Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Roberto Wagner Júnior Freire de Freitas
Coautor(es)
Suelen Duarte Brandão
Tallita Muniz da Silveira Figueira Cavalcante
Nayara Cristh Almeida da Silva de Oliveira
Glailce Rodrigues Melo Marques
Juliana Barcelos Barbosa Pelucio
Isabelle Penha Rodrigues
Olímpia Maria Freire de Azevedo
Lorieny Souza Rocha
Érica Sueanne Gonçalves Dias Linhares
Andressa Oliveira Braz Dias
A vacinação constitui uma das estratégias mais eficazes de prevenção de doenças e proteção coletiva em saúde pública, sendo o Programa Nacional de Imunizações (PNI) reconhecido por seu impacto positivo desde 1973. Nos últimos anos, entretanto, diversos municípios brasileiros têm enfrentado dificuldades para alcançar e sustentar coberturas vacinais adequadas, influenciados por fatores como hesitação vacinal, disseminação de informações falsas e os efeitos da pandemia de COVID-19. No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), cenário estratégico para a execução das ações de imunização, destacam-se desafios como a heterogeneidade de desempenho entre equipes, fragilidades na organização do processo de trabalho, baixa transparência no acompanhamento dos indicadores e limitações na tomada de decisão em tempo oportuno. O município de Caucaia (CE), com APS estruturada em seis distritos sanitários e 86 equipes de Saúde da Família, identificou, no início da gestão em 2025, a necessidade de fortalecer a governança das ações de imunização e qualificar o monitoramento dos indicadores vacinais. Com a implementação do Novo Financiamento da APS, esse cenário tornou-se ainda mais relevante, considerando o monitoramento de sete vacinas vinculadas ao componente qualidade. Diante desse contexto, foi desenvolvido e implantado o Protocolo PAVE, estratégia baseada na integração entre planejamento participativo, alinhamento permanente das equipes, monitoramento contínuo de dados e padronização dos processos de trabalho. O protocolo encontra-se em execução em todas as salas de vacinação do município, tendo como público-alvo as equipes da APS, com foco na qualificação da gestão e na melhoria do desempenho dos indicadores vacinais.
Objetivo geral Apresentar a experiência de implementação e os efeitos do Protocolo PAVE como estratégia inovadora de gestão das ações de imunização voltada à melhoria do desempenho dos indicadores vacinais da APS em Caucaia–CE. Objetivos específicos Avaliar a efetividade do Protocolo PAVE como estratégia de gestão das ações de imunização alinhada ao Novo Financiamento da APS. Analisar o potencial de exequibilidade e replicabilidade do Protocolo PAVE, no cenário da imunização, em diferentes municípios. Fortalecer o planejamento das ações de imunização por meio do microplanejamento participativo. Promover o alinhamento permanente entre gestão e equipes com base na análise sistemática de indicadores. Implantar estratégia de monitoramento contínuo e em tempo oportuno da produção vacinal. Padronizar os processos de trabalho das salas de vacina por meio da construção e validação coletiva de Procedimentos Operacionais Padrão (POP).
Trata-se de um relato de experiência sobre a implementação do Protocolo PAVE no município de Caucaia, no âmbito da APS. PAVE é um acrônimo e essa estratégia foi estruturada em quatro eixos integrados: Planejamento participativo (P): construção coletiva do microplanejamento anual de ações de vacinação, com revisão periódica (quadrimestral) baseada nos indicadores e nas necessidades territoriais. Alinhamento permanente (A): reuniões sistemáticas entre a gestão e todas as equipes para análise de desempenho, pactuação de estratégias e fortalecimento da comunicação. Vigilância baseada em dados (V): monitoramento contínuo da produção vacinal, a partir dos sistemas de informação, com análises comparativas e compartilhamento de resultados em tempo oportuno. Estruturação de processos (E): criação e oficialização de um grupo de trabalho (GT) responsável pela elaboração, validação e implementação de Procedimentos Operacionais Padrão (POP) nas salas de vacina. O protocolo foi elaborado a partir da identificação de 4 (quatro) principais problemas encontrados no município, diretamente relacionados ao não alcance da cobertura vacinal, a saber: 1. Microplanejamento anual construído sem a participação e representatividade dos profissionais que estão nos seis distritos de saúde. 2. Comunicação ineficaz entre a gestão e as equipes. 3. Fragilidade de uma vigilância em saúde que pudesse informar, continuamente e em tempo oportuno, os dados relacionados à imunização do município, integrando Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) e do LocalizaSUS. 4. Ausência de POP validados e adaptados à realidade de cada distrito de saúde. O diagnóstico situacional foi realizado nos três primeiros meses de 2025. Em abril de 2025, o PAVE foi proposto e, a partir de maio de 2025, passa a ser implementado em Caucaia. O caráter inovador reside na integração desses componentes em um protocolo estruturado de gestão orientado por dados e com potencial de impacto positivo nos desfechos relacionados à cobertura vacinal alinhada ao Novo Financiamento da APS.
A implementação do Protocolo PAVE resultou em melhora ampla, consistente e estatisticamente significativa nos indicadores vacinais monitorados pelo SIAPS, com mais de 90% das equipes apresentando evolução em indicadores-chave do componente qualidade do financiamento da APS. No indicador de vacinação contra HPV, a média das equipes aumentou de 30,6 para 53,1 pontos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, com ganho médio de 22,5 pontos por equipe. Observou-se melhora em 79 das 86 equipes (91,9%), com mudança relevante do perfil de classificação e redução expressiva das equipes em faixas de menor desempenho (p<0,001). No indicador de vacinação da influenza em idosos, houve incremento robusto, com aumento da média de 65,4 para 122,6 pontos e ganho médio de 57,2 pontos por equipe. No total, 84 equipes (97,7%) apresentaram melhora, com efeito de grande magnitude e trajetória ascendente sustentada ao longo dos meses (p<0,001). Para a vacina dTpa em gestantes, a média passou de 6,95 para 11,15 aplicações por equipe, com melhora em 69 equipes (80,2%) e diferença estatisticamente significativa (p<0,001). No que se refere ao desenvolvimento infantil, 27 equipes (31,4%) apresentaram melhora e 8 (9,3%) mantiveram desempenho, evidenciando heterogeneidade inerente ao indicador composto, mas com experiências exitosas relevantes. Destaca-se que já no primeiro mês pós-intervenção (junho de 2025), foi possível observar melhora nos indicadores, indicando efeito precoce da estratégia. Como evidência da capacidade operacional da rede, o município realizou a imunização de 100% dos trabalhadores da APS (1.400 pessoas) em apenas 3 dias úteis, demonstrando elevada capacidade de mobilização e resposta coordenada.
O Protocolo PAVE demonstrou elevada efetividade na qualificação da gestão das ações de imunização, promovendo melhorias consistentes e estatisticamente significativas nos indicadores vacinais da APS. A estratégia evidenciou que a combinação entre planejamento participativo, monitoramento contínuo de dados e alinhamento permanente das equipes é capaz de produzir impacto real no desempenho das equipes, com ampla proporção de melhoria e manutenção de tendência ascendente ao longo do tempo. Os resultados reforçam o potencial da estratégia para qualificar o desempenho municipal nos indicadores vinculados ao financiamento da APS, contribuindo para uma gestão mais eficiente, orientada por evidências e com maior capacidade de resposta. Trata-se de uma intervenção de alta aplicabilidade, baixo custo e elevado potencial de replicação, configurando-se como modelo viável para o fortalecimento da imunização no Sistema Único de Saúde.