Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
ANDRYELE VASCONCELOS MUNIZ
Coautor(es)
Danielle Samira Vasconcelos Araújo
Evaldo Eufrásio Vasconcelos
Luanda Vasconcelos do Nascimento Dutra
Pedro Henrique Freitas Sousa
Catarina de Vasconcelos Pessoa
Andréa Carla Brandão Vasconcelos
A saúde bucal no Sistema Único de Saúde (SUS), orientada pela Política Nacional de Saúde Bucal (Brasil Sorridente), fundamenta-se na ampliação do acesso, na integralidade do cuidado — incluindo ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação — e no monitoramento por indicadores de desempenho, atualmente vinculados ao componente de qualidade do Ministério da Saúde. O acesso universal e gratuito aos serviços de saúde, garantido pela Constituição Federal de 1988, ainda apresenta desafios relacionados à oferta, organização dos serviços e adequação às necessidades territoriais. No município de Cruz, Ceará, identificaram-se fragilidades no acesso aos serviços odontológicos e na integração entre os níveis de atenção, refletindo em baixa cobertura assistencial e desempenho insatisfatório dos indicadores. A experiência foi desenvolvida nos anos de 2024 e 2025, tendo como público-alvo a população adscrita às equipes de Saúde da Família. Diante desse cenário, a reorganização da Rede de Atenção à Saúde Bucal foi motivada pela necessidade de qualificar o processo de trabalho das equipes, ampliar o acesso e fortalecer a articulação entre a Atenção Primária à Saúde e a Atenção Especializada, representada pelo Centro de Especialidades Odontológicas (CEO). A Atenção Primária atua na promoção, prevenção, diagnóstico e tratamento dos agravos bucais, enquanto a Atenção Especializada assegura a continuidade do cuidado e maior resolutividade. O monitoramento sistemático dos indicadores assistenciais constituiu ferramenta essencial para avaliação das ações implementadas, considerando parâmetros ministeriais, como a média de procedimentos por habitante/ano, contribuindo para o aprimoramento da qualidade da atenção e o fortalecimento da rede de cuidados em saúde bucal.
O presente estudo tem como objetivo analisar de forma comparativa os indicadores de produção em saúde bucal na Atenção Primária e no Centro de Especialidades Odontológicas, nos anos de 2024 e 2025, identificando avanços como ampliação do acesso ao atendimento odontológico, fragilidades e o nível de integração da rede de atenção. •Avaliar o desempenho dos indicadores de saúde bucal na Atenção Primária e no Centro de Especialidades Odontológicas nos anos de 2024 e 2025 •Identificar as principais fragilidades no acesso e na organização da Rede de Atenção à Saúde Bucal no município de Cruz •Descrever as estratégias adotadas para reorganização do processo de trabalho das equipes de saúde bucal e qualificação da assistência •Analisar os efeitos das intervenções na ampliação do acesso, na cobertura assistencial e na produção dos serviços odontológicos •Verificar o fortalecimento da articulação entre a Atenção Primária e a Atenção Especializada após a reorganização da rede •Evidenciar a melhoria da resolutividade dos serviços de saúde bucal a partir das ações implementadas.
