Autor(a)
LUCIANA RODRIGUES CORDEIRO
Coautor(es)
Mary Anne Medeiros Bandeira
Cristiane Fonseca Ximenes de Castro
Geanne Maria Costa Torres
Jéssica Pinheiro Carnaúba
Francisco Vilemar Pinto Carneiro
Jane Ribeiro Aragão
Cláudia Cybele Lessa da Páscoa Oliveira
Ingrid Morais de Freitas
Lisiane de Oliveira Forte
Nas últimas décadas, surgiu um aumento global das doenças relacionadas ao trabalho, especialmente aquelas ligadas aos riscos psicossociais. O trabalho é essencial para o desenvolvimento humano, mas pode causar sofrimento físico e mental, por vários motivos, como as condições de saúde, segurança inadequada e em contextos em que o profissional é submetido ao assédio moral. No ambiente de trabalho, o assédio moral configura-se como conduta abusiva de modo repetido ou sistematizado, contra a dignidade, integridade psíquica ou física de uma pessoa, com finalidade de provocar terror psicológico e desequilíbrio psíquico. Sabe-se que o indivíduo que assedia alguém, procura desestabilizar o emocional, causando constrangimentos, abalos psíquicos ou situações vexatórias. Tal prática provoca diversas consequências negativas, como na relação social da vítima, na relação familiar, na relação profissional, além de ser capaz de provocar adoecimento físico e mental. No contexto da Atenção Básica ainda se propaga um campo de guerra, perpetuado pela falta de respeito, manifestações de desdém, humilhantes e constrangedoras, afetando a dignidade da pessoa humana e, consequentemente, causando transtornos psicológicos à saúde do trabalhador.
Relatar a experiência sobre os prejuízos e caminhos percorridos no ambiente de trabalho, após sofrimento psicológico, com fatos relacionados às violências provocadas por assédio moral na Atenção Básica.
Trata-se de um relato de uma intervenção vivenciada a partir da experiência de trabalhadores de saúde que atuam em equipes de saúde da Atenção Básica, no município de Fortaleza, durante o período de 2022 a 2024. A violência foi sofrida por dois servidores públicos assediados moralmente no trabalho, sendo humilhados e agredidos com palavras, atos, gestos e atitudes abusivas, colocando-os em perigo o seu emprego e a qualidade do trabalho devido as ameaças potenciais dos assediadores. Com os impactos psicológicos do assédio moral no ambiente de trabalho, os trabalhadores procuraram apoio dos demais profissionais em serviço, contudo não tiveram o apoio necessário para denunciar as situações de assédio que enfrentavam. Além disso, buscaram apoio psicológico, pois este sofrimento ocasionou transtornos mentais que levaram ao afastamento de suas atividades laborativas, bem como denunciaram aos órgãos competentes, como a Secretária de Saúde e Poder Público, como medidas disponíveis para sua prevenção e enfrentamento.
O assédio moral sofrido pelos trabalhadores reverberou em um elevado nível de stress, desencadeadores de depressão, síndrome do pânico, tristeza, irritabilidade, autojulgamento e culpabilização, além do desejo de não ir ao ambiente de trabalho por medo e vergonha. Alguns colegas de trabalho expressaram desprezo e descaso ante a violência sofrida por esses trabalhadores, evidenciando falta de apoio às condutas abusivas, atos hostis, humilhações e constrangimentos sofridos. Tal situação demonstrou a invisibilidade e solidão dos profissionais assediados, além de prejuízos ao processo de trabalho, tendo em vista o distanciamento e a dificuldade de articulação de ações em conjunto, sendo evidenciado em uma delas o sofrimento pela desqualificação de sua imagem no ambiente laboral. Essa vivência e sofrimento ocasionado pelo assédio moral, surgiu a necessidade de afastamento do trabalho, diante das implicações sofridas no processo de adoecimento e impossibilidade de prestar serviço adequado à população. Diante disso, tornou-se imprescindível o acompanhamento médico e psicológico, para recuperação, apoio e superação, além da atitude necessária da denúncia, à nível da Secretaria de Saúde e em órgãos do Poder Judicial, pois as violências sofridas decorrentes do assédio moral têm como pano de fundo a gestão organizacional.
Percebeu-se que a falta de ação da gestão, em afastar o agressor do ambiente de trabalho em tempo hábil, promoveu prejuízos aos trabalhadores e ao serviço, por haver dificuldade em conviver com alguém que proferiu agressão. Durante o período do auge da violência, ocorreu a ausência e isolamento da vítima, privando a população de seus serviços e afastamento do grupo de trabalho. Em contrapartida, após a denúncia, o agressor passou a vislumbrar as vítimas com outra percepção, passando a respeitá-las em seu processo de trabalho, evitando assédio, promovendo um ambiente laboral salubre. O assédio moral é um tema complexo e torna-se difícil fornecer uma solução abrangente para sua prevenção e combate, sem o apoio e avaliação da situação por órgãos da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza. Sugere-se a criação de diretrizes para prevenção e preservação da saúde do trabalhador, com atuação do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) de Fortaleza. Constatou-se a importância da denúncia e a necessidade de inserir um profissional psicólogo do CEREST, nos processos de cuidado e comissão de assédio ao trabalhador.