Autor(a)
Ana Karen Pereira de Souza
Coautor(es)
Antonia Raquel Lopes Bezerra
Erika Rachel Pereira de Souza
Jéssica Pinheiro Carnaúba
Liane Evangelista de Alencar
O acesso de primeiro contato, funcionando como uma das portas de entrada ao Sistema único de Saúde (SUS), sendo considerado um dos atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde (APS). No entanto, existe a percepção de que o cuidado na APS não ocorre de forma facilitada, conforme preconizado. Uma das barreiras de acesso ocorre devido ao processo de trabalho das equipes, especialmente pelo modelo de agendamento e atendimento à demanda espontânea. Na cidade de Mombaça, Ceará, vem sendo implantada as Unidades de Saúde na Hora, com extensão do horário ininterrupto das 7 às 19 horas. Uma dessas unidades consiste na Unidade de Atenção Primária à Saúde (UAPS) Recreio, em que foram percebidas dificuldades em relação aos fluxos e rotinas nesse modelo de atenção. Dessa forma, quais ações e estratégias podem ser implementadas, a fim de aperfeiçoar o processo de atendimento nessa UAPS?
Relatar as experiências dos atores quanto a reorganização do fluxo de atendimento na UAPS Recreio. Como objetivos específicos: possibilitar acessibilidade, cuidado em saúde e fortalecimento da APS, haja vista o papel de ordenadora do cuidado, os benefícios da continuidade da assistência e resolutividades deste nível de atenção à saúde.
Trata-se de um estudo descritivo do tipo relato de experiência em relação a reorganização do processo de trabalho da UAPS Recreio de Mombaça, Ceará, durante o ano de 2023. Essa UAPS apresenta duas equipes de saúde. Inicialmente foi necessário analisar os relatórios de produção mensal, percebendo assim, o número elevado de demanda espontânea e poucos atendimentos agendados, evidenciando falhas no cuidado continuado e descontinuidade na atenção às condições crônicas. A partir desse entendimento, foi necessário definir fluxos e processos, que foram construídos em conjunto com a equipe durante reuniões de planejamento. Utilizou-se como ferramenta, o ciclo administrativo, que compõem o conjunto de atividades necessárias para organizar o serviço de maneira sequencial e contínua, sendo composto por quatro fases: Planejamento Organização Execução e Avaliação.
Primeira fase: planejamento. Foram analisadas as dificuldades, como número de atendimento à demanda espontânea elevada, falta de agendamento, ausência de vínculo para a equipe de referência e sobrecarga de trabalho, por não haver um fluxo definido de atendimentos. Segunda fase: organização do espaço, estruturando sala de triagem de forma acolhedora com escuta e gerenciamento das competências profissionais de cada componente da equipe. Terceira fase: execução. Foi realizada reuniões de equipe, para apresentar o modelo de organização com o estabelecimento de fluxos do atendimento a pacientes agendados, demanda espontânea e cuidado continuado. O usuário então, é atendido na recepção e direcionado para o acolhimento com classificação de risco e continuidade do atendimento no dia ou agendamento conforme necessidade. A recepção realiza o agendamento do cuidado continuado como pré-natal, puericultura e condições crônicas. Quarta fase: controle e avaliação do impacto das ações e alcance dos objetivos. Esta fase acontece constantemente, em que as adequações dos agendamentos e rotinas é feito de acordo com as novas demandas apresentadas.
O modelo de assistência na UAPS Recreio apresentava-se como “desafogador” a demanda espontânea, se distanciando da Lei Orgânica de Saúde, não representando seu papel de ordenadora do cuidado. Apesar de garantir atendimento diariamente a todos e acesso quanto aos horários de funcionamento, mostrou-se ineficaz quanto a clínica do cuidado. Percebeu-se profissionais limitados em suas atribuições e após a organização do processo de trabalho, evidenciou-se as potencialidades dos trabalhadores, autonomia e melhoria das linhas de cuidado em saúde, tornando o serviço mais resolutivo. Para a população, houveram relatos de melhoria do acesso aos atendimentos e aproximação com a equipe de referência. Foi identificado redução do número de atendimentos por demanda espontânea, construção de agenda e vinculação adequada à equipe de referência. A implementação do ciclo administrativo como ferramenta de gerenciamento, permitiu identificar nós críticos e gerar reflexões que podem reproduzir o direcionamento do Ministério da Saúde. Por fim, percebeu-se o quanto é necessário o planejamento estratégico participativo, de forma temporal, sequencial e instrumentalizada, com análise constante das ações, sem esgotar as possibilidades.