Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Liana Mara Rocha Teles
Coautor(es)
Magnólia de Sousa Rocha
Claudene Souza Rocha
Maria Silvania Freitas dos Santos
Lívia Rocha Matos
Eduardo Cândido de Oliveira
O município de São Gonçalo do Amarante (SGA) fica a 59km da capital cearense e conta com ampla extensão territorial, 834.394 km². Um município peculiar e desafiador para a implantação políticas públicas de saúde, tendo distritos populosos e de grande atividade econômica (Distrito Pecém) até comunidades longínquas, no sertão da cidade (a 54km da sede). Acompanhando o cenário epidemiológico nacional, em SGA, as principais causas de mortalidade são inerentes a complicações de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs). Dentro da Atenção Primária à Saúde o atendimento às DCNTs está, muitas vezes, limitado ao caráter assistencial, com consultas presenciais que norteiam um tratamento medicamentoso e o monitoramento de exames laboratoriais. O cenário pós-pandêmico mostrou uma população fragilizada, com DCNTs que se agravaram consideravelmente. A equipe de gestão percebeu que era necessário inovar e ir além, oferecer estratégias de promoção da saúde efetivas, que tivessem em seu escopo dinamicidade e profissionalismo. Daí surgiu o desafio: como elaborar uma política efetiva de política de promoção da saúde e prevenção de DCNTs em um município tão extenso e de tanta diversidade? Foi nesse cenário que surgiu, em dezembro/2021, o Projeto Vida Saudável, uma estratégia de promoção da saúde através de atividade física descentralizada, dinâmica, contínua e assistida por profissionais qualificados, atendendo aos princípios da acessibilidade, universalidade e integralidade do cuidado.
Apresentar a experiência de implantação do Projeto Vida Saudável no município de São Gonçalo do Amarante-CE.
O Projeto Vida Saudável tem como objetivo geral a realização de atividade física assistida em todos os distritos do município de SGA. Para a implantação do projeto, foram necessárias as seguintes ações: recrutamento de profissionais da área de educação física e líderes comunitários aquisição de equipamentos e insumos necessários à realização de treino funcional aquisição de blusas e squeeze para os participantes e adequação de espaços públicos (calçada plana e iluminação). Também foi organizado o fluxo de acesso ao projeto, o qual se dá através de convite por profissionais da APS (de usuários com DCNTs) e pelo convite de líderes comunitários. Para a inscrição no projeto, todos os usuários passam por avaliação médica e apresentam laudo de aptidão para a realização de atividade física. No Projeto Vida Saudável, as aulas possuem a seguinte estrutura: 10 min de alongamento, 20 min de treino funcional, 20 min de atividade rítmica/dança e 10 min de relaxamento. Assim, todas as atividades são conduzidas por dois profissionais: um educador físico e um professor de dança. Em cada comunidade, a equipe realiza duas atividades semanais, em duas opções de horário (5h e 6h da manhã ou 17h e 18h). O projeto encontra-se em fase de expansão assistida (ajustando os horários de acordo com a quantidade e assiduidade dos participantes). O monitoramento se dá através de planilha eletrônica, a qual contém perfil e assiduidade dos participantes.
O Projeto Piloto se deu em dezembro/2021, no distrito Croatá, com 32 participantes. Em três meses de implantação, o projeto com 305 participantes cadastrados e assíduos (frequência maior que 70%), com aulas fixas, duas vezes por semana, em todos os distritos do município. Dos 305 participantes, 98% são do sexo feminino. Quanto à localização, 9,6% são da Sede, 52,2% da Praia e 38,1% do Sertão. Isso denota a lacuna de acesso à atividade física nos distritos do município, já que a Sede dispõe de mais equipamentos como academias e calçadões para a prática de exercício físico. A idade média dos participantes é de 44,95 anos (DP13,50), variando entre 11 e 79 anos. Quanto às comorbidades, 15,1% possuem hipertensão e 14,8%apresentam diabetes. Quanto ao Índice de Massa Corpórea (IMC), 40,86% possuem sobrepeso, 18,68% obesidade grau 1, 7,39% obesidade grau 2 e 3,89% obesidade grau 3. Não houve correlação entre as variáveis IMC e idade dos participantes (coeficiente 0,077, p-valor: 0,22). Observa-se um público predominantemente jovem e que, em sua maioria, não possui DCNT estabelecida, mas possuem o sobrepeso/obesidade como grande fator de risco (independente da idade). Devido a isso, foi direcionada uma nutricionista específica para atendimento aos usuários do projeto. Em parceria com a Universidade Federal do Ceará, está sendo realizada pesquisa longitudinal para a avaliação do impacto do projeto na saúde física e mental dos usuários.
A cada dia, mais pessoas e comunidades procuram o projeto. A medida que o projeto se expande, os professores tentam adequar a aula ao perfil dos alunos (turmas com mais jovens e outras com mais idosos, turmas com pessoas que preferem músicas mais rítmicas e outras com músicas mais lentas, como em comunidades evangélicas). Os depoimentos emocionam, trazendo relatos desde a melhoria no âmbito físico (perda de peso, mais disposição), como no âmbito emocional (sensação de prazer e bem-estar, repercutindo positivamente na saúde de pessoas com diagnóstico depressão/ansiedade). Principalmente na zona rural, que possui poucas atividades lúdicas para a população, os dias de aula são aguardados com grande expectativa. Em dias específicos, as aulas do Projeto Vida Saudável são realizadas em parceria com o Projeto Flor do Campo, que fomenta o empreendedorismo de mulheres agricultoras (feira de artesanatos). Conclui-se que o Projeto Vida Saudável vem se mostrando uma estratégia efetiva para a promoção da saúde da população gonçalense, através de atividade física contínua, assistida e de fácil acesso, em aulas que trazem exercícios funcionais e musicalidade. A sua metodologia pode ser aplicada em outros municípios e nos diversos contextos.