Autor(a)
TATIANE MELO RAMOS LIMA
Coautor(es)
Camila Thainá Holanda de Castro
Rafael Machado Mendes
Lucinagela Midia Gomes de Sousa
Elecsandra de Lima Oliveira
Ana Carla Souza
As Doenças Cardiovasculares (DCV) são a principal causa de mortes com contribuição significativa para a morbidade e altos custos na Saúde. A Reabilitação Cardiovascular e Metabólica (RCVM) é um processo terapêutico de cuidado com abordagem multiprofissional e interdisciplinar como uma forma de prevenção secundária. Essa prática é considerada padrão ouro para prevenção de DCV segundo as Sociedades de Saúde Cardiovascular. Muito disseminada em países desenvolvidos, mas no Brasil, existem poucos serviços públicos capacitados para essa prática. No Ceara, estratégias de RCVM publica são desenvolvidas a nível hospitalar apenas em Fortaleza, com perfil doentes em estágios mais avançados da doença e acompanhados nos ambulatórios hospitalares. A oferta de vagas é insuficiente, o acesso é restrito e existem poucos profissionais capacitados para trabalhar na área. Contudo, essa iniciativa poderia ser utilizada na Atenção Primária a Saúde (APS) com doentes de baixo risco cardiovascular quando as chances de reabilitação são promissoras, visto que iniciadas previamente aumenta o desfecho favorável reduzindo o risco complicações, necessidade de internações, angioplastia e até cirurgias cardíacas. A RCVM na APS em Itaitinga foi criada em abril de 2022 como um projeto piloto para reabilitar pacientes com hipertensão, diabetes, dislipidemia, síndrome metabólica e sobrepeso visando integralidade, responsabilização para o autocuidado, controle, prevenção de complicações e mortes precoce por DCV.
Relatar a experiência de um projeto piloto de Reabilitação Cardiovascular e Metabólica (Projeto Viver Bem Itaitinga) na Atenção Primaria a Saúde visando empoderar os pacientes para o autocuidado, prevenção secundária e atenção interdisciplinar para limitação de incapacidades, melhoria da qualidade de vida e controle das doenças cardiovasculares.
Trata-se de um Relato de experiência. Os pacientes que se enquadravam nos critérios de inclusão foram encaminhados da APS após avaliação médica e consulta de enfermagem para avaliação funcional com a fisioterapia através de ficha coleta de dados que incluía anamnese, exame físico, antropometria, exames laboratoriais, teste de sentar e levantar de 1min (TSL1M) e Teste do Degrau de 6min. Através da FCmax atingida no teste do Degrau e da FC reserva (exercícios na intensidade entre 50 a 80% da FC de reserva (FC pico – FC repouso)* FC alvo = FC repouso + (FC pico – FC de repouso) x percentual), foi estabelecido um protocolo de exercício físico (50 a 60% de intensidade), no qual foi prescrito um programa de exercício do tipo multicomponente com 20 a 30min exercício aeróbio (mantendo a FC dentro do previsto para cada um usou a escala de BORG para avaliar a dispneia e o teste da Fala, no qual a execução dos exercícios em intensidade em que a respiração seja ofegante, porém controlada, de modo que se consiga completar uma frase sem pausas. O protocolo individual era realizado duas vezes por semana durante 60min. Nos demais dias o paciente recebia orientação para manter-se ativo por 50min mantendo a mesma intensidade. Os valores de pressão arterial, FC e BORG eram mensurados no repouso, no esforço e ao final do relaxamento. Todos os pacientes receberam acompanhamento nutricional e psicológico em grupo e individual quando necessário.
Os principais ganhos apontados pela equipe foram: redução do peso corporal, dos níveis pressóricos, melhora no perfil lipídico, glicemia de jejum, alimentação mais equilibrada e moderada, se tornaram ativos fisicamente, aumentou capacidade funcional, força e resistência muscular, tolerância ao esforço, redução níveis de fadiga e de estresse. Melhorou autoconhecimento para trabalhar as emoções e a capacidade de enfrentamento para lhe dar com uma doença crônica como hipertensão e diabetes. Observou-se uma melhor evolução clínica após abordagem no biopsicossocial para os indivíduos afetados, assim como promoveu o controle dos fatores e risco e, em casos leves, houve uma remissão do quadro através de mudanças reais no estilo de vida verificados após redução da quantidade de medicamentos e ajustes nas doses e necessidade de uso de algumas medicações. É um espaço de possibilidade ricas de atenção interdisciplinar para gerar bons frutos porque essa intervenção propicia um espaço social de produção de saúde, de rompimento da abordagem medico-centrada, empoderamento para autocuidado e (re)significação de saberes e práticas interdisciplinares dos profissionais, com valorizando da vida e dos afetos, por meio de atividades que levaram em conta o saber das pessoas, promovendo a inclusão e participação social no seu processo de cuidado.
O programa de RCVM foi desenvolvido com o propósito de restaurar a condição física, social e emocional dos pacientes hipertensos e diabéticos e usa o exercício físico como principal ferramenta terapêutica não medicamentosa. Todos foram impactados sobre mudança de vida, resignação de práticas e desejos e não apenas ordens para mudar o estilo de vida. A dificuldade de cuidar desse perfil da população na APS é conhecida, porém, pouco se fala a respeito de programas de RCVM na APS. Deste modo, discutir a possibilidade de implantação desses programas na APS pode servir como ponto de partida para elaborar ações de incorporação destes programas nas comunidades. Para tanto, o embasamento em evidências através de protocolos clínicos construídos especificamente para o contexto da prática local, deve ser considerado, assim como os aspectos sociodemográficos da população atendida. Faz-se necessário fortalecer a APS, a atuação interprofissional e a rede de cuidado, pois um tratamento multidisciplinar é mais eficaz que simples conselhos nas mudanças de estilo de vida, aumenta a adesão ao tratamento e produz resultados na prevenção das DCV.