, no auditório da Secretaria Municipal de Saúde. A proposta fundamenta-se nos princípios da Educação Permanente em Saúde, priorizando a problematização do processo de trabalho a partir das situações concretas vivenciadas nos territórios. O público-alvo são os ACS. O planejamento das ações é realizado pela Gerência do Programa, em articulação com áreas técnicas da Secretaria e profissionais de referência, conforme a temática. Os conteúdos são definidos com base na análise de indicadores municipais, nas demandas apresentadas pelos ACS e nas prioridades epidemiológicas e assistenciais do município. As capacitações utilizam metodologias ativas, combinando exposição dialogada, estudo de casos, problematização de situações reais, simulação de registros nos sistemas de informação e construção coletiva de estratégias de intervenção. A abordagem busca qualificar tecnicamente os profissionais, aprimorar os registros, fortalecer o vínculo institucional e alinhar as práticas às diretrizes da APS. Entre as temáticas abordadas destacam-se: qualificação do cadastro individual e domiciliar e da visita domiciliar com ênfase no registro adequado financiamento da Atenção Primária à Saúde e seus impactos nos indicadores prevenção e controle das arboviroses acompanhamento da pessoa com diabetes imunização territorialização e integração entre vigilância em saúde e atenção básica. A estratégia inclui momentos de escuta qualificada e pactuação de encaminhamentos, contribuindo para o aprimoramento contínuo do processo de trabalho e fortalecimento da governança da APS no âmbito municipal.
A implantação do PACS Itinerante promoveu mudanças significativas na organização do processo de trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde, refletindo diretamente na qualificação das ações territoriais. Observou-se maior padronização das visitas domiciliares, melhoria na qualidade e completude dos cadastros individuais e domiciliares, bem como ampliação do registro adequado das atividades nos sistemas de informação em saúde. No âmbito dos indicadores, verificou-se avanço na atualização cadastral da população adscrita, fortalecimento do acompanhamento longitudinal das famílias e maior alinhamento das ações dos ACS às prioridades epidemiológicas do município, como vigilância das arboviroses, acompanhamento de pessoas com doenças crônicas e ampliação das coberturas vacinais. A qualificação dos registros contribuiu para maior consistência dos dados e melhor desempenho nos componentes vinculados ao financiamento da Atenção Primária à Saúde. A estratégia também fortaleceu o vínculo institucional entre gestão e ACS, ampliando os canais de comunicação, reduzindo ruídos operacionais e promovendo maior corresponsabilização pelos resultados assistenciais. A presença da gestão nos territórios favoreceu a escuta ativa das demandas das equipes e possibilitou intervenções mais ágeis e resolutivas. No que se refere à organização do trabalho, o PACS Itinerante contribuiu para maior clareza das atribuições dos ACS, fortalecimento da identidade profissional e valorização do protagonismo no território. A metodologia descentralizada e participativa estimulou a troca de experiências entre os profissionais, promovendo aprendizagem coletiva e maior segurança técnica na execução das atividades. De modo geral, a experiência evidenciou que a educação permanente territorializada constitui estratégia de baixo custo, alto impacto organizacional e potencial sustentável, contribuindo para a qualificação da Atenção Primária à Saúde e para a melhoria dos resultados assistenciais no município.
A experiência do PACS Itinerante demonstrou que a educação permanente territorializada, integrada à gestão municipal, é estratégia sustentável para qualificar o processo de trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e fortalecer a Atenção Primária à Saúde no município de Maracanaú (CE). A aproximação sistemática da gestão aos territórios e a formação orientada por necessidades reais consolidaram cultura de corresponsabilização, padronização de práticas e qualificação dos registros em saúde. Do ponto de vista gerencial, observou-se maior consistência dos dados, aprimoramento do monitoramento de indicadores e fortalecimento do planejamento baseado em evidências. O alinhamento da atuação dos ACS às prioridades epidemiológicas e aos componentes do financiamento da APS contribuiu para melhores resultados assistenciais e maior sustentabilidade organizacional. A estratégia itinerante ampliou o vínculo institucional, favoreceu a equidade no acesso à formação e qualificou fluxos e processos de trabalho. Conclui-se que investir na educação permanente dos ACS como eixo estruturante da gestão fortalece o território, aprimora indicadores e consolida um modelo de cuidado mais resolutivo, integrado e alinhado aos princípios do SUS.