Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Francisca Michele Paulino da Silva
Coautor(es)
O aleitamento materno exclusivo (AME) até os seis meses constitui uma das estratégias mais efetivas de promoção da saúde infantil, contribuindo para a redução da morbimortalidade, prevenção de infecções e fortalecimento do vínculo entre mãe e bebê. Apesar dos benefícios amplamente reconhecidos, dificuldades técnicas no manejo da amamentação, insegurança materna e orientações divergentes entre profissionais ainda favorecem o desmame precoce. No município de Maracanaú (CE), identificou-se fragilidade na condução das intercorrências relacionadas ao aleitamento no período puerperal, especialmente na articulação entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e o Banco de Leite Humano. A ausência de fluxos estruturados dificultava o acesso oportuno ao suporte especializado, comprometendo a continuidade do cuidado. Diante desse cenário, foi implementada uma estratégia municipal de integração entre APS e Banco de Leite Humano, com organização de fluxo assistencial e qualificação permanente das equipes. A iniciativa busca estruturar uma rede territorial de cuidado que identifique precocemente dificuldades na amamentação, garanta suporte especializado e promova o aleitamento materno exclusivo como prática sustentada no território.
Objetivo Geral Fortalecer o aleitamento materno exclusivo por meio da integração estruturada entre a Atenção Primária à Saúde e o Banco de Leite Humano no município de Maracanaú. Objetivos Específicos • Identificar precocemente dificuldades na amamentação durante o puerpério no território • Organizar fluxo de encaminhamento oportuno ao Banco de Leite Humano • Qualificar anualmente os profissionais da Atenção Primária para manejo do aleitamento materno • Reduzir o desmame precoce e fortalecer a linha de cuidado materno-infantil no município.
A experiência consiste na implantação de um modelo municipal integrado de cuidado ao aleitamento materno, articulando a Atenção Primária à Saúde (APS) e o Banco de Leite Humano (BLH) por meio de fluxo assistencial pactuado e acompanhamento compartilhado das puérperas com dificuldades na amamentação, fortalecendo a APS como coordenadora do cuidado e ampliando o acesso ao suporte especializado nas 28 Unidades de Saúde da Família do município. Inicialmente foi realizado diagnóstico situacional da rede de atenção materno-infantil, identificando fragilidades no manejo das intercorrências relacionadas ao aleitamento no puerpério. A partir dessa análise, estruturou-se um fluxo municipal que organiza o cuidado desde a identificação precoce das dificuldades nas Unidades de Saúde da Família até o encaminhamento oportuno ao Banco de Leite Humano, garantindo continuidade e resolutividade do cuidado. As equipes da APS passaram a realizar busca ativa de puérperas durante consultas e visitas domiciliares, com participação estratégica dos Agentes Comunitários de Saúde, favorecendo a identificação precoce das dificuldades na amamentação. Nos casos identificados, o manejo inicial ocorre nas unidades, com orientações técnicas e apoio às mães. Quando necessário, as puérperas são encaminhadas ao BLH para atendimento especializado, manejo de intercorrências e fortalecimento da continuidade da amamentação. Como estratégia de sustentabilidade, o município estruturou um processo de educação permanente para os profissionais da rede. Desde 2023, são realizadas capacitações anuais inseridas na programação do Agosto Dourado, envolvendo aproximadamente 650 profissionais da APS, entre médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas, equipes multiprofissionais (eMulti) e Agentes Comunitários de Saúde. A formação é conduzida pela equipe do banco de leite, enfermeira, farmacêutica e técnicas de enfermagem, e utiliza metodologias participativas, como encenações e simulações de situações do cotidiano, além de orientações sobre as atribuições de cada categoria profissional no apoio ao aleitamento materno. Além disso, sempre que há admissão de novos profissionais nas equipes, aqueles que ainda não participaram da capacitação são incluídos na programação formativa, garantindo atualização contínua e fortalecimento do cuidado em rede nas 28 unidades do município.
A implementação da estratégia produziu impactos assistenciais e organizacionais relevantes na rede municipal de saúde. Observou-se ampliação do acesso das puérperas ao suporte especializado do Banco de Leite Humano, possibilitando manejo mais qualificado das intercorrências relacionadas ao aleitamento materno. A pactuação do fluxo assistencial contribuiu para reduzir orientações divergentes entre profissionais e fortalecer a coordenação do cuidado pela Atenção Primária. A sala de apoio à amamentação no BLH consolidaram-se como espaços resolutivos de acolhimento e orientação, favorecendo a continuidade do aleitamento materno e aumentando a segurança das mães no manejo da amamentação. A estratégia também promoveu importante processo de qualificação das equipes da APS por meio das capacitações anuais, fortalecendo competências técnicas e ampliando a capacidade de intervenção precoce diante das dificuldades relatadas pelas puérperas. Como resultado, observou-se fortalecimento da linha de cuidado materno-infantil no município, com melhoria da articulação entre serviços da rede, maior resolutividade da Atenção Primária e avanços na promoção do aleitamento materno exclusivo.
A experiência demonstra que a integração estruturada entre a Atenção Primária à Saúde e o Banco de Leite Humano fortalece a resolutividade da rede de atenção materno-infantil e contribui de forma efetiva para a promoção do aleitamento materno exclusivo. Ao articular cuidado territorial, suporte especializado e educação permanente das equipes, a estratégia consolida uma rede de cuidado capaz de identificar precocemente dificuldades na amamentação e ofertar apoio qualificado às puérperas. Trata-se de uma iniciativa de baixo custo, alta aplicabilidade e elevado potencial de replicabilidade em outros municípios, por utilizar dispositivos já existentes na rede de saúde e fortalecer a coordenação do cuidado pela Atenção Primária. A experiência reafirma o papel estratégico da APS na proteção da infância e na garantia das diretrizes do Sistema Único de Saúde, demonstrando que redes integradas de cuidado podem produzir impactos concretos na saúde materno-infantil.