Autor(a)
SÂMARA CALDAS NASCIMENTO
Coautor(es)
A partir da realização da assembleia de usuários no Centro de Atenção Psicossocial Geral II, foram apresentadas como sugestão pelos usuários e familiares a possibilidade da realização de novos projetos que levassem os participantes além dos muros institucionais. Dessa forma, acatando a sugestão das pautas abordadas na assembleia e levando em consideração que a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) tem como diretrizes essenciais a inclusão social, a autonomia e o exercício da cidadania, o projeto fotográfico Vozes e Narrativas foi desenvolvido como uma nova ferramenta de cuidado que tem no uso da fotografia um instrumento terapêutico de expressão para estimular a percepção e a criatividade dos participantes. O projeto teve como público-alvo os usuários do CAPS Geral II, localizado em um município do Ceará. Ademais, a proposta ainda buscou fortalecer o vínculo do público com o serviço e com o território e, ainda, promover o conhecimento sobre as técnicas básicas de fotografia e incentivar o contato dos participantes com os locais fotografados, a fim de promover a apreciação do patrimônio cultural, histórico e ambiental do município. Para além, houve também abertura para estimular práticas de cuidado integral e, dessa forma, a autonomia e o autoconhecimento dos participantes, através das atividades e do contato com a natureza.
O objetivo principal foi promover o cuidado em saúde mental por meio da captura de fotografias, estimulando a criatividade e a autonomia, além de fortalecer os vínculos sociais e territoriais dos participantes. E apresentou como objetivos específicos: a) fomentar o desenvolvimento de habilidades expressivas, bem como facilitar o conhecimento dos usuários do CAPS II sobre o uso da fotografia b) estimular a utilização da fotografia como meio de comunicação e expressão das vivências subjetivas e territoriais dos usuários c) Realizar passeios fotográficos para fortalecer os laços sociais e promover o sentimento de pertencimento dos usuários em relação ao seu território.
O projeto foi desenvolvido com um grupo fechado de 15 participantes. O número de participantes frequentes variou de 6 a 8 envolvidos e teve como metodologia a produção de fotografias como forma de identificação e representação dos espaços visitados e habitados. Inicialmente, foi realizada uma oficina de fotografia, ministrada por um fotógrafo, que abordou técnicas básicas para o uso de câmeras e smartphones. Essa aprendizagem foi aplicada na prática por meio de uma oficina híbrida, combinando teoria e experimentação. Além disso, houve uma seleção prévia de 5 locais a serem visitados ao longo de 4 encontros realizados externamente no mês de novembro de 2024, validada coletivamente no primeiro encontro do grupo. A partir dessa definição, foi construído um mapa digital destacando espaços históricos, culturais e ambientais do município, garantindo que cada visita ocorresse com a devida autorização dos setores responsáveis. A escolha desses pontos considerou sua relevância tanto para o território quanto para a população. Durante as visitas, os participantes foram convidados a registrar fotograficamente suas percepções sobre os espaços. Como parte do processo metodológico, foi criado um grupo no WhatsApp, um aplicativo de mensagens instantâneas, para que os participantes pudessem enviar coletivamente as imagens produzidas e comentar novamente sobre suas perspectivas.
Os resultados que foram atingidos com o projeto foram de grande impacto, considerando que buscou-se fortalecer os vínculos com o território, por meio de visitas aos patrimônios locais. Os participantes puderam conhecer e ressignificar os lugares que visitaram. Destaca-se que, através do registro fotográfico, houve uma maior interação entre os integrantes do grupo, sendo possível o compartilhamento de interpretações e sentimentos. O projeto ainda estimulou o desenvolvimento da expressão criativa dos participantes, e a troca de imagens no grupo de WhatsApp que aumentou o diálogo e gerou um maior vínculo entre eles. Esse aspecto foi de grande relevância, principalmente para aqueles que, em decorrência do contexto de saúde mental, no começo do projeto, apresentavam dificuldades de interação social. Acrescenta-se que este projeto também incentivou a colaboração entre o grupo, uma vez que os participantes tiveram que dialogar, compartilhar os recursos e combinar perspectivas. Além disso, houve estímulos do contato com a natureza, juntamente com a prática de atividades terapêuticas como caminhadas ao ar livre em conjunto com lanches compartilhados. Por fim, a fotografia se mostrou um importante instrumento terapêutico a ser usada, considerando que se apresentou como um novo canal de expressão e levou os participantes a descoberta pessoais, enquanto atuou em um nível de redução do estigma sobre a saúde mental.
Por meio do projeto, foi possível visualizar a relevância da realização de novas atividades voltadas para o cuidado em saúde mental realizadas fora dos limites institucionais. Destaca-se que a proposta inicial do projeto, de se configurar como uma ferramenta de cuidado, foi atingida com sucesso, tendo em vista que a fotografia, além de ser um meio de expressão artística, um hobby e um instrumento de trabalho, funcionou como um dispositivo terapêutico para estimular a criatividade, a interação social e a ressignificação de espaços coletivos do município. Por fim, o projeto trouxe impactos também na comunidade, tendo em vista que buscou desconstruir práticas de estigma e estereótipos relacionados à saúde mental, facilitando, assim, uma maior compreensão sobre o papel dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) enquanto serviço de base territorial que visa à inserção social dos usuários na comunidade. Desse modo, conclui-se que o uso das novas tecnologias, bem como da arte e da cultura alinhado aos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde podem ser importantes ferramentas para realizar o cuidado integral em Saúde Mental.