Trata-se de um estudo descritivo, comparativo e quantitativo, realizado a partir de dados secundários provenientes do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS), do e-SUS APS e de relatórios do DigiSUS Gestor. Foram analisadas variáveis como população adscrita, programação assistencial, procedimentos realizados, percentual de cobertura e produção por especialidade no CEO. Em 2024, a Atenção Primária apresentou baixa cobertura assistencial, com 18.634 atendimentos individuais realizados, correspondendo a 26% de cobertura e média de aproximadamente 0,6 procedimento por habitante, valor muito abaixo do parâmetro ministerial. Nenhuma das 9 atingiu a meta estabelecida, evidenciando limitações no acesso da população aos serviços odontológicos ou possíveis fragilidades no registro das informações. No mesmo período, o CEO apresentou desempenho desigual entre as especialidades, com elevada produção em procedimentos básicos (274%) e periodontia (113%), desempenho próximo da meta em endodontia (97%) e baixa cobertura em procedimentos cirúrgicos (13%), indicando fragilidade na oferta dessa especialidade e possível limitação estrutural ou de recursos humanos. Em 2025, observa-se mudança significativa no cenário. Na Atenção Primária, os dados apontam aumento expressivo da produção, com percentuais variando entre 115% e 231% no período analisado, demonstrando melhora no desempenho das equipes e maior alcance das metas assistenciais. Além da implantação de 3 novas equipes de saúde bucal, atingindo a cobertura de 100% em relação as equipes de saúde da família. Na atenção especializada, o CEO apresentou evolução importante em todas as especialidades, com procedimentos básicos alcançando 317%, endodontia 101%, periodontia 149% e cirurgias 98%. Ainda no mesmo ano, o município aderiu à rede de cuidado de pessoas com necessidades especiais e realizou o credenciamento do laboratório regional de prótese dentária. Dessa forma, evidencia-se maior equilíbrio na oferta dos serviços e ampliação do acesso, por meio de estratégias como análise da demanda prioritária, reorganização da agenda das equipes de saúde bucal, implantação do acolhimento com classificação de risco para urgências odontológicas, ampliação dos atendimentos programados e preventivos, realização de ações educativas em escolas e comunidades, fortalecimento da integração entre a equipe de saúde bucal e a Estratégia Saúde da Família e organização do fluxo de encaminhamento para os serviços especializados.
A análise integrada dos dados evidencia que, em 2024, o município apresentava um cenário de desarticulação da rede de atenção à saúde bucal, caracterizado por baixa cobertura na Atenção Primária (26% e média de 0,6 procedimento por habitante) e produção desigual na Atenção Especializada, indicando fragmentação do cuidado, limitações de acesso e possível fragilidade nos registros. No Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), observou-se elevado desempenho em procedimentos básicos e periodontia, desempenho próximo da meta em endodontia e baixa cobertura em cirurgias, evidenciando desequilíbrio na oferta dos serviços especializados. Em 2025, verifica-se mudança expressiva nesse cenário, com reorganização dos serviços e melhora significativa dos indicadores em ambos os níveis de atenção. Na Atenção Primária, houve aumento da produção, com equipes alcançando percentuais entre 115% e 231%, além da ampliação da cobertura assistencial com a implantação de novas equipes de saúde bucal. Na Atenção Especializada, o CEO apresentou evolução em todas as especialidades, com destaque para a ampliação dos procedimentos cirúrgicos, anteriormente deficitários. Observa-se ainda a incorporação de novos serviços, como a adesão à rede de cuidado à pessoa com necessidades especiais e o credenciamento do laboratório regional de prótese dentária, ampliando a resolutividade da atenção especializada. De forma integrada, os resultados demonstram a transição de um cenário de baixa cobertura e fragmentação em 2024 para um contexto de maior equilíbrio, ampliação do acesso e fortalecimento da integração entre Atenção Primária e Atenção Especializada em 2025. Esse avanço está diretamente relacionado à reorganização dos processos de trabalho, qualificação da gestão e adoção de estratégias voltadas à melhoria do acesso, da continuidade do cuidado e da integralidade da assistência.
Conclui-se que houve evolução significativa na organização e na oferta dos serviços de saúde bucal entre os anos de 2024 e 2025, evidenciada pelo aumento da produção, ampliação da cobertura assistencial e maior equilíbrio entre as especialidades no Centro de Especialidades Odontológicas. A transição de um cenário de baixa cobertura e fragilidade na oferta dos serviços para um contexto de maior resolutividade e integração da rede demonstra o impacto positivo das estratégias adotadas na reorganização do processo de trabalho das equipes. Destaca-se a importância do monitoramento contínuo dos indicadores, da qualificação dos registros nos sistemas de informação e do fortalecimento da articulação entre Atenção Primária e Atenção Especializada como elementos fundamentais para garantir o acesso, a integralidade do cuidado e a melhoria da qualidade da assistência em saúde bucal no SUS.